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O filme indicado ao Oscar que todo estudante de Direito deveria assistir

Com cenas de investigação e um julgamento no tribunal, acompanhamos de perto os desdobramentos de uma morte suspeita

29 fev 2024 - 18h15
(atualizado em 8/3/2024 às 15h18)
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Concorrendo ao Oscar de melhor filme, "Anatomia de uma queda" é aula para aspirantes a advogados
Concorrendo ao Oscar de melhor filme, "Anatomia de uma queda" é aula para aspirantes a advogados
Foto: mk2 films/ / Guia do Estudante

O filme O Diabo Veste Prada é frequentemente citado por alunos de Jornalismo como uma das inspirações para escolher a profissão. Ainda que não seja um filme sobre a prática jornalística, o cotidiano glamouroso de uma revista de moda é, por vezes, o suficiente para fisgar os aspirantes à profissão. Algo semelhante pode acontecer em Anatomia de uma Queda (2023), longa da diretora Justine Triet que é um verdadeiro banquete para quem sonha em estudar Direito - ou que já ingressou na graduação.

Classificado como um thriller jurídico, o filme ganhou cinco indicações ao Oscars 2024: melhor filme, melhor direção, melhor atriz (para a protagonista Sandra Hüller), melhor roteiro e melhor edição. E não é para menos. Com uma premissa simples, a história retrata, ao longo de um ano, o julgamento de uma mulher acerca da morte - acidental ou não - de seu marido no chalé do casal.

Enquanto a primeira metade do longa situa o espectador no ocorrido e dá algumas fichas para fazer suas apostas iniciais, é na segunda parte que a parafernália jurídica completa aparece e o questionamento acerca da inocência da esposa se torna mais forte.

Matou ou não matou?

Certo dia, em um chalé isolado nas montanhas francesas, Samuel Maleski (Samuel Theis), o marido francês, está escutando música tão alto que sua esposa no andar debaixo, a escritora alemã Sandra Voyter, pede para remarcar a entrevista que concedia para uma estudante interessada em seu trabalho.

Momentos depois, o filho do casal, Daniel (Milo Machado Graner), que tem a visão parcialmente comprometida, volta de uma caminhada com seu cão-guia e encontra o corpo sem vida de Samuel estirado sobre a neve em frente à casa.

Sandra era a única no local além de Samuel, o que lhe coloca como a principal suspeita e levanta duas teses sobre a morte: foi acidental ou criminosa? Samuel pode ter caído; pode ter se jogado; pode ter passado mal e se desequilibrado na varanda. Na contramão, Sandra pode ter empurrado o marido; pode ter golpeado-o com um objeto forte o suficiente para desequilibrá-lo; pode ter matado o esposo e depois jogado seu corpo pela varanda para parecer suicídio.

De ambos os lados, as hipóteses são coerentes.

Sandra e seu advogado: relação delicada em meio a um julgamento
Sandra e seu advogado: relação delicada em meio a um julgamento
Foto: mk2 films/Reprodução / Guia do Estudante

E é nesta dicotomia que o filme se desenrola. A perspectiva que guia a história, no entanto, é a de Sandra. A acompanhamos enquanto recebe os policiais e investigadores na casa, vemos os primeiro depoimentos, a  contratação de um advogado - amigo de longa data que nutre uma paixão por ela -, e até mesmo sua relação com o filho monitorada por uma funcionária da Justiça.

Mas "Anatomia de uma Queda" não é um mistério do tipo " Capitu traiu ou não traiu Bentinho?". Ainda que acompanhemos a trajetória de Sandra no tribunal - afinal é a principal suspeita e também esposa da vítima -, a narrativa não é parcial e nem compra seu lado da história. Conforme o filme avança, vamos naturalmente conhecendo mais características de Samuel e da relação que os dois tinham. Além de acompanharmos cenas focadas somente em Daniel, o filho, conforme ele mesmo também vai tentando juntar as peças deste quebra cabeça delicado.

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Deleite jurídico

Conforme o próprio título indica, "Anatomia de uma queda" disseca todos os fatores envolvidos na morte de Samuel. Como se colocado em um microscópio, o ocorrido é imaginado de diferentes ângulos, com diferentes abordagens e com diferentes objetivos. Na segunda metade, quando acompanhamos o julgamento da esposa um ano após a morte, é como se estivéssemos dentro do tribunal - mas o tribunal é uma arena de show e estamos sentados no melhor lugar da área VIP.

Advogado em cena de 'Anatomia de uma queda' (2023). Realismo do filme impressiona
Advogado em cena de 'Anatomia de uma queda' (2023). Realismo do filme impressiona
Foto: Cannes Film Festival/Reprodução / Guia do Estudante

Acompanhamos as engrenagens dos advogados, os depoimentos da ré e das testemunhas como se estivéssemos também frente a frente ao juiz - uma mulher, por sinal. O passado de Sandra e Samuel é dissecado pelos profissionais ao passo que detalhes de vida íntima de ambos são trazidos à tona: de traições a uso de medicamentos controlados. Uma orquestra regida pelos advogados dos dois lados que tentam de tudo para chegar a uma conclusão para o mistério.

O filme dispõe de um realismo tão brutal que é fácil esquecer que estamos assistindo a uma produção encenada e gravada. Cenas longas, às vezes com a ausência de uma trilha sonora, e enquadramentos que ora são amplos e ora detalhados constroem, ao longo das 2h30 de duração, uma verdadeira aula para quem sonha em viver do Direito. Assim como "O diabo veste Prada" faz com jornalistas, é impossível não sair da sessão ao menos curioso sobre o mundo da Justiça.

Guia do Estudante
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