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Recuperar 30% de áreas degradadas pode salvar 71% das espécies e reduzir aquecimento global

Estudo mapeou áreas prioritárias para restauração florestal e observou que, em 1/3 delas, o potencial para proteger a biodiversidade e retirar carbono da atmosfera é bastante alto; no Brasil, Mata Atlântica, Pantanal e Amazônia estão no topo

14 out 2020
12h10
atualizado às 17h10
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Com o avanço das mudanças climáticas e das previsões de que o planeta pode enfrentar em algumas décadas uma grande extinção de espécies, especialistas têm defendido a necessidade não apenas de conservar as florestas que ainda existem como de restaurar as que foram desmatadas ou degradadas. O desafio, em geral visto como complexo e caro, acaba de receber uma ferramenta que pode ajudar a torná-lo mais factível.

Um grupo internacional de 27 pesquisadores de 12 países, liderado por um brasileiro, fez um mapeamento dos ecossistemas em todo o mundo e calculou que a restauração de 30% deles em áreas prioritárias pode evitar mais de 70% das extinções de mamíferos, anfíbios e pássaros terrestres e absorver quase metade do carbono acumulado na atmosfera desde a Revolução Industrial, ou 466 bilhões de toneladas de gás carbônico.

O trabalho, publicado nesta quarta-feira, 14, na revista Nature, estima que, em todo o mundo, 2,87 bilhões de hectares de ecossistemas foram convertidos em terras agrícolas. Dessas áreas, mais da metade (54%) era originalmente floresta; 25% eram pastagens naturais; 14%, estepes; 4%, terras áridas; e 2%, pântanos.

A ideia não é que isso tudo retorne às condições naturais - até porque há importantes cultivos agrícolas nessas regiões -, mas focar a restauração onde ela seria mais efetiva tanto em termos de custo quanto de resultados para os serviços ambientais. Ou seja, salvar mais espécies e ainda retirar mais carbono da atmosfera. Para isso, os pesquisadores mapearam os ecossistemas em todo o mundo e os dividiram conforme sua importância.

Se os países resolvessem se concentrar em recuperar apenas 5%, eles deveriam focar as áreas vermelho-escuras; se o plano for 10%, já entram as áreas vemelho-claras; para 15%, as laranjas; e assim por diante (veja o mapa abaixo). De acordo com o líder do grupo, o brasileiro Bernardo Strassburg, professor do Departamento de Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio e diretor-executivo do Instituto Internacional para Sustentabilidade, o impacto é muito diferente conforme a área escolhida, daí a importância de entender onde estão as prioritárias.

"Recuperar 5% de terras em uma ou outra região do globo, por exemplo, pode reduzir a extinção de espécies em 7% ou 43%", diz. E o Brasil, mais uma vez, se destaca nisso, com várias áreas entre as mais prioritárias, concentradas principalmente na Mata Atlântica, no sul e leste da Amazônia e no Cerrado.

Pela análise, cerca de 200 milhões de hectares de vegetação nativa foram convertidos no País. Restaurar 15% disso, ou 30 milhões de hectares, nas áreas prioritárias, poderia salvar espécies simbólicas do Brasil, como a onça-pintada e o mico-leão-dourado. O País tem hoje cerca de 400 animais e 200 espécies de plantas ameaçados de extinção, como também o tamanduá-bandeira, o bugio-marrom, a ariranha, a palmeira-juçara, o pau-brasil, o jequitibá-rosa e a peroba.

No mapa, o Pantanal brasileiro não está destacado, porque o estudo foi concluído antes da temporada de fogo atual, quando ainda se considerava que cerca de 81% do bioma estava bem preservado. Strassburg ressalta, porém, que a região está agora entre as mais prioritárias para a restauração.

"Em todo o mundo, as áreas alagadas, ou wetlands, como o nosso Pantanal, estão entre as mais importantes para a biodiversidade e para conter as mudanças climáticas, até mais que as florestas tropicais. Se o mapa fosse refeito hoje, 1/3 do Pantanal estaria completamente vermelho", disse Strassburg ao Estadão. O bioma, que teve quase 33 mil km² atingidos pelo fogo neste ano, ou cerca de 22% de sua área, de acordo com o Programa Queimadas, do Inpe, era um dos últimos refúgios da onça-pintada e de espécies como a ariranha e a arara-azul.

"O Brasil é basicamente todo vermelho e amarelo. Tudo aqui é muito relevante para a biodiversidade e para a regulação do clima. Esse mapa deve ser olhado como um ativo estratégico se o País quiser fazer parte desse mercado internacional de serviços ecossistêmicos", complementou o pesquisador.

Conservação aliada à produção

Ele afirma que cerca de 75% do que foi desmatado no Brasil ao longo dos séculos se transformou em pastagens, muitas delas hoje degradadas. "A rentabilidade de pastagem é muito modesta perto do que se poderia ganhar com um mercado de carbono. A maioria dos lugares tem um boi por hectare quando facilmente poderia ter três", diz. Segundo ele, melhorar essas condições é que vai possibilitar que a restauração seja feita sem que haja interferência na produção agrícola.

Essa preocupação foi considerada pelo estudo, que busca trazer respostas para muitas das ressalvas que se fazem hoje, especialmente no agronegócio, em relação à restauração florestal. Os pesquisadores estimaram que, com o aumento da produtividade da agropecuária em todo o mundo e o uso de técnicas mais sustentáveis e intensivas, até 55% das áreas desmatadas ou degradadas poderiam ser recuperadas sem afetar o suprimento de alimentos.

"Resolvendo a subutilização, a subprodutividade das áreas de pastagem, e usando melhor o que já foi desmatado, é possível conciliar a produção com a conservação. Podemos chegar ao desmatamento zero no mundo todo, com a restauração de até 55% das áreas já convertidas, sem impactar a produção de alimentos", completa o pesquisador.

Segundo ele, quando se leva em conta, ao mesmo tempo, os ganhos para as mudanças climáticas, para a biodiversidade, e o custo-benefício, a tarefa também se torna interessante financeiramente. "Restaurar os locais prioritários aumenta em até 13 vezes o custo-efetividade da restauração", diz.

O trabalho foi feito sob encomenda da ONU, que elegeu o período de 2021 a 2030 como a década para a restauração de ecossistemas, o que vem gerando atenção para o desafio. Metas lançadas pela organização em 2010 previam a restauração de 15% dos ecossistemas, mas não só se falhou em alcançar isso como hoje já se considera que é preciso aumentar a ambição. Estudos estimam que um milhão de espécies estão em risco de extinção nas próximas décadas.

Além disso, há uma compreensão que recuperar os ecossistemas é uma das formas mais baratas de conter o aquecimento global - na comparação com medidas tecnológicas mais caras, como reduzir o consumo de combustíveis fósseis ou aumentar a eficiência energética -, visto que, ao crescerem, as árvores absorvem o CO2 que está na atmosfera.

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Estadão
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