[Coluna] Democracia sim, mas só no nosso país
Lula critica a interferência dos Estados Unidos em Cuba e na Venezuela. No entanto, ele sempre tolerou que a democracia nesses mesmos países fosse pisoteada.Quando Fidel Castro promoveu a Revolução em Cuba, ela veio acompanhada da promessa de eleições livres. Entretanto, após a vitória em 1959, ao ver as multidões em seus discursos em Havana, a ideia rapidamente desapareceu. Para que eleições, se todos já o aplaudiam, pensou o comandante, que gostava de agir como um caudilho.
Assim, a prometida democracia cubana se transformou em um regime de partido único, que não permite oposição e nem opiniões diferentes das do governo. Em outras palavras: uma ditadura. Desde 1959, ela tem se mantido no poder, contrariando a crença geral de que um regime não conseguiria sobreviver a décadas de crise.
Quando visitei Cuba pela primeira vez, há 35 anos, no meio do "período especial" após o colapso da União Soviética, já se dizia que o regime não duraria muito. Desde então, crises severas atingiram o país - e, ainda assim, o regime continua firme, mantendo a sociedade cubana sob um rígido controle. Mas será que mesmo agora, com os Estados Unidos fechando a torneira do petróleo?
"O nosso país é solidário ao povo cubano, que é vítima de um massacre de especulação dos Estados Unidos contra eles. Temos que encontrar, enquanto partido, um jeito de ajudar", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva há alguns dias, em um evento do PT. Ele também criticou o embargo de petróleo imposto pelos EUA à ilha caribenha - o presidente americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas a todos os países que continuem fornecendo petróleo a Cuba.
Mas as palavras de Lula soaram mais como solidariedade ao governo cubano. Se o regime realmente representa a vontade dos cubanos, não há como saber, pois Fidel Castro e seus sucessores sempre se abstiveram de perguntar ao próprio povo através de eleições livres e justas. Enquanto isso, desde 2021 pelo menos 2 milhões de cubanos já votaram com os pés e deixaram a ilha. Eles não veem mais futuro em Cuba.
Responsabilidade da esquerda latino-americana
Ainda mais dramática é a situação da Venezuela. Lá, 8 milhões de pessoas deixaram o país - aproximadamente um quarto dos habitantes do país. A repressão política e a miséria econômica os empurraram majoritariamente para os Estados Unidos, assim como foi com milhões de cubanos.
Mesmo assim, Lula critica a interferência dos EUA: "Precisamos dizer, em alto e bom som, que o problema da Venezuela tem que ser resolvido pelo povo da Venezuela e não pelos Estados Unidos ou por [Donald] Trump", afirmou.
Lula sabe muito bem que o povo venezuelano votou por mudança nas últimas eleições. Um resultado que foi simplesmente ignorado por Nicolás Maduro. Por anos, Lula apoiou Maduro, que tinha assim liberdade para reprimir violentamente sua própria população. A exigência de que o povo venezuelano "resolva os problemas da Venezuela" é, portanto, pura hipocrisia.
Por décadas, Lula e o PT apoiaram tanto o regime cubano quanto o venezuelano, assim como a brutal ditadura na Nicarágua. Nunca pareceu interessar a Lula ou ao PT o fato de que as populações desses países eram oprimidas e tiveram sua vontade política esmagada pelas botas de militares corruptos. Afinal, eram velhos amigos da Guerra Fria, com quem se podia entoar as velhas canções revolucionárias de Che Guevara. Mas a Guerra Fria já acabou há muito tempo. O povo não quer nostalgia kitsch de Che Guevara, e sim comida e eleições livres.
A esquerda latino-americana precisar a assumir a responsabilidade por Trump estar lidando agora com esses problemas antigos. Nenhuma pressão foi feita para fortalecer a democracia nesses países. Nada foi feito para garantir os direitos da oposição. Em vez disso, a oposição era frequentemente tachada de "marionete do imperialismo americano".
Enquanto isso, no Brasil, o PT sempre reivindicou seus próprios direitos políticos - e com razão. Mas uma coisa é cobrar democracia em casa; outra é aplaudir ditaduras no exterior e até mesmo defendê-las abertamente. Os direitos de um brasileiro valem mais do que os de um cubano, um venezuelano ou um nicaraguense?
Caetano Veloso tem razão em Podres Poderes: "Será que nunca faremos senão confirmar/ A incompetência da América católica/ Que sempre precisará de ridículos tiranos?"
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Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há mais de 25 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, desde então, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há doze anos.
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