Vídeo que mostra manifestação de professores contra baixo reajuste do piso salarial foi feito com IA
IMAGENS QUE CIRCULAM NAS REDES TÊM INDÍCIOS VISÍVEIS DE MANIPULAÇÃO; FERRAMENTA DE DETECÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ACUSOU USO DA TECNOLOGIA
O que estão compartilhando: vídeo que mostraria uma manifestação de professores contra o reajuste do piso salarial da categoria, que ficou em 0,37% neste ano. Na gravação, uma mulher entrevistada compara o percentual com os 33% anunciado em 2022, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. As imagens do protesto foram geradas por inteligência artificial e apresentam indícios visíveis de manipulação. A reportagem submeteu o vídeo à plataforma Hive Moderation, que detecta IA em mídias, e o resultado apontou 97,9% de probabilidade de geração por IA.
Vale dizer que o reajuste, equivalente a R$ 18, de fato gerou insatisfação na categoria. O percentual de aumento foi definido com base nos critérios de uma lei de 2008 (entenda mais abaixo). Como mostrou o Estadão, o governo federal deve editar uma medida provisória para conceder aos professores um reajuste superior ao previsto.
Saiba mais: publicado por diferentes perfis nas redes sociais, o vídeo falso levou usuários a acreditar que professores teriam ido às ruas para protestar contra o reajuste do piso salarial, estimado em 0,37% neste ano.
O Verifica realizou uma busca reversa para identificar a origem do conteúdo, mas não encontrou outras versões da gravação, nem registros na imprensa profissional sobre ato semelhante ao retratado.
A peça analisada aqui também foi publicada pelo deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO). Procurado, ele não respondeu à tentativa de contato feita pela reportagem.
Vídeo tem indícios de manipulação por IA
Além da alta probabilidade de geração por inteligência artificial apontada pela plataforma Hive Moderation, a gravação apresenta indícios visíveis de manipulação. O principal deles está em uma das faixas ao fundo, onde o nome do ex-presidente Jair Bolsonaro aparece de forma incompleta. Na imagem, é possível ler apenas "lsonar", com a ausência clara das primeiras letras no lado esquerdo.
Uma característica comum a conteúdos gerados por IA é a distorção de frases e letras que aparecem no vídeo.
Outro indício de manipulação está no rosto das pessoas que aparecem ao fundo da gravação. É possível perceber que há baixa definição dos traços faciais e que a imagem está embaçada.
Essa é outra característica de conteúdos gerados por IA: as ferramentas formam com mais detalhes os elementos que estão em foco ou que ficam na parte central da imagem. É comum que os elementos do fundo apareçam com distorções ou baixa definição.
Reajuste do piso segue critérios definidos por lei de 2008
O reajuste do piso salarial dos professores segue critérios definidos pela Lei do Magistério, de 2008. A norma determina que o piso seja reajustado com base no mesmo percentual de crescimento do valor mínimo investido por aluno no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), principal mecanismo de financiamento do ensino público no País.
Isso significa que o aumento do piso acompanha a variação do mínimo gasto por aluno de um ano para o outro. Com base nesse cálculo, neste ano o reajuste foi estimado em 0,37%, o que representa um acréscimo de R$ 18 na remuneração dos docentes, que passaria de R$ 4.867,77 para R$ 4.885,78. Trata-se de um dos menores aumentos já registrados e bem abaixo da inflação.
O vídeo compara o percentual de reajuste do piso salarial dos professores deste ano com o registrado em 2022, quando Bolsonaro era presidente. Naquele ano, o aumento foi de 33,24% (aqui).
Conforme mostrou o Verifica em uma checagem publicada à época (aqui), o reajuste foi concedido após pressão das representações de classe dos educadores. A medida desagradou prefeitos e governadores, que são os responsáveis pelo pagamento dos salários na educação básica. Eles pressionaram o governo federal para modificar a lei e o cálculo do reajuste, como forma de evitar o aumento e minimizar o impacto nos cofres de Estados e municípios.
Governo deve editar medida provisória para mudar cálculo e aumentar reajuste, diz ministro
Diante da repercussão negativa do baixo reajuste do piso, o ministro da Educação, Camilo Santana, disse em vídeo publicado na última quinta-feira, 8, no Instagram (aqui), que o governo federal vai editar uma medida provisória para garantir aos professores um percentual maior do que os 0,37% previstos anteriormente.
Santana disse ter participado de uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na qual estavam também o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para discutir a questão.
"Nós não podemos admitir que a regra atual com esse cálculo vai dar apenas 0,37% para os professores, isso é inadmissível. O professor precisa ser reconhecido, precisa ser valorizado", pontuou o ministro.
Ainda não há informações de quanto será o aumento. O ministro informou que Lula irá anunciar mudanças em relação ao cálculo e que a categoria terá um novo percentual de reajuste. Segundo Santana, as novas regras podem ser divulgadas até essa quinta-feira, 15.