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Homem atravessa o Atlântico a remo para ajudar a Ucrânia

16 fev 2026 - 15h16
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Nascido na Rússia, o médico Leonid Krivsky organiza campanhas de apoio a Kiev a partir da Inglaterra, onde vive. Médicos na Ucrânia sofrem com a falta de itens básicos para tratamentos.Faz muito frio em Kiev - e não apenas por ser inverno. Os constantes ataques russos destruíram parte da estrutura energética, causando interrupções no fornecimento de energia elétrica. Falta aquecimento em muitos lugares. É particularmente difícil para os médicos trabalhar nessas condições. Além disso, a Ucrânia sofre com a escassez de itens básicos e, sem ajuda de fora, é difícil controlar a situação.

Andriy Strokan, médico-chefe adjunto da Clínica Feofania em Kiev, aponta para uma pequena bandeira ucraniana visivelmente desgastada na parede. Abaixo dela há uma placa emoldurada onde se lê, em ucraniano: "Leo Krivsky é um anestesiologista de Southampton, sul da Inglaterra, que nasceu na Rússia. Ele cruzou o Atlântico sozinho. Viajou todo o percurso sob esta bandeira para apoiar os médicos ucranianos."

"Ele tem ajudado nossa clínica há bastante tempo. Uma prova disso é sua travessia do Atlântico", diz Strokan.

Em 2025, a campanha Leo's Row arrecadou 60 mil libras esterlinas (cerca de R$ 430 mil). Leonid Krivsky, que vive no Reino Unido há 25 anos, doou o dinheiro para hospitais ucranianos. Ele apoia alguns desde o início da invasão russa em 2022 e outros desde 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia e ocupou territórios no leste da Ucrânia .

Organização humanitária para a Ucrânia

Leonid Krivsky nasceu em Moscou em 1971. Estudou medicina e se mudou para o Reino Unido em 2002, onde trabalha como consultor sênior em anestesiologia no Hospital Universitário de Southampton. Ele e sua esposa ucraniana, Valeria, têm duas filhas em idade escolar. O próprio Krivsky também tem raízes ucranianas. Durante a era soviética, ele passava as férias de verão quando era criança com parentes perto de Kiev.

Krivsky não voltou mais à Rússia desde 2014. Quando a guerra de agressão russa contra a Ucrânia começou, em 2022, ele arrecadou 30 mil libras esterlinas (R$ 214,2 mil) com amigos, comprou medicamentos essenciais e os carregou em um caminhão.

"Dirigi até Lviv, distribuí pessoalmente os medicamentos e me abriguei em um bunker. Voltei lá mais cinco vezes depois disso", conta.

O médico britânico fundou sua própria organização de ajuda humanitária, a Ukrops. Além da vontade de fornecer assistência material, Krivsky queria mostrar a seus colegas ucranianos que eles não estão sozinhos, que alguém está pensando neles.

Travessia do Atlântico como sinal de solidariedade

Então, Krivsky teve uma ideia: uma travessia transatlântica como um gesto especial de apoio à Ucrânia. Por acaso, o médico soube por conhecidos que um barco a remo com o curioso nome de Happy Socks estava à venda. A embarcação já havia sido usada para atravessar o Oceano Pacífico do Japão aos Estados Unidos. O próprio Krivsky havia praticado remo em sua juventude.

Os preparativos para a travessia do Atlântico levaram cerca de um ano. Em 26 de dezembro de 2024, Krivsky partiu das Ilhas Canárias e chegou à costa de Barbados em 1º de abril de 2025.

Ele remou 3 mil milhas náuticas (cerca de 4.700 quilômetros) e filmou a si mesmo e suas experiências para seu site, onde arrecada fundos para médicos ucranianos.

Quase cem dias sozinho no Atlântico

Foi só quando já estava no mar que percebeu que algo estava errado com o barco. "A porta da cabine deveria ser como a de uma nave espacial - completamente hermética", explica Krivsky. Mas a vedação de borracha se mostrou defeituosa e o barco alagou na primeira tempestade. "Perdi muitos mantimentos, tudo ficou úmido e começou a mofar. Foi bem assustador", admite Krivsky.

Ao longo de sua aventura de remo, ele manteve contato constante com sua equipe em terra. Mas Krivsky conta que várias vezes teve dúvidas se realmente alcançaria seu objetivo. Por exemplo, na véspera de Ano Novo, um grande navio apareceu no radar diretamente em seu caminho, um navio que poderia facilmente ter afundado o Happy Socks. O capitão não tinha visto o barco de Krivsky e só iniciou uma mudança de curso no último momento, após uma conversa por rádio.

Leo Krivsky remou incansavelmente - apesar de seu sistema de direção quase ter falhado, apesar de um vazamento mal vedado e apesar das sujeiras no casco que não podiam ser removidas e estavam diminuindo a velocidade do barco.

As duas últimas semanas foram as mais difíceis, conta Krivsky. Os suprimentos de comida estavam escassos, e seu corpo estava debilitado. Completamente sozinho no meio do Atlântico, ele chegou a ter alucinações. Viu sombras na água, como se algo enorme estivesse nadando sob o barco, relata o médico.

"Eu me sentia como um monstro marinho e pensei que nunca chegaria à costa", diz ele. Pouco antes de chegar a Barbados, ele contatou a guarda costeira por rádio e foi rebocado pelos últimos oito quilômetros até o porto. Lá, Leo Krivsky finalmente reencontrou a esposa e uma das filhas.

Ajuda concreta para médicos ucranianos

Krivsky se tornou uma figura conhecida na Ucrânia. A Clínica Feofania recebe dele muitos suprimentos que não estão disponíveis no país, relata Andriy Strokan - especialmente materiais para cirurgia, anestesia e terapia intensiva.

O médico explica que tratar um paciente ferido em guerra na UTI pode custar o equivalente a até 10 mil euros (R$ 62 mil), em alguns casos até 98 mil euros (R$ 608 mil). A ajuda de Krivsky torna as cirurgias possíveis. Só no ano passado, a clínica de Kiev conseguiu operar cerca de 40 pacientes feridos em guerra graças ao seu apoio.

Valeria Krynichko, professora da Universidade Médica de Kharkiv e cirurgiã, contatou Krivsky pelo Facebook em meados de 2025 e contou a ele sobre seu trabalho em dois hospitais que tratam vítimas de minas terrestres. Krivsky então enviou a Kharkiv instrumentos para reconstrução de mandíbula no valor aproximado de 18 mil euros (R$ 112 mil euros). Outro carregamento é esperado. Graças a esse apoio, os médicos podem operar vítimas de guerra gratuitamente.

"É importante que uma pessoa possa comer, falar e participar da vida social novamente se perdeu parte do rosto devido a uma mina terrestre na guerra", diz Krynichko.

"Sem a ajuda de Leonid, teríamos muita dificuldade", diz Viktor Rokutov, do Centro Ortopédico da cidade de Dnipro. A clínica trata vítimas de guerra, principalmente famílias e crianças, e recebeu equipamentos urgentemente necessários do Reino Unido para o tratamento de fraturas ósseas. Graças a esse apoio, o hospital agora está "totalmente equipado", segundo Rokutov. "Leonid e eu estamos em contato constante. Ele está sempre atualizado e pergunta do que precisamos. A ajuda dele é inestimável", enfatiza o médico.

O diferencial de sua organização de ajuda humanitária, explica Krivsky, é: "Fazemos tudo pessoalmente. Conhecemos bem as pessoas na Ucrânia; não enviamos coisas aleatórias que sejam desnecessárias ou que não se encaixem no que elas já têm."

As experiências de sua travessia do Atlântico, que durou 96 dias e o levou aos limites da capacidade humana, continuam a influenciar Krivsky - inclusive seus projetos para a Ucrânia. "Muitas vezes, nem sequer começamos porque temos medo de falhar. Você simplesmente precisa começar algo e não pode ter medo", diz ele com um sorriso.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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