Script = https://s1.trrsf.com/update-1768488324/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Joana d'Arc não-binária em peça causa debate sobre sexo e identidade de gênero na Inglaterra

Mesmo antes de a peça estrear, ela havia inflamado um debate rancoroso que acontece quase diariamente na Grã-Bretanha

13 set 2022 - 05h11
Compartilhar
Exibir comentários

THE NEW YORK TIMES - LIFE/STYLE - LONDRES - Quando o dramaturgo Charlie Josephine assistiu à primeira apresentação de sua peça I, Joan no Shakespeare's Globe, ele se sentou no teatro, estressado.

A peça, baseada na história de Joana d'Arc, é a primeira de Josephine em um grande palco de Londres. Mas essa não foi a única razão pela qual o dramaturgo, que se identifica como transgênero, queer e não-binário, e usa o pronome ele, estava ansioso. Ao longo do mês passado, "I, Joan" esteve no centro de um furor da mídia na Grã-Bretanha por causa da decisão de Josephine de retratar Joana d'Arc como não-binária.

Na peça, em cartaz no Globe até 22 de outubro, Joana d'Arc aceita sua identidade de gênero enquanto inspira soldados franceses a repelir as forças inglesas de seu solo. "Eu não sou uma garota", Joana diz a certa altura. "Não me encaixo nessa palavra."

Joana d'Arc é interpretada como uma pessoa não-binária por Isobel Thom em 'I, Joan', uma produção do Shakespeare's Globe em Londres. Foto: Helen Murray via The New York Times

Quando o Daily Mail, um jornal tablóide, divulgou detalhes da produção do Globe, isso levou a uma enxurrada de reclamações nas mídias sociais e na mídia impressa. Allison Pearson, colunista do The Daily Telegraph, um jornal conservador, escreveu que apresentar Joana d'Arc como não-binária era "um insulto". Sophie Walker, ex-líder do Partido Women's Equality da Grã-Bretanha, escreveu no Twitter que, quando "era uma garotinha, Joana d'Arc apresentou possibilidades emocionantes sobre o que uma jovem poderia fazer contra uma multidão de homens. Reescrevê-la como não feminina e mostrar isso como progresso é uma grande decepção."

Antes que alguém tivesse assistido, a peça do Globe tocou um ponto sensível na Grã-Bretanha, onde um conflito entre os direitos das mulheres e pessoas transgêneros e não-binárias desencadeou um debate furioso que acontece quase diariamente na mídia, nos discursos dos legisladores e nos tribunais. Algumas feministas na Grã-Bretanha há muito pedem a manutenção dos direitos baseados no sexo biológico, em vez da identidade de gênero, que, segundo elas, ameaça os espaços exclusivos das mulheres. Muitos transgêneros e não-binários dizem que essas campanhas os discriminam e criam um ambiente hostil.

A história de Joana d'Arc - uma adolescente do século 15 que teria seguido as instruções de Deus para vestir roupas masculinas e liderar soldados franceses na batalha, apenas para ser julgada por heresia e queimada na fogueira - tem sido o tema de peças por séculos. Daniel Hobbins, historiador da Universidade de Notre Dame, disse que muitas dessas representações brincavam com a verdade histórica. Shakespeare, em Henrique VI, Parte 1, retratou Joana d'Arc como uma bruxa, de acordo com as opiniões britânicas da época, disse Hobbins. No início do século 19, Friedrich Schiller, em A Donzela de Orleans, mostra Joana se apaixonando por um cavaleiro inglês. "Isso não aconteceu", disse Hobbins. "Ela tem sido reimaginada para atender às necessidades contemporâneas."

Lucy Delap, professora de história de gênero na Universidade de Cambridge, disse que a reinvenção de Joana d'Arc por Josephine alimentou um debate na Grã-Bretanha que se tornou "tão intenso" que houve pouca comunicação entre os dois lados. Uma peça como "I, Joan" poderia funcionar como uma forma de abrir uma conversa que cruzaria essa divisão, ela disse, mas, em vez disso, se tornou um "apito de cachorro útil" para pessoas "irritadas sobre questões trans. "

No terraço dos escritórios do Globe na semana passada, Josephine disse que havia antecipado a maioria das reclamações e achava que estavam equivocadas. A peça não estava tentando apagar as mulheres da história, disse Josephine. Destinava-se a abrir novas formas de pensar sobre uma figura histórica. Se alguém quisesse continuar pensando em Joana como uma mulher jovem, ele disse: "então, legal - você ainda pode".

Thom como Joana d'Arc. Foto: Helen Murray via The New York Times

Josephine, de 33 anos, disse que a história da mártir francesa significou pouco para ele que cresceu em uma família da classe trabalhadora em Hemel Hempstead, no sul da Inglaterra. O Globe pediu que ele escrevesse a peça no ano passado; a principal preocupação do dramaturgo, a princípio, não tinha nada a ver com gênero, mas como falar sobre as crenças religiosas de Joana de uma maneira que ressoasse em um público em grande parte não religioso.

Josephine disse que a decisão de fazer Joana não-binária veio depois de estudar sua vida e perceber que Joana d'Arc estava disposta a morrer na fogueira em vez de parar de usar roupas masculinas. Esta "não foi uma declaração de moda casual", disse Josephine. "Era uma necessidade profunda." Josephine queria retratar como teria sido para "uma jovem em um corpo feminino, que está questionando o gênero em uma sociedade muito diferente da que vivemos agora", ele disse. "Meu eu mais jovem realmente precisava de uma protagonista como essa", acrescentou.

Michelle Terry, diretora artística do Globe, disse que o teatro tem um histórico de causar agitação ao brincar com gênero no palco. Em 2003, Mark Rylance, o diretor artístico na época, irritou alguns patrocinadores com peças só com mulheres de A Megera Domada e Ricardo III. Mais recentemente, Terry disse que recebeu reclamações por interpretar Hamlet lá em 2018, e novamente este ano, quando o Globe fez uma turnê de uma produção de "Júlio César" em que os principais personagens masculinos eram interpretados por mulheres.

"Todo mundo tem uma ideia de como as peças devem ser feitas e como as figuras históricas devem ser tratadas", ela disse. Tudo o que I, Joan estava fazendo, disse Terry, era perguntar: "Quem é Joan agora?"

Apesar de toda a confusão da mídia, o único lugar onde poucas pessoas pareciam preocupadas com o gênero de Joana d'Arc era no auditório do próprio Globe. Em uma apresentação recente de "I, Joan", o público de quase 1.000 pessoas era composto pela mistura habitual de amantes do teatro britânico, turistas e grupos escolares. Às 19h30, Isobel Thom, que interpreta Joan, subiu ao palco e deu início ao discurso de abertura da peça "Pessoas trans são sagradas. Nós somos o divino." O monólogo foi interrompido por aplausos de apoio.

Robin van Asselt, 23, uma mulher transgênero de Amsterdã na plateia, disse que chorou ao ver a "queerness casual " no palco. O "empurrão agressivo de Joan para ser vista e respeitada" como não-binária "foi tão catártico", acrescentou van Asselt. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Estadão
Compartilhar
TAGS
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade