1968: a Revolução Globalizada (Parte III)

27 mar 2018
16h16
atualizado às 16h22
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Em 1968, jovens das cidades mais importantes do mundo sairam às ruas para criticar abertamente a sociedade e os regimes políticos vigentes. Durante alguns meses, tudo parecia ser posto de pernas para o ar frente ao vendaval juvenil. Açoitadas pela fúria das ruas, as autoridades quase naufragaram naquele ano tão estranho e excepcional durante a primeira revolução globalizada que se conheceu.

As barricadas de maio em Paris

Estudante (observando o recinto): “Para ser bem sincero almejo ir-me embora. Esses muros antigos, ambiente abafado, em nada isto me agrada, estou desanimado. O espaço é muito pouco, estreito, desencanta. Não se vê um jardim, não há nenhuma planta. Velhas colunas, bancos, completo desalento. Aqui se embota o ouvido, a vista e o pensamento.”

Goethe - Fausto, 1808

A década dos anos sessenta estava para terminar, e era uma das primeiras em que a França usufruía de paz e tranqüilidade interna. Nos anos trinta, o pais se vira dividido entre o Fronte Popular dos esquerdistas liderados pelo socialista Leon Blum, e os ativistas da Ação Francesa de Charles Maurras, de inclinação fascista, cisão interna que quase descambou para a guerra civil, situação que muito facilitou a vitória militar dos nazistas em 1940. Na década de quarenta, sofreu com a ocupação alemã e atravessou tempos dolorosos de muitos sacrifícios exigidos para recuperar-se no após guerra. Nos anos 50 viu-se derrotado no Vietnã do Norte e, em seguida, obrigado a ceder a independência da Argélia, sua antiga colônia africana, situação que quase descambou para uma aberta guerra civil provocada pela ultra-direita e pelos generais que comandavam as tropas francesas do Magreb  e que não aceitavam a perda da possessão norte-africana.

A partir de 1959, a  ascensão ao poder da V República pelo general Charles De Gaulle, herói de guerra e totem nacional francês, agiu como um bálsamo sobre as angustias do país. Elaborando uma constituição adequada ao seu perfil autoritário e imperial, a desordem geral foi evitada e a estabilidade interna recuperada. A economia nacional então decolou. Nas vésperas do amotinamento estudantil de Maio de 1968, a França anunciara um crescimento de 6,5% do seu PNB. O desemprego praticamente não existia mais. Foi então que o furacão se desencadeou numa França que se entediava. Tornou-se profética  a observação de Pierre Viansson-Ponté, publicada no Le Monde em 15 de março de 1968, que afirmou:

"Dans cette petite France presque réduite à l'Hexagone, qui n'est pas vraiment malheureuse ni vraiment prospère, en paix avec tout le monde, sans grande prise sur les événements mondiaux, l'ardeur et l'imagination sont aussi nécessaires que le bien-être et l'expansion. Ce n'est certes pas facile. L'impératif vaut d'ailleurs pour l'opposition autant que pour le pouvoir. S'il n'est pas satisfait, l'anesthésie risque de provoquer la consomption. Et, à la limite, cela s'est vu, un pays peut aussi périr d'ennui”.

De Nanterre a Sorbonne

Em 1965, na periferia da capital francesa, instalou-se Universidade Paris-Nanterre para acolher estudantes que não ingressavam no circuito superior tradicional (Sorbonne, Escola Normal, Escola Politécnica, etc..), voltada exclusivamente para as áreas humanas. Em pouco tempo, o local tornou-se um centro de contestação e o verdadeiro caldeirão do radicalismo da ultra-esquerda que atiçou o incêndio que envolveu a sociedade francesa.

Em princípios de 1968 os estudantes convidaram Wilhelm Reich para uma palestra mas as autoridades vetaram-no. A questão sexual voltou a cena quando o líder estudantil Daniel Cohn-Bendit questionou o Ministro da Juventude e dos Desportos. As manifestações que se seguiram foram reprimidas pela polícia. Em represália os estudantes ocuparam Nanterre em 22 de março. Seus colegas da Sorbone se solidarizaram.

Pôster denunciando a repressão em Paris
Pôster denunciando a repressão em Paris
Foto: Reprodução

Em 3 de maio a histórica Sorbonne, a mais antiga universidade da França,  foi fechada pelas autoridades, o que nunca ocorrera em 700 anos da sua existência.O movimento então se espalhou com mais furor ainda. Passeatas estudantis, organizadas pela UNEF (Union nationale des étudiants de France), foram dissolvidas com violência cada vez maior pela CRS (Compagnies Republicaines de Sécurité), a policia de choque do regime. Indignados, os jovens ergueram obstáculos nas ruas centrais de Paris que davam acesso ao famoso Quartier Latin, antigo centro de ensino superior da cidade.

Eles representavam um número considerável dentro de Paris. Dos mais de 500 mil alunos do ensino superior existentes no país, 160 mil deles estavam inscritos na Universidade de Paris (um complexo acadêmico composto por 13 unidades espalhadas pela cidade), seguidos de um número bem maior de alunos matriculados nos liceus da capital.

A maior batalha deu-se no dez de maio: a “noite das barricadas”. Aquelas alturas ganharam as simpatias de outros setores sociais: sindicalistas, professores, funcionários, jornaleiros, comerciários, bancários, aderiram a causa estudantil. De protesto  contra o autoritarismo e o anacronismo das academias, o Movimento de Maio rapidamente transformou-se, com a adesão dos operários, numa contestação política ao regime gaulista. O turbilhão cujo epicentro fora a Universidade de Nanterre parecia avançar sobre a cidade inteira.

Paris, de pernas para o ar

O centro de Paris, com o calçamento revirado, vidraças partidas, postes caídos e carros incendiados, assumiu ares de bairro rebelado, dilacerado pelas sucessivas batalhas entre pedras e cassetetes. No alto das casas e dos prédios tremulavam bandeiras negras dos anarquistas, lembrando os tempos da Comuna de 1871. De 18 de maio a 7 de junho, 9 milhões de franceses declararam-se em greve geral. No dia 13 de maio um milhão e duzentos mil marcharam pelas ruas em protesto contra o governo.

Liderados por Daniel Cohn-Bendit (Dany le rouge), apelidado também de Lenin de Nanterre, Alan Geismar, Jacques Sauvageot e Alain Krivine, que compunham a linha dura do enfrentamento, os manifestantes colocaram em xeque os pelotões do prefeito da polícia Maurice Grimaud, o xerife do regime gaulista.

Distanciando-se do marxismo “oficial”, de matriz stalinista, referendado pelos soviéticos e pelo PC francês, muitos deles trataram de ressuscitar pensadores marxistas críticos, que haviam desaparecido do cenário intelectual das esquerdas, tais como Rosa Luxemburgo, Karl Korsch, Antonio Gramsci, o jovem Lukács, bem como os intelectuais da Escola de Frankfurt, dos quais Herbert Marcuse era o mais ativo.

Daniel Cohn-Bendit, o Dany le rouge, ironiza a policia
Daniel Cohn-Bendit, o Dany le rouge, ironiza a policia
Foto: Reprodução

De Gaulle, em 29 de maio, chegou a viajar secretamente para a base francesa em Baden-Baden, na Alemanha, para obter apoio do general Massu para uma possível intervenção militar. Enquanto isso delegados governamentais negociavam em Grenelle com os sindicatos uma série de melhorias e compensações para retirar os trabalhadores da greve e afastá-los dos jovens radicais. Os comunistas, por sua vez,  negaram-se a se associar a qualquer tentativa de assaltar o poder. Ao contrário, George Marchais, líder do partido, declarou que “Esses falsos revolucionários precisam ser denunciados”. Declaração que fez J.P.Sartre e os demais intelectuais esquerdistas denunciá-lo dizendo que “Os comunistas temem a revolução.”

Recuperando-se do imobilismo, o velho estadista propôs uma solução eleitoral para superar os embaraços criados pela revolta estudantil. Graças a isso, com o apoio de uma imensa manifestação da “maioria silenciosa” que marchou pelos Campos Elíseos no dia 31 de maio  em favor do restauro da ordem, conseguiu evitar um motim social e possivelmente uma guerra civil. Em reforço, ordenou que a Segunda Divisão de Infantaria, aquartelada nas proximidades de Paris, aguardasse o momento de intervir, secundada pelas tropas a serem enviadas pelo general Massu da Alemanha, se uma solução pacífica não fosse alcançada.

Disse na televisão que o seguissem ou que o demitissem, alertando aos cidadãos que provavelmente um governo de inclinação comunista era capaz de sucede-lo. Aquelas alturas, passados mais de trinta dias de arruaças e desordens, de descomunais enfrentamentos entre os jovens e a polícia, a sociedade francesa desejava o retorno da normalidade. A Comuna Estudantil então recuou frente ao Partido da Ordem representado pelo general.

Os gaulistas obtiveram uma significativa vitória nas eleições de 23-30 de junho, ocupando 358 dos 487 assentos da Assembléia Nacional, isto é 73% deles. A partir de então, massacrado pelas urnas,  o movimento refluiu. A tormenta passara, mas o presidente,  enfraquecido com aqueles tumultos todos renunciou em 27 de abril de 1969, depois de ter chefiado a V República por dez anos (1959-1969).

Apesar do aspecto quase que universal dos acontecimentos de 1968, até hoje  se associa o ocorrido como  pertinente à França, mais do que a qualquer outro lugar. Ainda que em Paris os eventos mais dramáticos tenham se concentraram apenas num só mês e não terem provocado nenhum banho de sangue: o Maio de 1968. A razão dessa superprojeção  deve-se à tradição revolucionária do país, pois foi lá que se deram os históricos tumultos que conduziram à tomada da Bastilha em 14 de julho de 1789,  às Revoluções de 1830, de 1848, e à Comuna de Paris de 1871, todos com larga repercussão em outros continentes.

Como testemunho do ar de relaxamento e confraternização geral que tomou conta dos jovens daquela época é interessante lembrar as palavras de Radith Geismar, esposa de um dos ativistas que disse: “O verdadeiro sentido de 1968 foi uma tremenda sensação de liberdade, de liberdade das pessoas conversando,falando nas ruas , nas universidades, nos teatros. Foi muito mais do que jogar pedras. Isto foi apenas um momento. Todo o sistema de ordem , autoridade e tradição foi varrido. Grande parte da liberdade de hoje começou em 1968”.

Cronologia dos acontecimentos de 1968 na França

8 de Janeiro: Na universidade de Nanterre, arredores de Paris, o ministro da Juventude e Desportos, François Missoffe, é vaiado pelos estudantes liderados por Daniel Cohn-Bendit.

20 de Março: É atacada por manifestantes em Paris uma agência do American Express, como protesto contra a guerra do Vietname.

22 de Março: Nanterre: estudantes ocupam um edifício administrativo e é criado o movimento 22 de Março, encabeçado por Daniel Cohn-Bendit que viria a ser um dos mais ativos da revolta.

2 de Maio: Novos incidentes entre os estudantes e a polícia em Nanterre, sendo encerrada a Faculdade de Letras.

3 de Maio: No pátio da Sorbonne há uma reunião de estudantes e estes exigem o acesso aos anfiteatros. O reitor, quebrando uma regra secular, chama a polícia para entrar nas instalações universitárias. A polícia acaba por entrar nas instalações e são detidos vários alunos. Muitos outros jovens são detidos nessa noite em manifestações no Quartier Latin. A Universidade é ocupada pela polícia.

4 de Maio: Daniel Cohn-Bendit, Jacques Sauvegeot (vice-presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses) e Alain Geismar (secretário do Sindicato do Ensino Superior) tornam-se os rostos mais conhecidos da contestação dos estudantes.

6 de Maio: Realizam-se novas manifestações no Quartier Latin e são erguidas barricadas. Confrontos entre a polícia e manifestantes. Há 400 detenções e cerca de 500 feridos.

7 de Maio: Uma manifestação que reúne milhares de estudantes acaba em novos confrontos com a polícia.

8 de Maio: O Ministro da Educação, Alain Peyrefitte, anuncia no Parlamento que a Sorbonne e a Universidade de Nanterre poderão reabrir. Realizam-se novas manifestações estudantis.

10 de Maio: Manifestações diante da prisão de La Santé. A polícia bloqueia as pontes do rio Sena. Os estudantes ocupam o Quartier Latin e fazem barricadas. Seguem-se os confrontos que se prolongam pela madrugada e seriam os mais violentos desde o início desta crise. Os estudantes tiram as pedras da calçada para atacar as forças policiais.

11 de Maio: As principais confederações sindicais convocam uma greve geral para dia

13 de Maio: O primeiro-ministro, Georges Pompidou, interrompe a visita que estava a fazer ao Afeganistão e no regresso anunciou a reabertura da Sorbonne no dia 13.

13 de Maio: A Sorbonne é reaberta e ocupada pelos estudantes. No Festival de cinema de Cannes as projeções são suspensas. Há manifestações por toda a França. A greve geral afeta todo o país.

15 de Maio: Os operários da Renault decretam uma greve e ocupam as instalações da fábrica em Cléon.

16 de Maio: O movimento grevista alastrou a mais de 50 empresas. A sede da Academia Francesa é ocupada.

19 de Maio: A emissão da ORTF (televisão) passa a ser controlada pelos jornalistas e técnicos.

20 de Maio: Ocupação do porto de Marselha pelos trabalhadores. As centrais elétricas e de telefones estão bloqueadas.

21 de Maio: A greve envolve já cerca de 07 milhões de trabalhadores. O filósofo e escritor Jean-Paul Sartre (que recusara o Nobel da Literatura em 1964) fala aos estudantes na Sorbonne. Os teatros de Paris estão ocupados.

22 de Maio: Na Assembléia Nacional é derrotada uma moção de censura apresentada contra o Governo. As autoridades retiram a Daniel Cohn-Bendit, que tem nacionalidade alemã, a licença de permanência em França.

27 de Maio: Governo, sindicatos e patrões assinam um acordo que prevê o aumento do salário mínimo, redução do horário de trabalho e diminuição da idade da reforma.

28 de Maio: Demissão do ministro da Educação, Alain Peyrefitte.

30 de Maio: O General De Gaulle anuncia a dissolução do Parlamento, recusa demitir-se e convoca eleições antecipadas para Junho. Ao mesmo tempo adia o referendo que anunciara dia antes.

31 de Maio: De Gaulle remodela o governo e realizam-se manifestações de apoio ao general. Junho: no referendo, a maioria governamental alcança vitória esmagadora obrigando o Movimento Estudantil a refluir.

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Fonte: Especial para Terra

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