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França e Alemanha misturam vacinas contra covid; OMS desaconselha medida por falta de estudos

Recomendações atingem quem tomou produto de Oxford e tem, respectivamente, menos de 55 e 60 anos; segundo imunizante deve ser da Pfizer ou da Moderna. Justificativa é reduzir risco de coágulos

4 mai 2021
05h10 atualizado às 10h02
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05h10 atualizado às 10h02
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RIO - Autoridades sanitárias da França e da Alemanha têm recomendado que seus cidadãos de, respectivamente, menos de 55 e 60 anos e que já tomaram a 1ª dose da vacina de Oxford/AstraZeneca contra a covid-19, recebam como 2ª dose um imunizante diferente do primeiro. Nesse caso, a escolha preferencial recai sobre a Pfizer ou a Moderna. A combinação, que surpreendeu especialistas, tem sido receitada para reduzir o risco de coágulos, entre os mais jovens, relacionado ao produto de Oxford.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) não recomenda a mistura de vacinas diferentes. Ainda não há estudos sobre as possíveis consequências dessas combinações. Além disso, o risco de ocorrência de coágulos entre aqueles que recebem as duas doses da AstraZeneca é muito raro. Não justificaria tal alteração do protocolo. Na Europa, foram 222 casos em pelo menos 34 milhões de vacinados.

"Acho uma decisão no mínimo controversa", afirma o pediatra Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim). "O risco de coágulos é baixíssimo, e não há estudos sobre essas combinações de vacinas. Não sabemos, por exemplo, se essa combinação pode oferecer proteção mais baixa ou até favorecer mais coágulos."

Na França, a decisão deve afetar 530 mil pessoas com menos de 55 anos que já tomaram a 1ª dose da vacina da AstraZeneca entre o início de fevereiro e meados de março. A Alta Autoridade de Saúde, um painel de especialistas que aconselha o governo francês, disse que a 2ª dose deve ser de vacinas baseadas na tecnologia de RNA, como a da Pfizer e a da Moderna. Segundo o ministro da Saúde francês, Olivier Véran, a combinação de vacinas diferentes é "totalmente lógica".

A vacina Oxford/AstraZeneca é um dos três imunizantes usados na campanha de imunização brasileira, junto da Coronavac e do produto da Pfizer. No Brasil, as doses de Oxford são fabricadas pela Fiocruz e, para o segundo semestre, a expectativa é de produção 100% nacional, sem dependência de insumos importados.

Autoridades investigam elo com coágulos

A Agência Médica Europeia estabeleceu recentemente que haveria "possível relação" entre a vacina da AstraZeneca e os incomuns coágulos que afetaram, na maior parte dos casos, mulheres com menos de 60 anos. A agência informou ter analisado ao menos 86 casos e 16 mortes. Recomendou uma atualização na bula da vacina, para que os coágulos sejam listados como um possível efeito colateral. Indicação semelhante foi dada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) do Brasil.

Especialista em vacinas e integrante da Alta Autoridade de Saúde, Elisabeth Bouvet afirmou que a combinação de vacinas diferentes é uma solução prática. O objetivo é proteger os mais jovens, que têm risco menor de desenvolver formas graves de covid. "É uma escolha baseada em segurança", garantiu, a despeito da ausência de dados clínicos sobre a combinação de vacinas.

Para a especialista, a estratégia teria risco muito baixo de provocar efeitos colaterais e, provavelmente, deve oferecer proteção adicional contra a covid, uma vez que todos os imunizantes têm como alvo principal a proteína spike do coronavírus. "Acreditamos que essa estratégia vai funcionar", disse ela. "Não há razão para esperarmos algum efeito colateral em particular com a combinação. Mas será interessante estudar a resposta imunológica que será induzida."

O secretário de Saúde da Baviera, Klaus Hletschek, tem opinião semelhante à da colega francesa: "A solução encontrada vai oferecer bom nível de proteção". A decisão da Alemanha foi baseada em decisão da Comissão Alemã de Vacinas. Na Alemanha, ao menos 2,2 milhões de pessoas com menos de 60 anos já tomaram a 1ª dose da AstraZeneca.

O britânico Peter English, especialista em controle de doenças transmissíveis, disse que é razoável combinar vacinas diferentes e que isso já foi feito antes para outras doenças.

Estadão
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