Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Guerra no Sudão: rumo à partição ou a um conflito sem fim?

O país do Norte da África vive uma guerra não declarada, sem perspectivas de resolução

8 abr 2026 - 11h08
Compartilhar
Exibir comentários

O conflito deflagrado no Sudão em 2023 provocou o maior colapso humanitário do século XXI. Embora os registros da Organização das Nações Unidas quantifiquem entre 30.000 e 40.000 óbitos diretos, a subnotificação sugere um cenário mais letal: estimativas de mortalidade oscilam entre 150.000 e 522.000 vítimas. A crise humanitária é também marcada pela migração forçada de 12 a 14 milhões de pessoas. De 29 a 33 milhões de pessoas se encontram em situação de insegurança alimentar.

Casos de fome foram registrados em regiões ocidentais e centrais. Paralelamente, a violência sexual institucionalizou-se como arma de guerra. No entanto, ao contrário da mobilização internacional observada na ocasião do genocídio em Darfur (2003-2004), o conflito atual padece de uma invisibilidade deliberada, asfixiado por uma (des)ordem mundial caracterizada pela saturação informacional relacionada a volatilidade geopolítica.

Sudão: um território com vocação de cruzamento?

O Sudão consolidou-se como um cruzamento entre o Sahel central e o nordeste africano, bem como entre os mundos árabe e subsaariano. Sua posição estratégica integrou o território sudanês em redes circulatórias cujos fluxos de bens, pessoas e ideias percorreram rotas transaarianas, fluviais e marítimas. Paralelamente, migrações de mão de obra emulsionaram a agricultura e dinamizaram trocas transfronteiriças.

O trânsito de migrantes árabes e de peregrinos muçulmanos rumo a Meca atuou como vetor de mudanças religiosas e culturais. O fortalecimento dessas redes definiu o Sudão como um espaço de conexões e circulações. Port-Sudan destacou-se como um nó logístico e comercial, atraindo árabes, indianos e subsaarianos, contribuindo para a formação de uma sociedade cosmopolita, marcada por pluralidade religiosa, linguística e cultural.

Colonização e hegemonia das elites árabe-muçulmanas

Entre 1899 e 1956, o Condomínio Anglo-Egípcio compartilhou a soberania entre o Reino Unido, que detinha o controle político e militar, e o Egito, exercendo uma autoridade formal. O controle do Rio Nilo, entre Cartum e Cairo, conferiu uma profundidade geoestratégica notável ao Império britânico.

A administração colonial era centralizada e dominada por uma elite árabe-islâmica que marginalizava as minorias etnoculturais e religiosas. Após a independência (1956), o Estado pós-colonial exacerbou a marginalização das regiões meridionais e ocidentais. A islamização da sociedade e a militarização do poder geraram ressentimentos e ciclos recorrentes de violência e instabilidade.

Uma contemporaneidade marcada por guerras, genocídios, golpes de Estado

A história contemporânea do Sudão foi marcada por rupturas institucionais e golpes de Estado, alternando breves governos civis e regimes autocráticos e/ou militarizados. O descumprimento das promessas de autonomia às regiões do Sul desencadeou a primeira guerra sudanesa (1955-1972) evidenciando tensões que que continuariam a assombrar o país durante o durante o segundo conflito entre 1983 e 2005. Os confrontos resultaram em milhões de mortos, deslocados e refugiados.

O golpe de 1989, que levou Omar al-Bashir ao poder, aprofundou o autoritarismo, a militarização do Estado, a repressão, a islamização da sociedade, a corrupção e a oligarquização da economia. Para permanecer no poder, Bashir recorreu às Forças Armadas, aos serviços de segurança e a milícias paramilitares tendo como efeito colateral a erosão da autoridade estatal.

Em 2003, o Darfur tornou-se o epicentro de um conflito devastador. Grupos rebeldes foram violentamente reprimidos pelo Estado sudanês, que armou milícias árabes, os janjaweeds, que perpetraram crimes de guerra, genocídio e limpeza étnica contra populações não árabes. Rebatizada Forças de Apoio Rápido (RSF), a milícia se tornou um dos principais atores da crise sudanesa contemporânea.

A independência do Sudão do sul: o cruzamento amputado

Na década de 1960, a dominação das populações negro-africanas, cristãs e "animistas" pelas elites árabe-muçulmanas provocou uma longa guerra entre o Sul e o Norte, sancionada pela Independência dos sulistas em 2011. A partição do país cruzamento foi um marco geopolítico do século XXI num continente cujas fronteiras nacionais permanecem, em grande medida, inalteradas desde as Independências.

A perda de 75% das receitas petrolíferas agravou a crise econômica do Sudão e intensificou sua dependência de recursos disputados por senhores de guerra. Diante da multiplicação dos focos de instabilidade, o governo aprofundou a militarização do poder, da burocracia e da economia, ampliando o protagonismo das Forças Armadas Sudanesas e de grupos paraestatais, o que contribuiu para o fracionamento do sistema de segurança.

Dos sonhos da Revolução de 2019 à Guerra de 2023

A incapacidade do Estado de atender demandas da população, a manobras para a perpetuação do regime e o agravamento da crise econômica alimentaram o descontentamento social. A juventude, os sindicatos e as populações urbanas emergiram como atores centrais da contestação política. A Revolução de 2019 constituiu um marco na história do continente africano, simbolizando a resiliência da sociedade civil. As mulheres assumiram um papel de vanguarda, estruturando redes de solidariedade e desafiando códigos sociais e jurídicos segregadores. A força da mobilização foi interpretada como o alicerce para a edificação de um "novo Sudão", livre e inclusivo.

Após a deposição de al-Bashir, em abril de 2019, um governo de transição composto por civis e militares obteve um mandato para organizar eleições democráticas. O Conselho de Transição era presidido por Abdel Fattah al-Burhan, tendo Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti) como vice-presidente.

O período foi marcado por desconfiança mútua, crises econômicas, ressurgimento de conflitos regionais e tentativas de golpe. A questão da integração das Forças de violenta de protestos evidenciou a fragilidade do processo de transição e a resistência dos militares à perda de privilégios.

Em outubro de 2021, al-Burhan liderou um golpe que dissolveu o governo de transição, prendeu líderes civis e declarou estado de emergência. A repressão aos protestos populares e a fragmentação das forças civis selaram o fracasso da transição democrática, abrindo caminho para o conflito entre as forças regulares e rebeldes.

2023: o início de uma guerra sem fim?

A guerra, iniciada em 2023, é fruto de décadas de instabilidade sistêmica, de crises de legitimidade política, da falência da transição democrática, das disputas por recursos e do envolvimento de potências estrangeiras que transformaram o território sudanês em palco de rivalidades geopolíticas.

A morosidade do processo de integração das Forças de Apoio Rápido de Hemedti, às Forças Armadas Sudanesas, comandadas por al-Burhan, foi instrumentalizada pelos futuros insurgentes para mobilizar suas tropas e desencadear ataques contra quartéis, o palácio presidencial e o aeroporto da capital. A batalha por Cartum tornou-se o símbolo da disputa pelo controle do Estado sudanês. O conflito expandiu-se para outras regiões, onde os beligerantes exploraram clivagens etnorreligiosas para obter o apoio de milícias locais.

Destruição de Cartum

A guerra curso apresenta duas características singulares. A primeira diz respeito aos atores envolvidos no conflito, opondo Forças Armadas Sudanesas, e Forças de Apoio Rápido, criadas em 2013 a partir da reestruturação das milícias janjaweeds. Diferentemente dos conflitos marcados pela proliferação de insurgentes, aqui a configuração bélica circunscrita, ainda que envolva algumas milícias locais.

Embora, inicialmente, os confrontos apresentassem feições convencionais, as forças em presença passaram a incorporar práticas de milicia como: sistematização dos saques, da violência sexual e do desrespeito ao Direito Internacional Humanitário. Sem projetos políticos ou ideológicos, os beligerantes disputam o poder e a exploração de ouro e terras que garantem o enriquecimento das elites militares e a manutenção de redes clientelistas estratégicas. A segunda singularidade do conflito reside no envolvimento de inúmeros países do Oriente Médio, da África do norte e do Nordeste, além de potências globais.

Os 800 km do litoral no Mar Vermelho, as fronteiras agrícolas e as reservas auríferas converteram o Sudão em um espaço estratégico para interesses exógenos. A renda por essa localização privilegiada estimula, igualmente, a internacionalização do conflito inserido em um quadro global marcado pela desregulação das relações internacionais. Em vez de se traduzir em benefícios, a posição do Sudão passou, assim, a alimentar disputas e cobiças que agravam uma crise humanitária de proporções catastróficas.

O resultado é a consolidação de uma guerra não declarada e, por isso mesmo, sem perspectivas de resolução. Como a vitória de um dos beligerantes é improvável, sobretudo em razão dos ganhos materiais proporcionados pela economia de guerra, o país enfrenta hoje o risco de uma nova partição, que poderia separar Darfur e sua periferia imediata do restante do território sudanês, ou de mergulhar em uma "guerra sem fim".

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Frédéric Monié não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
Compartilhar

Comentários

As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.

Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra