Postagem engana ao comparar números de beneficiários do Bolsa Família e de empregos formais
PROGRAMA SOCIAL ABRANGE PESSOAS QUE ESTÃO FORA DA IDADE DE TRABALHO, COMO CRIANÇAS, ADOLESCENTES E IDOSOS; ALÉM DISSO, MILHÕES DE BENEFICIÁRIOS ESTÃO EMPREGADOS
O que estão compartilhando: que o Brasil tem 48 milhões de pessoas beneficiadas pelo Bolsa Família e apenas 39 milhões de empregos com carteira assinada. A postagem afirma que "hoje há mais brasileiros dependentes de auxílio governamental do que trabalhadores formais".
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Embora os números de pessoas atendidas pelo Bolsa Família e de empregados com carteira assinada estejam corretos, a postagem engana ao fazer parecer que há mais pessoas dependentes de auxílio do que trabalhadores no Brasil.
Entre os 48 milhões de beneficiados pelo Bolsa Família, há 11,3 milhões de crianças de até 11 anos, além de milhões de trabalhadores. Em 2024, 13,4 milhões de beneficiários do programa social estavam empregados, de acordo com dados oficiais.
Além disso, o total de pessoas ocupadas no Brasil é significativamente maior do que o número de trabalhadores formais. De acordo com o dado mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 103,2 milhões de pessoas estavam ocupadas, incluindo trabalhadores com e sem carteira assinada, autônomos, informais e servidores públicos.
Saiba mais: A postagem no Instagram passa a ideia enganosa de que beneficiários do Bolsa Família não trabalham, e que já mais dependentes do auxílio do que empregados no Brasil.
Nos comentários da postagem no Instagram, muitos endossam críticas ao programa social: "Não precisava nem cortar o bolsa família, o certo seria se quiser receber bolsa família também fosse trabalhar, bolsa família seria uma renda extra mais o governo quer ver você pobre", disse um perfil. "Pra que trabalhar se eles podem ficar com o que pagamos de impostos?", afirmou outro usuário.
Número de beneficiários do Bolsa Família inclui crianças e idosos
Os números que aparecem na postagem estão corretos. Segundo informações disponíveis no relatório de programas e ações do Ministério de e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o programa de transferência de renda beneficia 48,9 milhões de pessoas. Os números são de dezembro de 2025.
Já o número de trabalhadores com carteira assinada é de 39,4 milhões, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua divulgada pelo IBGE em dezembro.
Mas comparar o número de carteiras com o número de beneficiários engana, porque uma parte da população que recebe o Bolsa Família trabalha e outra parte não é economicamente ativa - incluindo crianças e idosos.
Isso ocorre porque o programa atende famílias, e não somente adultos economicamente ativos.
Segundo dados do MDS, dos 48 milhões de inscritos no programa, 11,3 milhões eram crianças e 3,1 milhões adolescentes. A análise é de dezembro de 2025.
Quem trabalha pode continuar recebendo Bolsa Família
Adultos beneficiários não são impedidos de trabalhar de carteira assinada. Um exemplo disso é que no primeiro semestre de 2025 os cadastrados do Bolsa Família ocuparam 58,2% das novas vagas de empregos formais geradas no Brasil.
A principal regra do programa é que a renda de cada pessoa da família seja de, no máximo, R$ 218 por mês. Por exemplo, se apenas um integrante da família tem renda e recebe um salário mínimo, e nessa família há sete pessoas, a renda de cada um é de R$ 216,85. Portanto, eles têm o direito de receber o benefício.
O programa conta também com uma regra de proteção que permite a famílias que ultrapassam o limite de renda continuarem recebendo 50% do valor do Bolsa Família, por um período de até dois anos. Segundo o MDS, a regra de proteção serve para as famílias beneficiárias se estabilizarem no mercado de trabalho.
A postagem checada também não leva em consideração, por exemplo, empregos sem carteira assinada. O número de pessoas ocupadas no país, segundo o último levantamento do IBGE, é de 103,2 milhões - superior ao número de pessoas trabalhando com carteira assinada.
Governo não decretou fim do Bolsa Família; postagem distorce reportagem de abril
Lei de Bento Gonçalves (RS) combate fraudes no Bolsa Família; emprego não é critério para benefício
Não há evidências de que beneficiários do Bolsa Família saiam do emprego para depender exclusivamente do programa
O Bolsa Família é um programa do governo que frequentemente é alvo de debate nas redes sociais. Uma das alegações mais populares é de que o programa faz com que beneficiários não procurem emprego ou deixem o trabalho formal para continuar recebendo o benefício.
Como foi dito acima, ser beneficiário do Bolsa Família não exclui o trabalho com carteira assinada. Mas além disso, especialistas ouvidos pelo Verifica em checagem anterior também divergem sobre a teoria de que beneficiários deixam o trabalho formal para ficar exclusivamente dependentes do programa.
Pesquisadores indicaram que não há indícios de que os beneficiários do programa saiam de seus empregos para passar a receber o valor. Há, sim, famílias que podem temer entrar em empregos com carteira assinada por medo de perder o benefício, mas não há evidências da saída de empregos apenas para receber o dinheiro do programa social.
Há também outro movimento observado pelos pesquisadores, de que beneficiários podem deixar de buscar por postos de trabalho com remuneração muito baixa ou precarizados, o que ajuda a elevar o preço mínimo do trabalho de pessoas mais pobres.
Leia a reportagem completa:Beneficiários do Bolsa Família saem do emprego para receber auxílio? Veja o que dizem especialistas