JAC, Foton e Sinotruk avançam com oferta de caminhões chineses no Brasil
Marcas abandonam representantes locais e assumem operações próprias; estratégia mira quebrar desconfiança do frotista e desafiar marcas tradicionais
O mercado brasileiro de veículos comerciais presencia uma "segunda onda" chinesa, agora com uma estratégia mais agressiva: o controle da operação local pelas matrizes. As montadoras chinesas JAC Motors, Foton e Sinotruk iniciaram ofensiva para conquistar o transportador nacional, apostando no fim dos intermediários e em componentes de "grife" para conquista a confiança.
A JAC Motors é a mais recente a oficializar esse movimento. A fabricante passará a vender no país, a partir de 2026, quatro novos modelos de caminhões diesel — do leve ao pesado — com operação 100% própria. A linha inclui o N9170 (9 toneladas), o N13210, o médio A18290 e o pesado A25290, capaz de tracionar até 25 toneladas.
Powertrain consagrado para vencer o preconceito
Para enfrentar marcas veteranas como Mercedes-Benz, Volvo e Scania, a JAC adotou a mesma receita da compatriota Foton: equipar seus veículos com o que há de mais conhecido no mercado global.
Os novos modelos chegam ao Brasil com motores Cummins e caixas de transmissão fornecidas pela ZF ou Eaton. "Essa escolha é vital para o pós-venda. O frotista tem a segurança de encontrar peças de reposição e mão de obra qualificada em qualquer região do país, algo que era o 'calcanhar de Aquiles' das marcas chinesas no passado.
Rede de atendimento e fabricação local
A JAC planeja iniciar sua operação com 30 concessionárias e unidades importadas, mas a montagem nacional já está no cronograma. A ideia é aplicar o regime SKD (Semi Knock-Down), utilizando peças importadas para montagem local o mais breve possível.
"Nossa meta é conquistar 1,5% de market share no primeiro ano e chegar a 3% até o fim do terceiro", afirma Miguel Xun, diretor-geral da companhia.
Por que a aposta na operação própria?
O avanço de marcas como Foton e Sinotruk, além da JAC, revela uma mudança de postura: as fabricantes perceberam que, para obter êxito no Brasil, precisam controlar o pós-venda. No modelo antigo, com representantes locais, a descontinuidade de serviços e a falta de peças minaram a reputação de muitas marcas.
Agora, com as matrizes assumindo o risco, o cenário muda. "O mercado hoje tem mais condições de aceitar o caminhão chinês porque o padrão de qualidade se equiparou ao europeu. O preço competitivo surge como uma alternativa atraente em um momento de crédito escasso para renovação de frota", explica o consultor David Wong, da Alvarez & Marsal.
Gigantes globais na disputa
A ofensiva não é por acaso. Essas empresas têm força fora do Brasil:
- JAC: Já comercializou mais de 1,5 milhão de caminhões em 130 países.
- Foton: Registrou mais de 11 milhões de veículos comerciais vendidos globalmente entre 1996 e 2023.
- Sinotruk: Exportou mais de 290 mil unidades da China apenas nos últimos quatro anos e agora busca retomar espaço no mercado brasileiro com estrutura própria.