Ele passou a infância em cozinha de universidade com a avó no AC e foi aprovado em Princeton: 'Me inspirou'
Diego Heitor da Silva Monteiro, 18 anos, ganhou uma bolsa integral que cobre todos os custos acadêmicos e de permanência nos Estados Unidos
Diego Heitor da Silva Monteiro, de 18 anos, morador de Rio Branco (AC), foi aprovado na prestigiada Universidade de Princeton com bolsa integral, após uma trajetória de superação e dedicação iniciada aos 12 anos, envolvendo intercâmbios, projetos sociais e busca por excelência acadêmica.
Desde criança, Diego Heitor da Silva Monteiro esteve por perto dos corredores de uma universidade brasileira. Assim que saía da escola, o acreano ia para a instituição de ensino superior, onde a avó trabalhava como cozinheira do restaurante universitário, para ficar perto dela e esperá-la para voltarem juntos para casa. Hoje, com 18 anos, Diego vai continuar caminhando pelos corredores, mas de uma faculdade nos Estados Unidos e como aluno: ele foi aprovado na Universidade de Princeton, uma das mais prestigiadas do mundo.
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"Me inspirou estar nesse lugar desde muito pequeno e também com a educação. Minha avó sempre frisava o quanto era importante eu ter um ensino superior. Estar nesse lugar, na UFAC [Universidade Federal do Acre], conhecer professores, as pessoas de lá, os estudantes, acho que me despertou essa vontade de querer fazer ensino superior", afirma ele ao Terra.
Segundo o jovem, desde muito cedo ele já sabia que queria estudar fora do País e começou a se preparar em busca desse objetivo. "Estou muito feliz, é um processo que estou dentro há muito tempo. Desde quando eu tinha 12, 13 anos, comecei, de fato, a fazer coisas para estudar no exterior. Tem toda a sensação de que todo o esforço, muita coisa que eu tive que sacrificar, valeu a pena. É muito bom esse sentimento", comemorou o jovem.
Diego é morador de Mocinha Magalhães, um bairro na periferia de Rio Branco, capital do Acre, e mora atualmente com os pais e duas irmãs -- uma mais nova e outra mais velha. Ele se formou no ensino médio no ano passado no Colégio de Aplicação da UFAC. O jovem conta que a vontade de estudar em outro país começou durante a pandemia de covid-19. Inicialmente, a ideia era tentar fazer o ensino médio no exterior, mas, como ele não passou, decidiu focar no ensino superior.
"Eu passei desde os 12 anos até o início do ensino médio me preparando, estudando, aprendendo inglês e muitas outras coisas, mas não deu certo. Eu fiquei bem arrasado, porque era a oportunidade da minha vida, tudo o que eu mais queria. Mas depois eu pensei que queria muito isso, estar em um lugar que pudesse estudar diferentes disciplinas, pudesse conhecer gente de todo o mundo", detalha Diego.
"O modelo de ensino lá dos Estados Unidos é bem diferente daqui do Brasil. Eu acho bem legal, até o processo de admissão num geral, não é só uma prova, é tudo muito holístico. Eles levam minhas paixões em consideração, minha história de vida. Tudo parecia muito bacana e eu decidi tentar de novo", acrescenta o estudante.
E o sonho se tornou realidade. Diego recebeu a notícia da aprovação na Universidade de Princeton em dezembro do ano passado. Para estudar na instituição, ele também recebeu uma bolsa integral que cobre todos os custos acadêmicos e de permanência nos Estados Unidos.
Projetos criados e intercâmbios
O jovem relata que o processo até conquistar a vaga não foi nada simples e que chegou inclusive a pensar em desistir. Mas, durante a trajetória, além da ajuda da família e de amigos, ele teve o apoio do Prep Program, da Fundação Estudar, que é um preparatório gratuito que oferece apoio individualizado para jovens com excelência acadêmica que querem cursar a graduação no exterior.
Para realizar provas como SAT --Scholastic Assessment Test, prova utilizada para admissão em universidades dos EUA, Canadá e Europa--, por exemplo, ele precisou viajar repetidas vezes para Brasília, enfrentando longos deslocamentos com ônibus e avião e a necessidade de chegar um dia antes dos exames. Os cursos logísticos foram cobertos pelo programa que o apoiou.
Ele afirma que o contexto de Rio Branco também exigiu seu protagonismo. Como tinham poucas atividades extracurriculares na cidade envolvendo psicologia, uma de suas paixões, Diego buscou alternativas online e criou projetos para explorar seus interesses além da escola. Nos EUA, as atividades extracurriculares que os estudantes participam ao longo da vida acadêmica são muito valorizadas na análise dos currículos pelos recrutadores das universidades.
Entre as iniciativas que ele criou, está o Mundo Alcance, projeto voltado para rodas de conversa em escolas públicas do Acre para falar sobre a rotina de estudo saudáveis com base na psicologia. Outro projeto feito em conjunto com uma amiga é o Melanina Speaks, que acontece de forma virtual e ensina inglês para alunos por todo o Brasil. Os conteúdos das aulas ainda são desenvolvidos com uma temática voltada ao estudo da Diáspora Africana e Cultura Afrodescendente.
"Eu comecei a pensar nisso tudo muito cedo. Como eu queria estudar fora, eu já fui atrás das minhas paixões, quais eram as minhas prioridades, fui atrás de competições que eu poderia participar, fui atrás de aprender inglês", conta o mais novo calouro.
"Não existe projeto assim no Acre. Se você tem interesse em uma determinada área, é muito complicado para desenvolver. Mesmo que seja para agregar no seu currículo, é importante que seja a área que você gosta. Fui atrás desses projetos porque eu gostaria de ter isso na minha escola, eu gostaria de poder estudar esses assuntos, a psicologia no geral, e eu não tinha onde estudar isso", completa.
Diego também participou de programas internacionais. No total, ele foi aprovado em quatro intercâmbios, e foi em três. Com isso, se tornou o primeiro da família a viajar para fora do Brasil. O jovem fez parte, por exemplo, do Programa Jovens Embaixadores, que leva estudantes do ensino médio da rede pública para um intercâmbio de três semanas nos EUA, com tudo pago, e busca desenvolver o perfil de liderança. Outro programa foi o AFS Intercultural Programs, que oferece bolsas de estudos para intercâmbio na China focado em sustentabilidade e tecnologia.
Vida nos EUA
No primeiro ano na Universidade de Princeton, Diego pretende explorar diversas áreas antes de decidir qual curso vai seguir. Ele, porém, já indicou no currículo que tem interesse em Psicologia. "Estou certo de que gosto de Psicologia, mas quero dar uma oportunidade para outras áreas também e ver se eu gosto."
O interesse pelo tema surgiu a partir da própria vivência, a pressão por desempenho e os impactos da exigência acadêmica sobre a saúde mental dos estudantes. Hoje, ele inclusive faz uma pesquisa sobre a temática com orientação de Aaron Litvin, pesquisador PhD de Harvard. "Eu gosto de estudar comportamento humano, principalmente voltado aos adolescentes, questão de Burnout acadêmico", explica.
Diego se muda para Nova Jersey, nos Estados Unidos, por volta de setembro deste ano. Ele afirma que está ansioso para as mudanças e para conhecer a universidade, os professores e os novos colegas, mas cita que o principal desafio será ficar longe da família.
"Sou muito apegado à minha família, a gente é muito próximo, é complicado ficar longe deles. Eu já fiquei um mês [para intercâmbios], mas agora eu vou ficar quatro anos, é bem diferente", destaca. Ele diz que, após se formar, o objetivo é voltar para o Brasil e exercer a profissão no País.
Para outros estudantes que também têm esse sonho, o jovem aconselha a persistir: "sempre tentar as oportunidades que você quer, mesmo que pareça que não vai conseguir, mesmo que o seu contexto não seja favorável e as oportunidades não sejam iguais às de outros jovens de outros estados, do mundo. Mas vale a pena tentar. Muita coisa que eu achei que não ia passar, eu passei. Acho que o mais importante é tentar".
