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Falta caminhoneiros em quase 90% das transportadoras no Brasil

Envelhecimento da categoria, excesso de controle e concorrência com carros de aplicativo agravam crise no transporte de cargas

11 mai 2026 - 11h42
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"Eu mesma tenho uns 20 caminhões parados no pátio porque não tenho motorista." A declaração de Gislaine Zorzin, diretora administrativa da Zorzin Logística e diretora institucional da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), resume uma crise que já afeta diretamente o transporte rodoviário de cargas no Brasil.

Pesquisa da NTC&Logística divulgada em março mostra que 88% das transportadoras enfrentam dificuldades para contratar caminhoneiros e motoristas agregados, enquanto a escassez de mão de obra começa a comprometer operações, ampliar a ociosidade das frotas e pressionar a logística nacional.

Segundo o levantamento, entre as empresas que relatam veículos parados, a média é de oito caminhões sem operação por falta de profissionais. O problema já é apontado como uma das principais limitações para o crescimento do transporte rodoviário de cargas no País.

Menos motoristas nas estradas

Dados da Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), divulgados pela Associação Nacional das Empresas de Transporte de Cargas (ANATC), indicam que o número de motoristas habilitados para veículos pesados caiu de cerca de 3,5 milhões em 2014 para 1,3 milhão dez anos depois, uma redução de aproximadamente 62%. A idade média dos profissionais ativos já chega a 46 anos, enquanto o interesse dos jovens pela profissão diminui ano após ano.

Diretora administrativa e de novos negócios da Zorzin Logística e diretora institucional da Associação Brasileira de Transporte e Logística de Produtos Perigosos (ABTLP), Gislaine afirma que a situação é ainda mais delicada no transporte de cargas químicas, que exige mão de obra especializada e treinamentos específicos.

"A gente tem um perfil de motorista mais especializado, mas que muitas vezes se sente até invadido porque tudo o que ele faz precisa comunicar para a empresa por questões de segurança", afirma.

Tecnologia, vigilância e rotina pesada

Segundo ela, o avanço da tecnologia embarcada nos caminhões trouxe ganhos operacionais e de segurança, mas também aumentou a resistência de parte dos profissionais. Empresas utilizam câmeras, rastreamento em tempo real e sistemas internos de controle para reduzir riscos de acidentes e roubos de carga. "Não é todo mundo que aceita dirigir com uma câmera filmando o tempo inteiro", diz.

Além do monitoramento, a rotina pesada e as longas jornadas também afastam novos profissionais. "É realmente um percentual muito baixo de pessoas que vêm para a profissão porque gostam. Os jovens não querem mais isso porque é uma profissão pesada", afirma Gislaine.

Para as transportadoras, os carros de aplicativo se tornaram concorrentes diretos na disputa por mão de obra. A possibilidade de trabalhar em horários flexíveis e sem o mesmo nível de controle operacional atrai profissionais que antes poderiam migrar para o transporte de cargas. "A gente perde muita mão de obra para os carros de aplicativo", afirma a executiva.

Ela afirma que a exigência de habilitação profissional também pesa contra o transporte rodoviário. Enquanto motoristas de carros por aplicativo podem começar rapidamente a trabalhar com CNH categoria B, caminhoneiros precisam obter habilitação específica e cumprir exigências adicionais, como exames toxicológicos e cursos especializados.

Exigências aumentam segurança, mas elevam barreiras

Apesar dos desafios, Gislaine avalia que parte das exigências trouxe ganhos para a segurança viária. "Depois que o toxicológico começou a ser exigido, você vê a diminuição nos números de acidentes", diz.

O exame toxicológico passou a ser obrigatório para motoristas profissionais em 2016. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) reforçam o impacto da medida. Segundo levantamento do órgão, entre 2015 — antes da obrigatoriedade — e 2017, após a implementação da política, os acidentes com caminhões nas rodovias federais caíram 34%, enquanto os envolvendo ônibus recuaram 45%.

Imagem aérea do Rio Atibainha, altura da ponte Imperador Dom Pedro I e da ponte dos Lambaris na cidade de Nazaré Paulista, interior do estado de São Paulo
Imagem aérea do Rio Atibainha, altura da ponte Imperador Dom Pedro I e da ponte dos Lambaris na cidade de Nazaré Paulista, interior do estado de São Paulo
Foto: Fábio Vieira/Estadão / Estadão

Ainda de acordo com a PRF, desde a entrada em vigor da exigência do exame toxicológico, a Lei Seca identificou 29.605 motoristas profissionais dirigindo sob efeito de álcool. Já o toxicológico apontou 188.873 resultados positivos para substâncias psicoativas, principalmente cocaína.

Pressão nos custos e dificuldade de reposição

A crise de mão de obra ocorre em um momento de pressão crescente sobre os custos do transporte rodoviário. Segundo levantamento da NTC&Logística, os motoristas representam 19,5% da estrutura de custos do setor, atrás apenas do combustível e dos veículos. Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra acumulou alta de 13,42%.

Mesmo assim, empresas afirmam que há dificuldade para elevar salários de forma significativa, já que os reajustes nem sempre conseguem ser repassados ao valor do frete.

"O dinheiro que ele vai pegar na mão não vai fugir muito daquilo que o mercado paga, porque senão você não consegue cobrar do cliente um valor [competitivo]", afirma Gislaine. Hoje, cerca de dois terços das cargas movimentadas no Brasil dependem das rodovias, segundo dados citados pela própria ANATC.

Caminhões sem motorista

Diante da dificuldade crescente para repor mão de obra, Gislaine avalia que parte da solução pode vir do avanço dos veículos autônomos no transporte de cargas. Segundo ela, a tendência é que, no futuro, a função tradicional do caminhoneiro passe por uma transformação profunda.

"Talvez a gente não tenha mais motorista, mas operador", afirma. Segundo a executiva, esses profissionais poderão controlar caminhões remotamente, por computador, sem necessariamente estarem dentro do veículo.

Tecnologias desse tipo já são realidade em operações de mineração no Brasil. A Vale, por exemplo, opera caminhões autônomos em minas como Brucutu, em Minas Gerais, desde 2018, além de expandir a tecnologia em Carajás e Serra Sul, no Pará. Os veículos utilizam sistemas guiados por GPS, radares e algoritmos para circulação sem motorista dentro da cabine.

Segundo a mineradora, a tecnologia ajuda a reduzir riscos de acidentes, melhorar o consumo de combustível e aumentar a produtividade. A Vale anunciou em 2025 um acordo para ampliar sua frota de caminhões autônomos no Sistema Norte, com meta de chegar a 90 veículos em operação até 2028. Atualmente, a empresa opera entre 130 e 140 caminhões fora de estrada na região, entre modelos autônomos e convencionais.

A comparação com a mineração, porém, exige cautela. Os caminhões autônomos da Vale operam em ambientes fechados, com rotas predefinidas e infraestrutura dedicada, condições radicalmente diferentes das rodovias brasileiras. Outro ponto é que a legislação ainda não prevê a circulação de veículos totalmente autônomos em vias públicas. A automação pode representar uma transformação real no longo prazo, mas dificilmente será a resposta para a crise de mão de obra que já paralisa caminhões nos pátios hoje.

O que o setor propõe

Para entidades e empresas de transporte, a solução para a escassez de caminhoneiros passa por uma ação conjunta entre transportadoras, associações e poder público para tornar a profissão mais atrativa. Em conclusão divulgada pelo Instituto Paulista do Transporte de Carga, a área de logística defende investimentos em valorização profissional, melhores condições de trabalho e formação de novos motoristas. Na prática, empresas como a Zorzin já tentam criar programas de incentivo à CNH profissional para ajudantes de carga e discutem modelos de contratação que permitam aumentar a remuneração dos motoristas sem comprometer a sustentabilidade das operações logísticas.

Estadão
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