1968, a Revolução Globalizada (Parte I)

27 mar 2018
16h14
atualizado às 16h21
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Nunca o mundo vira nada igual. Desde os começos do ano de 1968, nas capitais e mesmo em cidades menores dos mais importantes países do planeta, milhares de jovens europeus, norte-americanos, sul-americanos, árabes e chineses, a maioria deles estudantes universitários e secundaristas, saiu às ruas para criticar abertamente as sociedades em que viviam assim como os regimes políticos nela vigentes.

Durante alguns meses, tudo parecia ser posto de pernas para o ar frente ao vendaval juvenil. Açoitadas pela fúria das ruas, as autoridades quase naufragaram naquele ano tão estranho e excepcional. Era a primeira revolução globalizada que se conheceu.   

Jovens ocupam as estátuas (Paris, 1968)
Jovens ocupam as estátuas (Paris, 1968)
Foto: Reprodução

O vulcão em erupção

“Havia um ar estranho: a revolução inesperada arrastara o adversário, tudo era permitido, a felicidade coletiva era desenfreada.”
Antonio Negri

“1968” foi o ano louco e enigmático do século XX. Ninguém o previu e muito poucos os que dele participaram entenderam afinal o que ocorreu. Deu-se uma espécie de furacão humano, uma generalizada e estridente insatisfação juvenil, que varreu o mundo em todas as direções. Seu único antepassado foi 1848 quando também uma maré revolucionária - a “Primavera dos Povos” -, iniciada em Paris em fevereiro daquele ano, espalhou-se por quase todas as capitais e grandes cidades da Europa, chegando até o Recife no Brasil.

O próprio filósofo Jean-Paul Sartre, presente nos acontecimentos de maio de 1968 em Paris, confessou, dois anos depois, que “ainda estava pensando no que havia acontecido e que não tinha compreendido muito bem: não pude entender o que aqueles jovens queriam... então acompanhei como pude... fui conversar com eles na Sorbonne, mas isso não queria dizer nada” (Situations X).

A dificuldade de interpretar os acontecimentos daquele ano deve-se não só à “múltipla potencialidade do movimento” como a ambigüidade do seu resultado final. A mistura de festa saturnal romana com combates de rua entre estudantes, operários e policiais, e mesmo com baderna juvenil (chienlit, como dizem os franceses), deixou pontos de interrogação por todos os lados. Sem ter um ponto fixo de irradiação, espalhou-se para quase todos os Continentes. Para Cornelius Castoriaditis, um simpatizante de 68,  viu tudo como resultante de “uma revolta comunitária”, enquanto que para Gilles Lipovetsky e outros era “a reivindicação de um novo individualismo”, desconhecido da tradição liberal ocidental.

Todavia. para Regis Debray, o jovem marxista  francês, autor do “ clássico” do radicalismo La revotution dans la revolution (“A Revolução na Revolução”, de 1967),  que fora preso na Bolívia quando tentou aproximar-se de Che Guevara, os eventos de 1968 foram negativos. Somente serviram para acelerar a “americanização” da sociedade francesa. Além disso, a explosão estudantil ao por abaixo os valores nacionais construídos ao redor da pátria, da nação, da família, dos partidos, contribuiu inconscientemente para o aumento do individualismo narcisista desagregador e alienante.

Um ano mítico

Ainda assim, firmou-se como  um ano mítico visto que “1968” foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades nos decênios seguintes de uma maneira irreversível. É tido como o marco para os movimentos ecologistas, feministas, das organizações não-governamentais (ONGs), dos defensores das minorias e dos direitos humanos, sendo esse seu maior legado.

Cartaz anti-gaulista (maio de 1968)
Cartaz anti-gaulista (maio de 1968)
Foto: Reprodução

Entretanto, frustrou muita gente também. A não realização dos seus sonhos, “da imaginação chegando ao poder”, fez com que parte da juventude militante daquela época se refugiasse no consumo das drogas ou escolhesse a estrada da violência, da guerrilha e do terrorismo urbano.

“1968” foi também uma reação extremada, juvenil, às pressões de um decênio e meio de Guerra Fria, pondo fim ao que Jezer Marty denominou de A Era da Escuridão, os anos de 1945 a 1960 dominados pelo conformismo e pelo temor a uma conflagração nuclear. Tratou-se de uma rejeição tanto aos processos de manipulação da opinião pública por meio dos mass-midia que atuavam como “aparelhos ideológicos” incutindo os valores do consumismo, como um repúdio “ao socialismo real”, ao marxismo oficial, ortodoxo, vigente tanto no Leste europeu como entre os partidos comunistas ocidentais, vistos como ultrapassados.

Assemelhou-se a um calidoscópio, para qualquer lado que se girasse novas formas e novas expressões vinham à luz. Foi uma espécie de fissão nuclear espontânea que abalou as instituições e regimes que se consideravam seguros e duradouros. Uma revolução que não se socorreu de tiros e bombas, mas da pichação, das pedradas, das reuniões de massa, da primazia do alto-falante e de muita irreverência. Um tanto quanto reprisando Marshall Berman,   tudo o que até então  parecia sólido desmanchou-se no ar.

O cenário mundial

O início de tudo: a Guerra do Vietnã

Foram as noticias vindas da França no verão de 1789 que diziam ter o povo  de Paris tomado de assalto a fortaleza-prisão de Bastilha que alertaram o filósofo alemão Immanuel Kant para um novo fenômeno. Ele percebeu que todas as pessoas mostravam aberta simpatia para com o ocorrido e que esse sentimento foi comum à maioria dos europeus daquele final do século XVIII. Entenderam-no, ainda que não totalmente cientes dos acontecimentos que se passavam bem longe deles,  como uma coisa certa. Era um povo inteiro que intentava livrar-se da tirania. 

Da mesma forma que “havia uma lei geral da natureza”, concluiu ele  que havia então algo em comum capaz de congregar a humanidade, “uma lei geral da natureza do homem”, na qual se destacava o Sentimento Universal de Justiça. Da  mesma forma, qualquer observador dos eventos dos anos 60 do século XX poderia por igual apontar que  o elemento unificador presente em todas as manifestações que se deram ao redor do mundo naquela ocasião, era o enorme Sentimento Universal  de Injustiça provocado pela Guerra do Vietnã.

A  surpreendente Ofensiva do Tet

Desde 1965, a pretexto do incidente do Golfo de Tonquim (que se provou falso), o presidente norte-americano Lyndon Johnson ordenara o sistemático bombardeio do Vietnã do Norte, bem como o desembarque, no Vietnã do Sul, de um reforço de mais de 300 mil soldados para evitar uma possível vitória dos vietcongs (guerrilheiros comunistas que combatiam o governo sul-vietnamita que era pró-americano). Os Estados Unidos atolavam-se na Guerra do Vietnã.

No dia 30 de janeiro, na celebração do Tet, o Ano Novo vietnamita, 67 mil guerrilheiros vietcongs, apoiados por forças norte-vietnamitas,  num ataque relâmpago  e de surpresa, tomaram de assalto 38 cidades sul-vietnamitas, entre elas Hue e Saigon (aonde chegaram a ocupar a embaixada dos EUA), provocando uma derrota tática nas forças armadas norte-americanas. Apesar de terem perdido 30 mil homens na operação, os guerrilheiros vietnamitas provaram serem capazes de frustrar as expectativas de uma vitória americana.

O então jovem militante anglo-paquistanês Tariq Ali não exagerou quando escreveu que a noticia da Ofensiva do Tet provocara “uma onda de alegria e energia que repercutiu no mundo inteiro, e milhões de pessoas estavam de repente exultantes, pois deixaram de acreditar na força do seu opressor”

A partir de então a crescente oposição à guerra dentro dos Estados Unidos quase se tornou numa aberta insurreição da juventude pacifista. Ao longo do ano de 1968 calculou-se que umas 30 escolas ou instituição equivalente foram invadidas e ocupadas a cada dia em todo o país. A violência dos bombardeios sobre a população civil vietnamita, composta de aldeões paupérrimos, e a queima das choupanas deles, já de algum tempo havia provocado desconfiança em relação à justeza da intervenção no Sudeste da Ásia.

Diariamente a televisão americana mostrava imagens dos combates e dos sofrimentos dos soldados e dos civis. Somou-se a isto a visível falta de perspectiva para solucionar o conflito. Era moralmente inaceitável que a maior potência do Mundo atacasse um pequeno país camponês do Terceiro Mundo e o tentasse submeter pela força das armas.

 O corajoso assalto dos vietcongs provocou repercussões que se irradiaram pelo mundo inteiro. O Davi vietnamita fizera cambalear o Golias americano. Como os Estados Unidos representava a Lei e a Ordem no cenário do após-guerra, era natural que todas as instituições por ele garantidas ou a ele associadas passassem a ser questionadas. Mesmo as do lado comunista. A superpotência fora ferida na Ásia.

Passou a ser possível abalar, senão pôr abaixo, por obra de um turbilhão juvenil, tudo o que de alguma forma representasse o status quo, o estabelecimento, as autoridades, o regulamento, o conformismo social e sexual, a rotina  existencial, a monotonia da vida acadêmica, etc.. A imaginação queria assaltar o poder.

A Grande Revolução Cultural Proletária

Paralelamente à Guerra Vietnamita, na China Popular Mao Tse-tung desencadeara desde 1965 a Grande Revolução Cultural Proletária (Wuchanjieji Wenhua Dageming), convocando a juventude chinesa para grandes manifestações. Estudantes, filhos de funcionários, de trabalhadores e de camponeses, na idade dos 14 aos 18 anos, agrupados nas Guardas Vermelhas, tomaram conta das ruas das grandes cidades num protesto-monstro contra os Zou zi Pai, aqueles elementos do partido comunista que, acreditavam eles, tinham simpatias pelo capitalismo e pela burguesia e que se encontravam infiltrados nos aparatos do poder.

Mao Tse-tung guiando a juventude
Mao Tse-tung guiando a juventude
Foto: Reprodução

Mao Tse-tung, em velada luta contra altos setores da hierarquia do Partido Comunista chinês, os convocara  para auxiliá-lo a recuperar a autoridade suprema. Para tanto, os fanatizou com a leitura de trechos seus selecionados pelo seu auxiliar direto Lin Biao num pequeno livro: O Livro Vermelho dos Pensamentos do Presidente Mao, que passou a ser interpretado com fervor religioso pelos militantes juvenis.

Voltando-se contra o passado chinês tradicional, deram vazão a cenas de vandalismo e intolerância. A imagem de milhares deles marchando e cantando pelas praças e avenidas chinesas, em nome da Revolução Cultural, serviu de emulação para que os estudantes ocidentais também viessem a imitá-los quando a ocasião se tornou propícia.

O martírio de Che

Além da indignação geral provocada pela interminável guerra que prosseguia na Indochina e o fascínio pelas multidões juvenis chinesas, também pesou no imaginário da juventude estudantil  a morte de Che Guevara na Bolívia, ocorrida em outubro de 1967. Seu martírio pela causa revolucionária serviu para que muitos se inspirassem no seu sacrifício. Jovens de todas as partes, especialmente na Europa e na América Latina, tentando atender ao seu apelo para que se formassem em outros lugares do mundo, “dois, três Vietnãs” se lançaram na vida guerrilheira, compondo os quadros dos vários movimentos que surgiram naquela época, no Uruguai, na Argentina, no Chile e no Brasil.

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Fonte: Especial para Terra

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