1968, a Revolução Globalizada (Parte IV)

27 mar 2018
16h17
atualizado às 16h23
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Em 1968, jovens das cidades mais importantes do mundo sairam às ruas para criticar abertamente a sociedade e os regimes políticos vigentes. Durante alguns meses, tudo parecia ser posto de pernas para o ar frente ao vendaval juvenil. Açoitadas pela fúria das ruas, as autoridades quase naufragaram naquele ano tão estranho e excepcional durante a primeira revolução globalizada que se conheceu.

De Praga à Varsóvia, o Leste se agita

Em 5 de abril de 1968 o povo tcheco tomou-se de surpresa quando soube dos principais pontos do novo Programa de Ação do PC tchecoslovaco. Fora uma elaboração de um grupo de jovens intelectuais comunistas que ascenderam pela mão do novo secretário-geral Alexander Dubcek, indicado para a liderança em janeiro daquele ano, um completo desconhecido decidira-se a fazer uma reforma profunda na estrutura política do país: dar “um rosto humano ao socialismo”. 

O líder tcheco imaginara desestalinizá-lo definitivamente, removendo os derradeiros vestígios do autoritarismo e do despotismo partidário que ele considerava aberrações inaceitáveis no sistema socialista. De certo modo o que passou a ocorrer então em Praga fazia eco das manifestações que ocorriam na Polônia desde março daquele ano.

Em Varsóvia, desde que o regime comunista decidira no dia 30 de janeiro de 1968  encerrar a apresentação teatral da peça Dzydy (“Véspera do dias dos ancestrais”) do poeta patriota Adam Mickiewicz, falecido em 1855, um herói das letras polonesas, encenada no Teatro Nacional, os protestos estudantis eclodiram.

Em geral,  as concentrações dos jovens eram reprimidas por milícias de operários arrebanhados pelo regime para vir espancar os jovens nas ruas da capital, acusados de serem bem-nascidos e filhos mimados do regime. O resultado é que as manifestações contra o governo se alastraram para Cracóvia, Lodz e Gdansk. A situação ficou ainda mais tensa quando a Igreja Católica deu seu apoio às queixas dos estudantes que gritavam pelas avenidas “De nada serve ter pão sem liberdade”.

Karol Modzelewski e seus parceiros de contestação ao comunismo polonês
Karol Modzelewski e seus parceiros de contestação ao comunismo polonês
Foto: Reprodução

Entre os principais intelectuais questionadores emergiram as lideranças de  Jacek Kurón, educador e historiador,  e de Karol Modzelewski, professor e historiador, ambos fundadores do clube Krzywe Koło, o  Circulo Curvo, dedicado a debater assuntos teóricos e literários que ambos criaram em 1955, e que tornou-se uma célula de contestação. (*)

(*) Kurón, que foi condenado a três anos de prisão em 1968  por ter apoiado os Eventos de Março em Varsóvia, como o levante universitário foram chamado, mais tarde projetou-se como personalidade proeminente no Movimento Solidariedade, surgido em Gdansk  1980.

A Primavera de Praga

Apesar da desestalinização ter-se iniciado no XXº Congresso do PCURSS, em 1956, a Tchecoslováquia ainda era governada por antigos dirigentes identificados com a ortodoxia. Ainda viviam sob a sombra do que Jean-Paul Sartre chamou de “o fantasma de Stalin”. Dubcek achou que era o momento de “dar uma face humana ao socialismo”.

Além de prometer uma federalização efetiva, o líder checo assegurava uma revisão constitucional que garantisse os direitos civis e as liberdades do cidadão. Entre elas a liberdade de imprensa e a livre organização partidária, o que implicava no fim do monopólio do partido comunista. Todos os perseguidos pelo regime seriam reabilitados e reintegrados. Doravante a Assembléia Nacional multipartidária é quem controlaria o governo e não mais o partido comunista, que também seria reformado e democratizado. Uma onda de alegria inundou o país. Chamou-se o movimento, merecidamente, de “ A Primavera de Praga”.

De todos os lados explodiram apelos em favor da rápida democratização. Em junho de 1968, um texto de “Duas Mil Palavras” saiu publicado na Liternární Listy (AGazeta Literária), redigido por Ludvik Vaculik, com centenas de assinaturas de personalidades de todos setores sociais, pedindo a Dubcek que acelerasse o processo de abertura. Acreditavam que seria possível transitar pacificamente de um regime comunista ortodoxo para uma social-democracia ocidentalizada. Dubcek tentava provar o que até então se entendia impraticável :a possibilidade do convívio entre uma economia coletivizada com a mais ampla liberdade democrática.

Sob protesto da população tanques soviéticos ocupam Praga
Sob protesto da população tanques soviéticos ocupam Praga
Foto: Reprodução

O mundo olhava para Praga com apreensão. O que fariam os soviéticos e os seus vizinhos comunistas do Pacto de Varsóvia? As liberdades conquistadas em poucos dias pelo povo tcheco eram inadmissíveis para as velhas lideranças das “Democracias Populares”. Se elas vingassem em Praga eles teriam que também liberalizar os seus regimes. Os soviéticos, por sua vez, dominados pela psicologia de “fortaleza socialista sitiada”, temiam as conseqüências geopolíticas.

Uma Tchecoslováquia social-democrata e independente significava sua provável  saída do Pacto de Varsóvia, o sistema defensivo anti-OTAN montado pela URSS em 1955. Uma brecha em sua muralha seria aberta pela defecção de Dubcek. Isto revelou ser inadmissível para os estrategistas do Kremlin, liderados por Leonid Brejnev.

Então, numa operação militar de surpresa, as tropas do Pacto de Varsóvia lideradas pelos tanques russos entraram em Praga no dia 20 de agosto de 1968. A “Primavera de Praga” sucumbia perante a força bruta. Sepultaram naquela momento qualquer perspectiva do socialismo poder conviver com um regime de liberdade. Dubcek foi levado a Moscou e depois destituído. Cancelaram-se as reformas, mas elas lançaram a semente do que vinte anos depois seria adotado pela própria hierarquia soviética representada pela política da glasnost de Michail Gorbatchov. Como um toque pessoal e trágico, em protesto contra a supressão das liberdades recém-conquistadas, o jovem Jan Palach incinerou-se numa praça de Praga em 16 de janeiro de 1969.

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Fonte: Especial para Terra

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