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Como a tecnologia pode ser uma aliada aos exercícios físicos?

De novos equipamentos a treinos no metaverso, há cada vez mais ferramentas que auxiliam na busca pela boa forma

14 mai 2022 05h10
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Entre os frequentadores de academia há uma máxima que diz que no pain, no gain, ou, em livre tradução, sem sofrimento não há ganho. Além de não ser totalmente real - não é preciso sofrer para estar com a saúde e o físico em dia -, os treinos têm recebido uma ajuda muito bem-vinda: a da tecnologia.

Com equipamentos e aplicativos, é possível alinhar a motivação intrínseca (aquela que faz com o indivíduo sinta prazer em praticar uma atividade física) com a extrínseca, ou seja: uma provocação exterior que colabora não só com o resultado, mas também com a possibilidade de ter um controle maior da evolução nos treinos.

A cantora Fernanda Abreu, de 60 anos, tem uma relação com o corpo desde os 9 anos, quando começou a fazer balé clássico - estilo que ela pratica até hoje. Avessa à academia, ela, ao longo dos anos, buscou, dentro da própria dança e em outras modalidades, como ioga e pilates, um jeito de se manter ativa e saudável.

Nessa procura pelo o que a fez manter a consciência corporal, Fernanda conheceu recentemente a eletroestimulação (EMS) ou os "choquinhos", como é popularmente conhecida a prática. Na verdade, trata-se da estimulação muscular por meio de impulsos elétricos, modalidade de treinamento criada na Alemanha em 2007, que de cinco anos para cá tem ganhado adeptos no Brasil.

Nela, o aluno veste um colete que vai cobrir parte do seu corpo. Nessa roupa, há eletrodos que são ligados a um dispositivo que emite e controla os impulsos elétricos. Por ser fácil de transportar, muitos educadores físicos já oferecem o treino em domicílio - o custo é de cerca de R$ 150 por aula.

O primeiro contato de Fernanda com a técnica foi por meio de um vídeo nas redes sociais. Já havia ouvido falar dos tais "choquinhos" para fins estéticos, mas não como opção de malhação. Resolveu experimentar.

"É legal porque ela (a eletroestimulação) otimiza o trabalho, não só do aeróbico, mas também da parte da força. Como nunca fui de levantar peso, me interessei por ser uma técnica dinâmica e que tem a ver com as atividades que eu pratico. Além disso, é uma atividade ativa", destaca a cantora, que faz o treino uma vez por semana.

Fernanda avisa que seu primeiro objetivo é ganhar tônus muscular - e com mais rapidez. "Como tudo na vida, nada é milagre. Depende muito do seu esforço. Entretanto, já senti a diferença. Me senti com energia e com mais disposição no resto do dia", explica, sobre suas primeiras impressões.

A cantora também alerta sobre como é importante conhecer seu corpo e seus limites - a modalidade exige muito do praticante e dura cerca de 20 minutos. "Você é que tem de dizer ao professor até onde você pode ir. É escalar os níveis de força que a eletroestimulação oferece nos diferentes grupos musculares. Para isso, a mente tem de estar focada no exercício", admite.

A educadora física Cau Saad, dona de um instituto no bairro dos Jardins, em São Paulo, é embaixadora da tecnologia alemã Miha no Brasil. Ela afirma que a EMS tem a capacidade de atingir as fibras internas dos músculos. "Eu tenho meu método de treinamento convencional, mas a progressão nele, assim como em outros, como aumentar carga e repetições e mudar o ângulo, implica uma exaustão articular. Já a eletroestimulação consegue atingir as fibras sem ter essa grande sobrecarga", explica.

A eletroestimulação, muitas vezes, é comparada a um treino funcional, aquela atividade dinâmica que explora movimentos presentes no dia a dia, como saltar, pular, girar e agachar. "Não é uma comparação errada. Para alguns alunos, eu a associo, por exemplo, com o correr na esteira", assegura Cau, que também utiliza acessórios como fitas elásticas, bolas e pesos, dependendo da finalidade e da progressão do treino.

Uma nova relação

O empresário José Marfará, sócio-diretor das academias Reebok Sports Club, há quase quatro décadas na área, começou a se preparar há 10 anos para o que, há três, ele considerou como um modelo ideal: uma ferramenta que integrasse informações e funções de maneira prática. A pandemia acelerou a implementação.

A academia desenvolveu um app próprio no qual cada aluno tem seu treino separado por dias da semana. Por lá, ele também reserva vagas em aulas que ocorrem durante o dia e pode acompanhar sua evolução diária, semanal ou mensal. Cada instrutor trabalha com um tablet nas mãos no qual ele faz check-in dos alunos que estão em atividade e confere o treino de cada um.

"O maior problema das academias sempre foi a falta de um acompanhamento individual e por uma equipe multidisciplinar. A tecnologia permitiu à gente prescrever um programa de atividade física e fazer uma avaliação do resultado dentro de um determinado período. Para o cliente, o app mostra a ele no que ele está melhorando e lhe dá a chance de gerir seu treinamento, o que é altamente motivador", considera Marfará.

Já os gestores conseguem saber quais as áreas e aulas de maior interesse dos frequentadores e avaliar os instrutores de acordo com a performance dos alunos - estes, também podem atribuir notas aos profissionais.

A unidade que fica dentro do Shopping Cidade Jardim conta com um equipamento suíço da BodyGee que, em poucos minutos, por meio de câmeras de alta definição, faz uma análise corporal e postural do aluno, gerando uma imagem 3D e informações como peso, medidas e gordura corporal.

A análise fica disponível tanto para os educadores físicos quanto para os alunos - que podem, por exemplo, compartilhar com médicos e nutricionistas. A cada 60 ou 90 dias, ela pode ser repetida e os resultados comparados automaticamente. Dos cerca de 7 mil alunos das duas unidades da academia, 60% já passaram pela análise.

Integração

Marfará acredita que o próximo avanço da tecnologia é justamente estreitar o compartilhamento das informações sobre o treino com profissionais da área da saúde. Atento às novidades do mercado, como aulas que começam a surgir no metaverso, ele observa que as pessoas ainda preferem estar no ambiente da academia. "A pandemia deixou as pessoas mais abertas às novidades dessa área", lembra.

A empresária Caroline Lazzaretti, de 38 anos, embora treine na unidade desde 2002, nunca tinha feito a avaliação no equipamento, disponível havia 3 anos. "Estava acostumada com a avaliação física tradicional, feita em uma sala, com eletrodos no corpo. Achei fantástica a rapidez (da máquina). Eu estava adiando porque achei que demorasse mais."

Carolina se define como mais analógica do que tecnológica - ela havia esquecido a senha de seu app. "Preciso de um pouco mais de paciência para entrar nesse universo. Eu brinco que meu filhinho de 2 anos está mais conectado do que eu. Mas penso que a tecnologia veio para trazer facilidade."

Vida prática

Para Fernando Carmelo Torres, diretor-geral do Centro de Estudos de Fisiologia do Exercício e Treinamento (Cefit) e presidente eleito da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, a tecnologia tem contribuído, ao longo dos anos, para o avanço dos equipamentos de práticas e controle e vestuário esportivos.

Ele cita, por exemplo, o uso do tecido dryfit, já amplamente disponível no mercado, que facilita a troca de calor com o meio ambiente, evitando sua retenção e melhorando o rendimento do praticante. No ciclismo, as bicicletas feitas de fibra de carbono favorecem curvas, subidas e sprints. Para atletas paraolímpicos, há calçados que se adaptam às suas necessidades específicas.

"Hoje, os frequencímetros, ou os atuais smartwatches, não medem apenas a frequência cardíaca do indivíduo. Com o GPS, mostram o ritmo, por exemplo. Isso dá a ele um melhor controle sobre sua carga de treino e o ajuda a cumprir seu objetivo, que pode ser diferente a cada dia. Isso torna a atividade mais efetiva e personalizada. E, com esse manejo das informações, o praticante melhora seu rendimento e evita lesões", garante o médico.

Torres chama a atenção para uma espécie de "top" que os jogadores de futebol têm usado por baixo da camisa de jogo. A peça, na verdade, é um equipamento que coleta dados sobre o desempenho do atleta durante a partida. Isso permite à equipe técnica preparar treinos cada vez mais individualizados.

"As novidades da indústria são tanto para atletas de alto rendimento quanto para amadores. Os novos aparelhos e acessórios permitem treinos altamente ajustáveis", informa o médico. Esses equipamentos também aceitam que treinadores ou personal trainners controlem o treino a distância. Ou que o aluno compartilhe com seu professor, a qualquer momento, o que foi realizado para uma avaliação posterior.

O educador físico Renato Verzani, com doutorado em desenvolvimento humano e tecnologias, diz que muitos dispositivos disponíveis no mercado têm evoluído e trazido dados cada vez mais precisos. Entretanto, os usuários necessitam de uma adequação comportamental para que não distorçam o real objetivo de seu treinamento ou se empolguem na chamada gamificação dos aplicativos - o uso de estratégias de jogos, como pontuações e níveis.

"Muitos desses aplicativos têm metas internas ou permitem competições entre os esportistas. Com isso, o praticante muitas vezes deixa de seguir a orientação de um treinador para tentar bater um recorde do app. É preciso cuidado para não se lesionar", ensina.

Segundo o especialista, os desenvolvedores de apps já estão atentos a essas distorções e promovem campanhas de conscientização dos usuários e sinalizam trechos perigosos. "A tecnologia só agrega e será cada vez mais presente nos treinamentos. Basta fazer o bom uso delas."

Como a tecnologia pode ajudar seu treino

  • Evolução

Treinos e equipamentos que antes eram restritos a atletas de alto nível, cada vez mais estão disponíveis para amadores. É o caso do equipamento Body Gee, que gera uma imagem 3D do aluno na academia, e também de aplicativos de medição de desempenho.

  • Conhecimento

Ter o controle de treino, frequência e resultados são os maiores benefícios da tecnologia. Dessa forma, é possível perceber o que está funcionando e monitorar a evolução do aluno. Também fica mais fácil definir metas. Para quem vive sem tempo, a tecnologia ajuda na condução de treinos mais focados e objetivos.

  • Equipamentos

As esteiras e bicicletas de última geração permitem que você conecte seu app favorito de treino, como o Strava (muito usado por quem pedala ou corre), por exemplo. É uma maneira de deixar o treino indoor mais prazeroso.

  • Gameficação

Aplicativos específicos usados em academias oferecem treinos que se parecem com games. Eles podem estimular a atividade física, mas é preciso ficar atento para não ter lesões ao se forçar além do limite.

  • Metaverso

Já se fala em treinos no metaverso, ambiente virtual no qual, com a ajuda de óculos de 3D, o usuário pode praticar atividade física, como correr na companhia de outros participantes ou disputar uma partida de basquete. Uma evolução da aula online que se popularizou na pandemia.

  • Analógico

Lembre-se: a tecnologia não substitui a avaliação médica e a orientação de um profissional de educação física.

Estadão
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