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Lenços usados pelos povos árabes ganham cores dos países participantes da Copa nas ruas do Catar

Ghutras e thobes coloridos se tornaram os favoritos dos torcedores; em vez de desaprovar, moradores locais dizem que gostam da reviravolta em um visual tradicional

7 dez 2022 - 05h10
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THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - Jean Marc Berger deixou sua casa em Genebra para acompanhar as aventuras da Suíça na Copa do Mundo talvez com o acessório de cabeça mais neutro que existe. Sua proteção contra o sol escaldante do Golfo não ia além de um boné vermelho com uma cruz branca, uma homenagem à bandeira suíça.

No momento em que ele chegou ao Estádio 974 para o segundo jogo de seu país, porém, o boné já não estava lá. Em seu lugar, Berger, de 52 anos, adotou um ghutra, o lenço tradicional usado pelos homens em toda a Península Arábica. O dele era vermelho e branco, uma homenagem à sua terra natal. Segurando-o no lugar estava um agal, a faixa preta bem amarrada ao redor da qual o lenço é cuidadosamente dobrado.

Nunca havia ocorrido a Berger, antes de chegar ao Catar, que ele usaria um. Ele temia que isso pudesse ser visto como ofensivo por seus anfitriões ou como algo que menosprezasse a cultura do Catar, temeu que transgredisse as sensibilidades locais. "Não achei que seria possível", disse.

Ele não tinha, ao que parece, qualquer motivo para preocupação. Ghutras nas cores distintas das 32 seleções do torneio surgiram como um acessório obrigatório nesta Copa do Mundo entre as centenas de milhares de visitantes que chegaram ao Catar para acompanhar suas seleções. Eles estão à venda em barracas no Souq Waqif, o mercado reconstruído no centro de Doha, e em lojas imaculadas em shoppings de luxo. Eles são até estocados em alguns supermercados.

Os mais trabalhados podem até ir um passo além, combinando o lenço com um thobe colorido, a túnica esvoaçante que os homens árabes usam principalmente em branco, mas que, ao que parece, também vem em verde e amarelo (Brasil), listas azul celeste (Argentina) e até no vermelho, branco e azul dos Estados Unidos.

Mercado

"Eles estão vendendo bem", disse Ali, um dos cinco fundadores de uma loja pop-up que vende ghutras e thobes coloridos em locais da cidade. "Estamos um pouco surpresos com o quão bem. Todos os de países americanos - Estados Unidos, Canadá, Brasil, Argentina - estão espetaculares."

Um pouco espetacular demais, em um caso. A primeira torcida a chegar em massa à cidade veio do Equador, adversário do Catar na estreia. Ali e seus sócios não esperavam que fossem tantos. "Só pedimos 500 ghutras equatorianos", ele disse. "Nós subestimamos quantos deles haveria." Eles se esgotaram após alguns dias do torneio. "Não se preocupe," ele disse, rapidamente. "Temos milhares dos outros."

Ali - que não quis revelar o sobrenome para não tirar o crédito dos sócios - disse que a ideia de vender ghutras com as cores nacionais foi inspirada no desejo de marcar o torneio com algo distintamente árabe.

"Na África do Sul, em 2010, todos nós ouvíamos a vuvuzela", ele disse, referindo-se ao zumbido constante da buzina que ainda assombra os sonhos de quem a ouviu. "Não queríamos ter uma Copa do Mundo 'normal', como as da Alemanha ou da Rússia, que pareciam todas iguais. Queríamos algo que tornasse esta tipicamente árabe."

Embora seja do Catar, Ali admitiu estar preocupado com a ideia de que brincar com trajes nacionais tradicionais - e vendê-los a estrangeiros por 99 rials cada (cerca de US$ 25) - possa ser considerada "inaceitável" por cidadãos mais conservadores. O thobe, o ghutra e o agal, afinal, carregam conotações aos olhos árabes que aqueles de outros lugares podem não perceber ou respeitar.

Existem diferenças sutis em como o lenço é preso à cabeça que indicam de onde o usuário é, disse Hawas Alayed, um dos muitos milhares de torcedores que cruzaram a fronteira da Arábia Saudita para torcer por seu time.

"Olha, ele é do Catar", disse, apontando para um homem cuja nacionalidade podia ser discernida pelos dois pedaços de cordão que desciam pelas costas de seu agal. O modo de usar na Arábia Saudita, no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos é ligeiramente diferente, ele disse.

Alayed disse que não estava preocupado com as pessoas que adotaram recentemente o ghutra e que estavam usando-o incorretamente, ele disse. Em vez disso, ele sugeriu que ver os torcedores abraçando a cultura do Golfo deveria ser um motivo de orgulho.

'Não é um problema'

Curiosamente, essa tem sido a reação da grande maioria dos habitantes locais. "Não é um problema", disse Ahmed al-Balooshi, um catariano que caminhava pelo Souq Waqif com dois amigos, todos os três vestindo túnicas brancas. "Convidamos todos para virem aqui, e isso faz parte da nossa cultura. Além disso, é uma coisa muito prática para usar quando está calor."

Khalid al-Khabi, um funcionário do Qatar National Bank, insistiu que não ficou ofendido ao ver estrangeiros passeando em trajes tradicionais. "Eu uso thobe desde criança", ele disse. "Você está usando minha cultura." Ele ainda não comprou uma versão colorida, disse, mas se fosse comprar, escolheria o do Marrocos.

Berger, o torcedor suíço, ficou surpreso ao ver como os catarianos - e outros do norte da África e do Oriente Médio - são indulgentes quando se trata de estrangeiros adotarem e se apropriarem de costumes e roupas locais, algo que geralmente é visto como desrespeitoso na Europa e América do Norte.

Houve apenas um momento complicado. Certa manhã, um homem do Catar veio correndo em direção a Berger e um amigo que o acompanhou na jornada para a Copa do Mundo. A reação imediata de Berger foi de ansiedade. Talvez ele estivesse usando seu ghutra errado. Talvez o fato de ele estar usando um tenha sido interpretado como um insulto.

"Ele viu meu amigo e disse para ele parar", disse Berger, estendendo o braço direito à sua frente. O homem acenou para eles. "Então ele arrumou e reorganizou o lenço do meu amigo", ele disse. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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Estadão
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