Da Antártida a Minas Gerais: por que o hantavírus importa muito mais do que parece ao Brasil
Caso no Brasil foi confirmado na mesma semana em que a hantavirose e trou no radar do mundo, com a contaminação em massa no navio de cruzeiro holandês MV Hondius
No início desta semana, em 11 de maio, autoridades de saúde de Minas Gerais confirmaram que um óbito ocorrido em fevereiro deste ano, até então sem causa esclarecida, foi provocado por hantavirose. O diagnóstico chegou três meses depois da morte.
Esse fato diz muito sobre uma doença que circula no país há mais de três décadas e quase nunca aparece nas manchetes: o diagnóstico depende de laboratórios especializados, geralmente ligados à vigilância epidemiológica ou centros de referência; o quadro inicial se confunde com gripe ou dengue e boa parte dos casos brasileiros só fecha diagnóstico depois do desfecho, como neste caso.
Em outras palavras, o índice de cerca de 46,5% de letalidade que o Ministério da Saúde divulga é calculado sobre os casos confirmados. Tudo indica que os números reais sejam bem maiores.
A confirmação do caso mineiro chegou na mesma semana em que a hantavirose entrou no radar do mundo. Na semana passada, o nome de um navio holandês, o MV Hondius, rodou o noticiário internacional: oito passageiros adoecidos e três mortos pelo mesmo vírus, todos a bordo de uma expedição com 147 pessoas que partiu de Ushuaia, na província argentina da Terra do Fogo, rumo à Antártida. Foi o primeiro registro de um surto de hantavírus em um navio. Portos europeus se recusaram a receber a embarcação. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o risco para a população em geral como baixo.
O que é o hantavírus
Hantavírus é o nome de uma família de vírus que vive em roedores silvestres, em ratos do mato, basicamente. Esses ratos não adoecem, mas eliminam o vírus a vida inteira pela urina, pelas fezes e pela saliva. Quando essas excreções secam em ambientes fechados, como paióis, depósitos de grãos, galpões ou casas de campo abandonadas, o vírus pode ficar suspenso em pequenas partículas no ar. A pessoa se infecta ao respirar essas partículas, muitas vezes sem perceber.
Não é uma doença que pega por água, comida ou picada de inseto. Também não é transmitida por contato casual entre pessoas. A regra geral é simples: quem nunca chega perto de um ambiente com infestação de ratos silvestres tem risco praticamente nulo.
O problema é o que acontece quando alguém se infecta. Depois de uma a oito semanas em silêncio, o quadro começa parecido com uma gripe forte: febre, dor no corpo, dor de cabeça, às vezes náusea e vômito. Em poucos dias, porém, pode evoluir rapidamente para falta de ar, queda de pressão e falência cardíaca e pulmonar: a chamada síndrome cardiopulmonar por hantavírus. Não existe remédio antiviral específico, e a vacina disponível em alguns países (como a Coreia do Sul) não cobre as variantes que circulam nas Américas. O tratamento é de suporte, em UTI, com oxigênio, ventilação mecânica e medicações para sustentar a circulação.
Mesmo com o melhor cuidado disponível, segundo o Ministério da Saúde, a letalidade média da hantavirose no Brasil é de 46,5%. Quase um a cada dois pacientes morre.
Por que o caso do navio chamou tanta atenção
Existem mais de vinte espécies conhecidas de hantavírus pelo mundo. Quase todas só passam para o ser humano por contato com roedores. Há uma exceção: o vírus chamado Andes, que circula na Argentina e no Chile. Em algumas situações muito específicas: casais que dormem na mesma cama, profissionais de saúde sem proteção, familiares cuidando de doentes em casa, esse vírus já foi documentado passando de uma pessoa para outra.
Foi exatamente esse tipo de hantavírus que apareceu no navio. E um navio é, por definição, um ambiente fechado, com gente compartilhando cabines e refeições por semanas. Daí o cuidado redobrado da OMS e a recusa de portos como o de Tenerife, nas Canárias, em receber a embarcação.
Vale o contrapeso, porém: mesmo o vírus Andes transmite muito mal entre pessoas. Não é covid-19, não é sarampo, não é gripe. A nota técnica da OMS sobre o surto reforça que esse tipo de transmissão é raro e exige contato muito próximo e prolongado.
A hipótese principal investigada por OMS e autoridades argentinas é que o casal holandês que adoeceu primeiro e morreu se infectou em terra firme, durante uma viagem de quatro meses pela América do Sul antes de embarcar. Uma das linhas de investigação envolve uma excursão de observação de aves nos arredores de Ushuaia, em área com presença de roedores silvestres. O período de incubação longo, de até oito semanas, explica como alguém pode embarcar saudável e adoecer no meio do oceano.
Por isso importa para o Brasil?
Porque a hantavirose, no Brasil, não é doença importada. É doença daqui. O primeiro caso brasileiro foi registrado em 1993, em Juquitiba, no interior de São Paulo. Desde então, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde publicado em fevereiro de 2025, foram notificados mais de 13 mil casos suspeitos só entre 2013 e 2023. Dos confirmados, 758 ao todo, quase 40% terminaram em óbito. Em alguns estados a letalidade passou de 50%. Em Maranhão, no recorte do boletim, foi de 100% — todos os casos confirmados morreram.
As variantes brasileiras de hantavírus têm nomes que misturam geografia e biologia: Araraquara, Juquitiba, Castelo dos Sonhos, Anajatuba, Laguna Negra, Paranoá, Rio Mamoré. A do Cerrado, conhecida como Araraquara, é uma das mais agressivas que se conhece. A região Sul concentra o maior número de casos; o Centro-Oeste, o maior número de mortes proporcionalmente.
As situações de risco também são bem mapeadas. A maioria dos casos brasileiros ocorre em homens entre 20 e 39 anos, em atividades rurais: limpeza de paióis fechados há tempo, manuseio de grãos, contato com plantações em áreas com infestação de ratos silvestres. Casas de campo que ficam meses fechadas, depósitos rurais e galpões com sinais de presença de roedores são os cenários clássicos.
As lições do surto do MV Hondius
Surtos em ambientes fechados, como navios, prisões e asilos, costumam funcionar como lupa: tornam visível o que normalmente fica diluído. O caso do MV Hondius mobilizou cinco países, ganhou as primeiras páginas em meio mundo e expôs, de forma didática, três coisas que infectologistas e epidemiologistas repetem há tempos.
A primeira é que doença rara não é doença ausente: é doença pouco vista, frequentemente subdiagnosticada. A segunda é que o turismo de natureza, hoje globalizado, leva e traz patógenos que antes ficavam confinados a nichos ecológicos específicos. A terceira é que a vigilância clínica precoce - alguém suspeitar a tempo, pedir o teste certo, avisar a vigilância sanitária - continua sendo o que faz diferença entre um caso isolado e um surto.
Para quem mora em centro urbano e nunca chegou perto de um galpão rural, o risco de hantavirose continua sendo muito baixo. Para quem trabalha ou visita áreas rurais com frequência, o cuidado básico vale a pena. E para o sistema de saúde brasileiro, o recado é o de sempre: a hantavirose já está entre nós, mata cerca de quatro em cada dez infectados, e merece o mesmo nível de atenção que doenças mais conhecidas — apesar de não render manchete.
Como se proteger
As medidas que funcionam são simples e baratas. Antes de entrar em um galpão, paiol, depósito ou casa de campo fechada há muito tempo, é necessário abrir portas e janelas e deixar arejar por pelo menos meia hora.
Antes de varrer ou limpar, umedecer o chão com água e água sanitária: varrer no seco levanta poeira e, junto com ela, o vírus.
Manter alimentos guardados em recipientes fechados, eliminar entulho ao redor da casa, vedar frestas que sirvam de passagem para ratos. Quem trabalha em situações de exposição alta deve usar máscara de boa proteção (do tipo PFF2/N95) e luvas.
Vale guardar uma informação prática: febre alta com dores no corpo, evoluindo em poucos dias para falta de ar, em alguém que recentemente esteve em zona rural, mexeu com depósitos antigos ou viajou para área de risco, é motivo para procurar atendimento médico e avisar o profissional sobre a exposição. O diagnóstico precoce muda muito a chance de chegar a um centro médico que possa oferecer os cuidados adequados.
Klinger Soares Faíco Filho é fundador do InfectoCast, podcast dedicado à educação médica.
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