Crise institucional e problema para Lula: entenda os impactos do julgamento do STF na corrida eleitoral
Especialistas consultados pelo Terra apontam que a crise do STF avança os limites institucionais e sangra na esfera eleitoral
O julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a possibilidade de abertura de uma investigação contra o ministro Alexandre de Moraes por elo com o banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, deve ultrapassar os limites do judiciário e continuar repercutindo no cenário eleitoral de 2026, principalmente pela proximidade do julgamento do primeiro turno.
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A sessão extraordinária de terça-feira, 15, foi interrompida após pedido de vista do ministro Flávio Dino, depois de uma série de embates entre os ministros. O julgamento visava julgar os procedimentos da Petição (PET) 16.662, que dispõe sobre suposta relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro, mas terminou em indefinição ainda em questões preliminares, antes mesmo que o caso pautado para julgamento fosse analisado pelos ministros.
Com relação à questão de ordem, Edson Fachin, André Mendonça, Luiz Fux e Cármen Lúcia votaram pela que a Pet 16.662 continuasse separada da Pet 16.704, processo que diz respeito à conduta do relator André Mendonça na condução das investigações. Já Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Alexandre de Moraes votaram para que o julgamento se dê de forma conjunta. Flávio Dino, que pediu vista após os ânimos se exaltarem na Corte, também votou a favor da junção --mas, como pediu o adiamento, instrumento jurídico que se sobressai ao voto, seu posicionamento não foi formalmente computado. Em paralelo, Dias Toffoli e Nunes Marques se declararam suspeitos e não participaram da votação.
Para cientistas políticos e especialistas ouvidos pelo Terra, o resultado da sessão do STF vai interferir diretamente na eleição.
O baque para Lula
O advogado e mestre em Direito pela FGV Diego Kiçula avalia que a crise pode deslocar parte da discussão eleitoral para o STF. Segundo ele, esse movimento pode ser explorado pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que, na avaliação do especialista, tende a associar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Moraes e a relacionar o episódio do Banco Master a outros temas mobilizados pelo bolsonarismo, como a prisão de Jair Bolsonaro (PL) e questionamentos sobre o processo eleitoral de 2022.
Para Kiçula, a associação entre Lula e a crise do Supremo pode ampliar a deconfiança de parte do eleitorado nas instituições. Ele também avalia que os efeitos do episódio podem se prolongar até o período eleitoral.
"A crise no STF deve prosseguir muito além da sessão de hoje, seja pela falta de conclusão, seja pelas novas informações que podem surgir das investigações."
O especialista afirma ainda que, em sua avaliação, o desgaste institucional pode atingir a campanha do presidente Lula por ele estar à frente do governo federal durante o período de crise.
Mayra Goulart, mestre e doutora em Ciência Política pela UERJ, também considera que a interrupção do julgamento não encerra o desgaste provocado pela crise. Para ela, a indefinição pode prolongar a presença do tema na disputa eleitoral.
"A interrupção não suspende o desgaste político que afeta sobretudo a campanha do presidente Lula."
Na avaliação de Goulart, a continuidade da discussão sobre o Supremo pode funcionar como elemento de mobilização da direita e manter a questão institucional presente no debate eleitoral.
"É claro que o envolvimento do Nunes Marques e do André Mendonça em dinâmicas não republicanas pode custar alguma parte dessa mobilização mas ainda assim, acho que o prejuízo é maior para o campo democrático e para a campanha do Lula."
Instituições em crise
O cientista político Hilton Fernandes, professor do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da FESPSP, chama atenção para a decisão do ministro Kassio Nunes Marques de se declarar impedido de participar do julgamento. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele afirmou que o caso poderia ter impacto sobre as eleições de 2026.
Para Fernandes, a saída de Nunes Marques mostra que a crise do STF já alcança diretamente a Justiça Eleitoral. "O fator de o Ministro Nunes Marques, na condição de Presidente do TSE, ter declarado impedimento e deixado a sessão do STF é o sintoma mais alarmante do dia, em termos eleitorais"..
Fernandes avalia que, em vez de afastar o tema eleitoral da crise do Supremo, o episódio pode aproximá-los. Para ele, o desgaste da Corte tende a ser incorporado ao discurso de candidatos nas eleições de 2026, especialmente na disputa pelo Senado.
"Em 2026, o Supremo não será o árbitro das eleições: será o próprio centro gravitacional da disputa nas urnas".

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