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Guilherme Mazieiro

Sem aviso ou abrigo: por que palestinos não conseguem se proteger dos ataques de Israel na Faixa de Gaza

Ao contrário de Israel que tem sistema antimíssil, abrigos subterrâneos e sirenes, palestinos descobrem bombardeios quando ouvem explosões

24 out 2023 - 10h12
(atualizado às 10h14)
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Palestino lava as mãos em uma poça ao lado de um prédio destruído após os ataques israelenses na Cidade de Gaza
Palestino lava as mãos em uma poça ao lado de um prédio destruído após os ataques israelenses na Cidade de Gaza
Foto: hmed Zakot/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

A realidade da população em Gaza sob ataque constante de Israel é de “terror”, foi assim que me descreveu o palestino naturalizado brasileiro, Hasan Rabee, para contar como é sua rotina sob bombas.

Hasan está com sua família em Khan Younis, cidade ao Sul de Gaza, onde convive com bombardeios diários e próximos a sua casa. Ele relatou que ao contrário das cidades de Israel, onde a população é avisada por sirenes sobre a ameaça de mísseis e há bunkers (abrigos subterrâneos) para se protegerem, em Khan Younis os palestinos descobrem que há bombardeios quando sentem os tremores das explosões.

"Não existe nenhum sistema, não tem bunker, não tem abrigo. Não tem nada. Se cair uma bomba ou você estará no hospital ou no cemitério. Não existe nenhum sistema como em Israel. Israel tem a melhor tecnologia e armamento do mundo. Aqui o que que tem? O armamento deles [Hamas] é um lixo, não tem preparação [para defesa da população]", disse em mensagem de áudio enviada à coluna nesta segunda-feira, 23.

Em Israel, além do sistema de bunkers e sirenes, há o “domo de ferro”, um sistema antimíssil que monitora e bloqueia até 90% dos ataques inimigos, segundo informações do Exército de Israel. Quando o radar do sistema identifica uma ameaça, projeta a trajetória desse míssil inimigo e lança um foguete para colidir contra o artefato ainda no ar, evitando que atinja o solo.

Escolas, prédios e hospitais foram atingidos por bombardeios de Israel. O número de mortes apenas em Gaza chega a 5,7 mil, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Somado aos cerca de 1 mil mortos pelo Hamas, em 7 de outubro, total de vítimas fatais supera os 6,7 mil. Um hospital em Gaza foi atingido por uma explosão, na última semana. Há uma disputa de versões entre os dois lados do conflito sobre a autoria da bomba. A Organização das Nações Unidas (ONU) investigará o caso.

“Todo mundo fica em choque e louco, correndo. Minha filha fica chorando. Não tem abrigo e lugar seguro. Você fala de um país com tecnologia de primeiro mundo e no outro lugar quase não tem armamento, um armamento que não funciona para nada”, contou Hasan.

Além da falta de água, medicamentos e alimentos, a comunicação também é ruim. Os palestinos convivem sem sinal de internet, energia elétrica para carregarem as baterias de celulares e aparelhos eletrônicos.

O relato de Rabee sobre a falta de abrigos e preparo para proteção dos palestinos foi corroborado pelo professor de Segurança e Defesa da Pós-Graduação lato sensu Política e Relações Internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Bernardo Wahl. Em entrevista à coluna e à repórter Karen Lemos, ele destacou também que Gaza possui diversas fragilidades estruturais, como a falta de um sistema de defesa civil, devido em grande parte ao bloqueio imposto à região.

"A infraestrutura de defesa civil em Gaza é limitada, e os palestinos na Faixa de Gaza dependem, em grande parte, de alertas por telefone ou mensagens de texto do exército israelense para serem informados sobre ataques iminentes", analisou Wahl.

Veja aqui a entrevista completa com Bernardo Wahl e entenda as diferenças do poder militar e de defesa do Hamas e Israel.

A escalada do conflito aconteceu após homens do Hamas, grupo islâmico que controla a Faixa de Gaza, atacar Israel, deixando ao menos 1 mil mortos, em 7 de outubro. A incursão do grupo matou civis e destruiu casas, cerca de 200 pessoas, entre crianças, mulheres e idosos, foram levados durante o ataque de Israel para Gaza, onde são mantidos reféns.

Ainda que o ataque do Hamas tenha surpreendido as forças de Defesa israelenses e provocado a maior destruição e vítimas dos últimos 70 anos, o poderia militar de Israel, com apoio dos Estados Unidos, é superior ao do Hamas, que recebe suporte do Irã.

*Colaboração Karen Lemos, do Terra

Fonte: Guilherme Mazieiro Guilherme Mazieiro é repórter e cobre política em Brasília (DF). Já trabalhou nas redações de O Estado de S. Paulo, EPTV/Globo Campinas, UOL e The Intercept Brasil. Formado em jornalismo na Puc-Campinas, com especialização em Gestão Pública e Governo na Unicamp. As opiniões do colunista não representam a visão do Terra. 
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