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Ponte com emprego: Iniciativas sociais buscam suprir alta demanda em tecnologia

Organizações sem fins lucrativos capacitam, promovem empregabilidade e aliam projetos a causas sociais; em universidades, grade curricular é construída junto a empresas do setor

10 jul 2021 14h10
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Com a alta demanda por profissionais de tecnologia, diversas iniciativas têm oferecido capacitação na área, seja para o primeiro emprego ou uma transição de carreira. O movimento é positivo, mas faz surgir outro desafio: como incluir essa mão de obra iniciante se as empresas, na maioria, buscam talentos de nível sênior? Não basta só dar treinamento e lançá-los soltos no mercado de trabalho.

Parte da resposta a isso está na criação de um ecossistema em que haja conexão direta da pessoa com a vaga, principalmente no caso daqueles jovens em situação de vulnerabilidade social, sem uma rede de networking familiar que seus pares de famílias abastadas possuem: o pai é CEO em alguma empresa ou conhece alguém que conhece alguém. Em paralelo, há um esforço para conscientizar as companhias de que vale a pena investir no potencial de um funcionário mais júnior.

De acordo com um relatório da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o Brasil vai precisar de 70 mil profissionais com perfil tecnológico por ano até 2024. Porém, as universidades formam 46 mil pessoas anualmente e, se nada mudar, o País terá um déficit de 260 mil profissionais. A boa notícia é que mudanças já estão ocorrendo.

"Houve uma proliferação, de 2019 para cá, de plataformas, ONGs, startups, edtechs que passaram a oferecer um rol de capacitadores. Houve diversificação e aumento dessa oferta, tentando dar conta da demanda", observa Sergio Paulo Gallindo, presidente executivo da Brasscom. Essas iniciativas agilizam a esteira de capacitação, seleção e contratação, porque as formações são de curto prazo e focam nas atuais demandas do mercado.

Um exemplo é o Instituto Proa, que forma jovens de 17 a 22 anos de baixa renda vindos de escolas públicas. A organização atua em duas vertentes gratuitas: o projeto ProProfissão, que capacita em tecnologia, linguagem de programação e estimula o desenvolvimento de habilidades comportamentais, e a Plataforma Proa, que prepara o jovem em competências como autoconhecimento, raciocínio lógico, comunicação, carreira e projeto de vida. No final de cada uma delas, os jovens ficam disponíveis para mais de 70 empresas que são parceiras ou apoiadoras da ONG e querem contratar esses talentos.

Após a formação, os alunos são acompanhados por três anos a fim de iniciarem a carreira com mais suporte, uma vez que o networking ainda está em construção. "A gente entende que o jovem, por ser o primeiro emprego, pode sair desse trabalho. Ele volta para essa base e vamos apoiá-lo novamente para garantir essa empregabilidade", explica Alini Dal'Magro, CEO do Instituto Proa.

Ela reconhece que o cenário na tecnologia é crítico, mas, ao mesmo tempo, interessante. "As empresas estão entendendo que precisam fazer parte desse movimento, fazer adaptações. Muitas estão formando dentro delas e outras recebendo de fora. Tem questões de necessidade e elas percebem que o impacto pode ser nelas", afirma.

Para incentivar a inclusão dos iniciantes, o Proa faz a ponte dos jovens com as empresas antes mesmo de eles estarem aptos à contratação. "A gente faz visitas, eles participam de entrevistas e dinâmicas e trazemos voluntários que são diretores e gerentes para dar feedback. Numa empresa nova, falamos muito sobre nosso perfil de jovem, da gestão profissional e isso passa bastante credibilidade", diz.

Ponte com emprego se alia à causa social

As empresas têm olhado mais para questões sociais e de diversidade, uma demanda da pauta ESG (ambiental, social e de governança), e Alini considera isso positivo para a transformação da sociedade como um todo. "O limite que eu tinha para minha vida era muito diferente", comenta Matheus Nascimento, de 21 anos, sobre o futuro que enxergava antes de entrar no Proa.

Ele mora em um bairro periférico da zona leste de São Paulo e, quando estava no Ensino Médio, fez um curso técnico de serviços jurídicos que não lhe rendeu um emprego. Como os pais não podiam pagar a faculdade, o sonho da graduação ficou mais distante. Incentivado por uma amiga, ele se inscreveu em um programa do Proa que, na época, era para auxiliar administrativo.

Ao final dos cinco meses de curso, a turma apresentou um projeto a integrantes do banco JP Morgan, empresa parceira do instituto. O jovem foi abordado depois da apresentação e apresentado a oportunidades da empresa. Animado, Matheus fez o processo seletivo e em seis meses começou a estagiar na instituição financeira. "Por ser um projeto social, eles decidiram dar esse voto de confiança. Se não fosse o Proa, eu não conseguiria chegar perto daquele ponto", diz.

Ele define que a experiência transformou e acelerou as conquistas: o jovem conseguiu pagar um curso de inglês, passou a pesquisar ofertas de intercâmbio e teve contato com gente que fez mestrado internacional. "Isso me levou a outros caminhos que eram distantes da minha realidade", relata. Atualmente, ele trabalha no Bank of America, vaga conquistada também por intermédio da ONG, e faz curso de Direito.

Capacitação de mulheres

Na pesquisa Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil, o IBGE informa que, de acordo com o Censo da Educação Superior 2019, mulheres correspondiam a 13,3% das matrículas nos cursos presenciais de graduação na área de computação e TI, e 21,6% na área de engenharias. Em consequência, elas são minoria nesse mercado de trabalho. Para vencer as estatísticas, a Laboratória capacita mulheres diversas por meio de bootcamps de seis meses e as conectam com vagas de empresas.

"É um grande desafio, não dá para fazer sozinho, a gente precisa da parceria das empresas, e as empresas estão tendo um pouco mais de consciência de que se continuarem nessa meta de contratar profissionais com três, quatro anos de experiência, nem sempre vão encontrar. Elas têm de contratar pessoas mais juniores, talentosas, que tenham curva de aprendizagem", diz Regina Acher, cofundadora da Laboratória no Brasil e CMO global. Ela defende que é preciso ter transparência para que esse ecossistema de empregabilidade funcione. Às empresas, dizer qual o perfil que está sendo formado e entregue a elas; às profissionais, não prometer aquilo que não se pode fazer. "É ser coerente com aonde quer chegar."

Thalita Sousa, de 21 anos, passou pela formação da Laboratória num movimento de transição de carreira dentro da mesma empresa. Ela era analista de experiência na Loggi e, depois do bootcamp, tornou-se desenvolvedora na área de engenharia de software.

"Nunca tinha me imaginado trabalhando em tecnologia porque não é uma oportunidade apresentada a mulheres. Quando entrei em contato com ex-alunas da Laboratóra, olhei mais para a área e comecei a pensar que talvez fosse aquilo que queria para mim", conta. Hoje, ela também atua como auxiliar das novas alunas que participaram do bootcamp, uma vez que a Laboratória acredita que promover esse ciclo, que gera identificação e inspira, ajuda a encorajar e atrair mais mulheres para o mercado de tecnologia.

Com essa mesma motivação, o Instituto Alpha Lumen desenvolve projetos para descobrir e alavancar jovens talentos a fim de que eles se tornem multiplicadores em seu entorno. O foco são crianças e adolescentes de escolas públicas e as abordagens incluem robótica, programação, esporte e artes, por exemplo. É comum que, posteriormente, eles retornem como instrutores em alguma atividade.

Nessa formação de indivíduo, o caminho até o emprego é mais longo, explica Nuricel Villalonga, diretora-fundadora da entidade. "Há uma preparação para o tipo de universidade que faça sentido para o projeto de vida dele, tem preparação para os vestibulares nacionais e internacionais e a gente tenta sempre criar caminhos para que esse jovem tenha possibilidades e um currículo para ser percebido. Os que vão para universidade, a gente faz uma ponte para que consigam serviço, já conectando a empresa", diz.

A atuação do Alpha Lumen mais direcionada à empregabilidade fica com a Alpha EdTech, um processo mais enxuto e específico para tecnologia destinado a pessoas a partir dos 18 anos de idade. Nesse projeto, o aluno recebe um auxílio mensal de R 1 mil e tem emprego garantido ao final do curso.

As empresas parceiras que financiam a iniciativa também atuam na formação, com oficinas e orientações. "A ideia é preparar rápido o jovem e já ir para o mercado de trabalho. Temos uma curva de aprendizado muito rápida", afirma Nuricel. A iniciativa também conta com ex-alunos do instituto que agora são mentores.

Universidades atendem demandas do mercado

De olho no "apagão" da mão de obra em tecnologia, o grupo Ser Educacional, mantenedor de universidades no Norte e no Nordeste, lançou o programa Singular Tech School. A iniciativa visa acelerar a carreira de estudantes nas áreas de desenvolvimento, engenharia de software e robótica. A qualificação está de acordo com as tecnologias demandadas pelas empresas parceiras, como Google, Oracle, IBM e Avanade.

"Esse 'apagão' envolve dois fatores: temos poucas pessoas fazendo curso de tecnologia e essas pessoas não necessariamente estão sendo qualificadas com a demanda que o mercado de trabalho precisa. Começamos a conversar com diversas empresas para identificar a lacuna de ensino e aprendizagem e pré-requisitos para entrar nas multinacionais", explica Hesdras Viana, que lidera a iniciativa.

Com essa aproximação, o grupo educacional leva aos estudantes conteúdos que fazem sentido aprender neste momento. As trilhas podem fazer parte da grade curricular tradicional da graduação ou ser disponibilizadas de maneira optativa em uma plataforma de cursos. "Tenho alunos do oitavo período que não tiveram oportunidade de ter um curso que está na grade do segundo período agora, então é uma forma de todos terem acesso", diz Viana.

Das parcerias também surge a ponte com o emprego e há projetos com metas de contratação. "A primeira empresa com que fizemos academia de aceleração de carreira foi com a MV, que selecionou seis alunos para ser desenvolvedor júnior. Nessa mesma ótica, vamos fazer dois cursos com Accenture e queremos que até 30 de julho a empresa contrate 30 alunos, com expectativa de que suba para mil", afirma o líder da Singular Tech.

Estadão
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