Exposição sobre papel de poloneses na 2ª Guerra divide país
Mostra que resgata história de poloneses forçados a lutar pela Alemanha nazista no conflito é alvo de protestos. Tema é tabu pouco lembrado na memória nacional.Uma exposição sobre soldados poloneses forçados a se alistar nas Forças Armadas da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial vem causando polêmica na Polônia ao lançar luz sobre um capítulo da história pouco lembrado na memória nacional e a na história oficial do país.
Intitulada "Nasi chłopcy" (Nossos Garotos), a mostra em cartaz até 10 de maio de 2026 no Museu de Gdansk exibe fotografias, artefatos e relatos de poloneses que lutaram nas fileiras da Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista.
Historiadores estimam que havia entre 400 mil e 450 mil poloneses nessa situação - mais do que os que serviram ao principal movimento de resistência na Polônia ocupada.
Esses homens foram forçados a se alistar após a invasão da Polônia, em setembro de 1939, com a anexação de alguns territórios - caso da região de Gdansk, por exemplo, que a època era conhecida pelo nome alemão Danzig - e o reconhecimento dos habitantes que ali viviam como alemães étnicos.
Os homens que se recusaram a servir, desertaram ou tentaram juntar-se a grupos que combatiam os alemães foram condenados à morte e enviados a campos de concentração.
Os organizadores da exposição afirmam que ela traz "questões importantes sobre a lembrança - e o esquecimento - desse fenômeno após 1945".
Esses fatos, embora largamente conhecidos pelas famílias afetadas, são considerados um tabu a nível nacional. O primeiro-ministro Donald Tusk, por exemplo, é neto de um avô pomerano que serviu ao Exército alemão, um fato que costuma ser explorado por adversários ultranacionalistas em propagandas eleitorais.
A celeuma em torno da exposição também escancarou diferenças sobre a percepção da identidade polonesa em regiões menos homogêneas do país, que falavam outras línguas e seguiam outras religiões diferentes do catolicismo. Esse era o caso de regiões como a Alta Silésia, a Pomerânia Oriental, a região de Poznań, que passaram da Alemanha para a Polônia após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e tinham populações bem mais heterogêneas que "vitrines" da identidade polonesa como Varsóvia e Cracóvia.
"Provocação moral"
Políticos do partido de direita Lei e Justiça (Pis), do ex-presidente Andrzej Duda, acusaram a exposição de relativizar a responsabilidade pela Segunda Guerra Mundial e até culpar parcialmente os poloneses pelo conflito.
Um dos pontos que mais incomodou críticos, que chegaram a organizar protestos em frente ao museu, é o nome da exposição, que os nacionalistas encararam como uma tentativa de macular a memória nacional da Polônia como vítima dos nazistas.
"Retratar soldados do Terceiro Reich como 'nossos garotos' não é só uma inverdade histórica, mas uma provocação moral", afirmou Duda via X. "Os poloneses, como nação, foram vítimas da ocupação e do terror alemão, e não participantes ou perpetradores."
Até mesmo o ministro da Defesa, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, que é membro do governo de centro-esquerda, queixou-se de que a mostra não estava em linha com a cultura de memória polonesa.
O Museu da Revolta de Varsóvia, dedicado ao evento homônimo de 1944, fez uma alusão à polêmica ao publicar nas redes sociais, poucos dias após a abertura da exposição, uma imagem histórica de adolescentes que se revoltaram contra os nazistas, chamando-os de "nossos garotos".
O contraponto veio na forma de uma carta aberta assinada por um centenário ex-combatente da resistência aos nazistas, que lembrou a repressão a que as famílias desses soldados foram submetidas. "Esses eram nossos garotos, garotos de suas famílias, forçados a entrar para o exército inimigo para salvar seus amados", disse Roman Rakowski. "É mais fácil julgar que encarar tal perigo."
E é justamente a "trágica falta de opção" encarada por esses homens que a exposição quer mostrar, segundo o porta-voz do Museu de Gdansk.
Um desses homens, Edmund Tyborski, foi guilhotinado após fugir para se juntar à resistência.
"Excluir vítimas da violência alemã da comunidade nacional é antipatriótico e ecoa propaganda comunista", disse o museu, acrescentando que vários desses soldados conseguiram fugir de fato e se juntar às forças polonesas no Ocidente.
Em comunicado, a instituição disse ainda se opor a "avaliações injustas e superficiais" e lamentou o "uso da exposição para fins políticos", argumentando que o título "Nossos Garotos" é uma forma de reconhecer que essas pessoas vinham de comunidades polonesas, e que não tinha a intenção de glorificá-los.
O museu também recebeu apoio da Associação Cachúbia-Pomerana, que representa uma das minorias arregimentadas pelos alemães entre 1939 e 1945, e que depois da guerra sofreram discrimnação na Polônia comunista. Em comunicado, a associação afirmou que muitos críticos da exposição "não estão familiarizados com a realidade da vida das regiões anexadas". Segundo a organização, a exposição era necessária porque revela "o destino complexo dos habitantes, que foram marginalizados na política oficial de memória durante anos".
ra (dpa, ots)
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.