Escolas trocam ar por janelas para reduzir risco de contágio

Além de máscaras e distanciamento, ventilação é considerada crucial para reduzir transmissão do coronavírus em ambientes fechados; altas temperaturas desafiam protocolos

20 out 2020
12h30
atualizado às 12h40
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Para voltar a receber estudantes, colégios e redes de ensino em todo o Brasil vêm pensando adequações nas salas de aula. As escolas estão fechadas desde março para conter a disseminação do coronavírus, mas nos últimos meses, alguns Estados e prefeituras autorizaram a volta às aulas gradual.

Desde a retomada das aulas, 75 escolas tiveram que ser fechadas
Desde a retomada das aulas, 75 escolas tiveram que ser fechadas
Foto: ANSA / Ansa

Na capital paulista, parte das escolas particulares contrataram a assessoria de hospitais para elaborar seus protocolos de retomada. Além de diretrizes como uso de máscaras e medição de temperatura, as consultorias avaliaram as salas de aulas e, de modo geral, indicaram a necessidade de que as escolas desliguem o ar-condicionado e abram janelas e portas.

Nesta terça-feira, um estudo publicado na revista Physics and Fluids, do Instituto Americano de Física, mostrou o caminho do coronavírus em uma sala de aula por meio de simulação computacional. A pesquisa apontou que, mesmo com distância de mais de dois metros entre os estudantes, partículas minúsculas suspensas no ar podem circular entre os estudantes.

Medidas como abrir janelas e instalar barreiras de vidro ou acrílico nas carteiras, segundo a pesquisa, são capazes de reduzir os riscos.

O estudo, realizado por pesquisadores da Universidade do Novo México (EUA), considerou um modelo de sala de aula com sistema de ar-condicionado central, que faz a troca de ar com o ambiente externo. Sistemas de ar-condicionado central como o considerado pelo estudo são raros em salas de aula brasileiras.

Esses modelos poderiam até reduzir os riscos de contaminação porque renovariam o ar que entra na sala de aula, mas a maioria das escolas do País usa sistemas que apenas refrigeram o ambiente, sem troca de ar. Nesses casos, a fim de manter o espaço climatizado, a tendência é fechar o ambiente, o que aumenta o risco de contaminação.

Escolas particulares de São Paulo que tiveram assessoria do Hospital Sírio-Libanês para elaborar seus planos de volta às aulas foram orientadas a desligar o ar-condicionado e abrir as janelas e portas.

"Os equipamentos de ar-condicionado nas escolas são do tipo split, que não fazem a renovação de ar. A gente teve de reforçar a renovação de ar de forma natural, com janelas e portas abertas", explica Marina Mattiello Gabriele, médica do programa Saúde Escolar do Sírio. Desde o início do mês, parte dos colégios paulistanos reabriu para receber os alunos em atividades extracurriculares.

Segundo Marina, a equipe do hospital fez visitas presenciais às escolas que contrataram o serviço (mais de 50) para avaliar as classes - em alguns casos, foi recomendado evitar o uso de determinadas salas de aula, que não apresentavam condições de ventilação.

A diretriz do hospital sobre a distância mínima entre os alunos dentro de uma sala de aula é de 1,5 metro, mesmo valor considerado pelo governo estadual e a Prefeitura de São Paulo para as escolas públicas.

"O uso de máscara e o distanciamento reduzem e muito a chance de possível transmissão", diz Marina. No caso das escolas particulares assessoradas pelo Sírio, as barreiras de acrílico nas carteiras só foram consideradas nos casos em que era impossível manter a distância de 1,5 metro.

No Colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, não deve haver barreiras nas carteiras dos alunos, mas o professor foi orientado a se movimentar menos pela sala de aula. As janelas do Band devem ficar abertas e o ar-condicionado, desligado.

"Isso pode ter alguma perda por conta de ruídos, mas, nesse momento, é mais crítico manter o ambiente salutar em termos de distanciamento", diz Eduardo Tambor, diretor de operação do Colégio Bandeirantes. Estudantes em uma sala não deverão ter contato com outros alunos da escola e o período do recreio foi eliminado.

Nas escolas estaduais paulistas, as diretrizes da Secretaria Estadual da Educação são de abertura de janelas e portas nas salas de aula e para que se evite o uso de ar-condicionado. Segundo Cecília Cruz, coordenadora de Gestão da Secretaria Estadual de Educação, seria difícil garantir que escolas estivessem usando o ar-condicionado para circulação do ar no ambiente e não para a refrigeração.

Escolas que identificarem que não têm condições de garantir ventilação adequada nas salas de aula, diz Cecília, não devem reabrir. "Quando escrevemos nossos protocolos, deixamos explícito que a escolas que não têm condição de garantir (a segurança) não devem retornar. Na eventualidade de a sala de não ter boa circulação de ar, a recomendação é que não volte", afirma.

Nas escolas municipais de São Paulo, a recomendação da Prefeitura é para que, com 20% dos estudantes, evite-se o uso do ar-condicionado, mas não é proibido. Especialistas reconhecem que a falta de refrigeração nas salas de aula e a necessidade de usar máscaras podem significar um desafio ainda maior aos estudantes e professores considerando as altas temperaturas registradas em todo o Estado.

Para Erick Carvalho, engenheiro da Universidade Federal de Juiz de Fora, uma alternativa para melhorar o conforto térmico é o uso de climatizadores, que podem ser ligados mesmo com as janelas abertas. Já adaptar os sistemas de ar-condicionado para que renovem o ar, diz, pode sair caro. "Sistemas de hospitais são plenamente adaptados, mas o investimento para fazer toda essa adaptação acaba sendo alto."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica que a ventilação natural, com janelas abertas, deve ser usada dentro de edifícios sempre que possível, sem recircular o ar. "Se sistemas de aquecimento, ventilação e ar condicionado forem usados, eles devem ser regularmente inspecionados, mantidos e limpos", aponta diretriz da OMS.

Leonardo Cozac, engenheiro da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), reconhece que muitos ambientes brasileiros não têm sistemas de ar-condicionado bem instalados, mas pondera que nem sempre abrir portas e janelas é suficiente, principalmente em salas grandes.

"Nas salas que não têm renovação de ar mecânica, é necessário abrir portas e janelas. Mas isso não garante que o ambiente está bem ventilado porque depende do clima, se está ventando, do tamanho e da posição das janelas", diz.

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