Após 'acordo' com Trump, Zelensky adota tom crítico aos europeus em Davos
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, declarou na quinta-feira, 22 de janeiro, que havia chegado a um acordo com o líder americano Donald Trump sobre garantias de segurança pós-guerra com a Rússia, e anunciou a realização da primeira reunião entre representantes ucranianos, americanos e russos. Horas depois, Zelensky adotou um tom crítico para se referir aos europeus, de quem cobrou "coragem".
Em uma atitude incomum, o presidente ucraniano direcionou críticas duras à Europa no discurso que fez no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça). Zelensky afirmou que falta "coragem" aos europeus a respeito das ambições de Donald Trump na Groenlândia, e que vê o continente "fragmentado" e "perdido". Para ele, existe no bloco europeu um "problema de mentalidade".
"Em vez de se tornar uma verdadeira potência mundial, a Europa permanece um belo, porém fragmentado, caleidoscópio de pequenas e médias potências", lamentou. "Em vez de tomar a iniciativa na defesa da liberdade no mundo, especialmente quando os interesses dos Estados Unidos estão voltados para outros lugares, a Europa parece perdida em suas tentativas de convencer o presidente americano a mudar", declarou.
Zelensky considera que a resposta europeia às investidas de Trump na Groenlândia transmite insegurança. "Se você enviar de 30 a 40 soldados para a Groenlândia, qual o sentido? Que mensagem isso transmite? Que mensagem transmite a Putin? À China? E, mais importante, que mensagem transmite à Dinamarca, sua aliada mais próxima?", questionou o presidente ucraniano. "A Europa precisa ser forte. E, acima de tudo, devemos ter a coragem de agir", insistiu Volodymyr Zelensky.
O líder de Kiev concluiu que Vladimir "Putin, infelizmente, conseguiu paralisar a Europa", antes de conclamar os europeus a "se unirem para deter a Rússia".
Reunião com Trump
Os europeus concordaram em enviar tropas terrestres em caso de cessar-fogo com a Rússia, mas Zelensky afirmou que "nenhuma garantia de segurança pode funcionar sem os Estados Unidos" e que o apoio do americano era "indispensável".
O discurso crítico em relação aos principais apoiadores políticos e financeiros de Kiev desde a invasão russa da Ucrânia, em 2022, ocorreu após o encontro com Donald Trump em Davos. O diálogo com o americano "não é simples", admitiu o líder ucraniano, ao mesmo tempo em que descreveu o encontro como "positivo".
"A guerra precisa acabar", disse Donald Trump a repórteres após o encontro, quando questionado sobre a mensagem que queria transmitir ao presidente russo, Vladimir Putin. Os enviados de Donald Trump para o conflito, Steve Witkoff e Jared Kushner, são esperados em Moscou na noite de quinta-feira para se encontrarem com Putin.
Durante meses, as capitais europeias têm tentado influenciar as discussões, temendo que Washington, que se apresenta como mediador, imponha a Kiev uma solução favorável a Moscou.
Sem solução para questão territorial no leste ucraniano
Zelensky declarou que ele e o presidente dos Estados Unidos haviam chegado a um acordo sobre garantias de segurança americanas pós-guerra, uma questão fundamental no desenvolvimento de um plano para encerrar a invasão russa. Após se reunir com Trump em Davos, Zelensky disse que as garantias de segurança estão "em vigor", acrescentando que "o documento deve ser assinado pelas partes, pelos presidentes, e então será encaminhado aos parlamentos nacionais".
Entretanto, segundo Zelensky, a questão dos territórios orientais, reivindicados por Moscou, permanece sem solução. "Tudo gira em torno da parte leste do nosso país. Tudo gira em torno dos territórios. Esse é o problema que ainda não resolvemos", disse ele, em uma coletiva de imprensa à margem do Fórum Econômico Mundial de Davos.
O presidente ucraniano mencionou discussões "trilaterais" com Moscou e Washington neste fim de semana nos Emirados Árabes Unidos, mas não deu detalhes. "Acho que esta será a primeira reunião trilateral, nos Emirados Árabes Unidos. Será amanhã e depois de amanhã", indicou. "Os russos devem estar prontos para fazer concessões."
Com informações da AFP e Reuters