Áudio atribuído a Maduro sobre Lula e 'Cartel de los Soles' foi criado com IA
CONTEÚDO APRESENTA SINAIS DE USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E FOI DIVULGADO POR AUTOR REINCIDENTE EM ESPALHAR FALSOS ÁUDIOS 'VAZADOS' DE AUTORIDADES
O que estão compartilhando: que Nicolás Maduro teria resolvido denunciar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Foro de São Paulo durante audiência em tribunal dos Estados Unidos. Em um áudio que circula nas redes sociais, uma voz parecida com a do venezuelano afirma que haveria integração entre o "Cartel de los Soles" e o Brasil.
O Estadão Verifica apurou e concluiu que: é falso. O áudio tem indícios de ter sido criado por inteligência artificial (veja mais abaixo). O homem que compartilhou o conteúdo já foi desmentido várias vezes ao apresentar supostos áudios "vazados" de autoridades - todos eles falsos. A audiência de Maduro, no dia 5, foi meramente formal, para que o ditador venezuelano tomasse conhecimento das acusações contra ele. Não há registro de que Maduro tenha citado Lula, o Brasil ou o Foro de são Paulo. O depoimento dele à Justiça dos EUA está marcado para 17 de março.
Saiba mais: o vídeo com o áudio falso foi postado neste domingo, 11, e soma mais de 1,7 milhão de visualizações no Facebook e Instagram. O homem que o compartilha aparece com colete à prova de balas camuflado e óculos escuros. Antes de falar, ele retira uma balaclava do rosto e reproduz o áudio no celular. No fim, mostra uma pistola. O cenário simula uma floresta e as imagens são em preto e branco.
O responsável pelo conteúdo é conhecido por divulgar áudios falsos, criados por inteligência artificial. Sempre da mesma forma: filma a si mesmo e usa o próprio celular para tocar os áudios "vazados".
Ele já foi desmentido várias vezes ao postar gravações falsamente atribuídas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes (aqui, aqui e aqui), ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad (aqui), e ao jornalista William Bonner (aqui). Desta vez, volta a mentir ao exibir o suposto áudio de Maduro.
O Verifica selecionou dois trechos do áudio e o submeteu à ferramenta Hyia/InVID, que detecta áudios criados por IA. Em ambos, os áudios foram apontados "como provavelmente gerados por IA" (detalhe nos retângulos laranjas abaixo).
Assim como em outros áudios criados por IA, a voz do Maduro soa robótica e sem entonação. Outra característica que aponta a manipulação é haver, ao fundo do áudio, uma trilha sonora de suspense, incompatível com um ambiente de audiência judicial.
O que Maduro disse na audiência
Nicolás Maduro e a esposa delr, Cilia Flores, foram presos pelas forças armadas norte-americanas após uma operação militar na Venezuela, no dia 3. Dois dias depois, passaram por uma audiência de custódia, um trâmite burocrático para que os réus tomem conhecimento formal sobre quais crimes estão sendo acusados.
A acusação envolve conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos e conspiração para possuir metralhadoras e dispositivos destrutivos contra os Estados Unidos.
Na ocasião, Maduro disse ser inocente e um preso político. Não há qualquer registro de menção a Lula, ao Brasil ou ao Foro de São Paulo. Não houve tomada de depoimento, o que está previsto para acontecer na próxima audiência, marcada para 17 de março.
EUA retiraram acusação sobre 'Cartel de los Soles'
Em julho do ano passado, o governo norte-americano acusou Maduro de liderar o Cartel de Los Soles, que seria ligado ao tráfico de drogas. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chegou a anunciar a classificação como organização terrorista.
No entanto, após a invasão da Venezuela pelas forças armadas norte-americanas e a prisão de Maduro e da esposa dele, o governo dos Estados Unidos revisou a acusação contra o venezuelano.
Os promotores americanos abandonaram a afirmação de que o Cartel de los Soles é uma facção criminosa real, e passaram a ser referir ao termo para designar um "sistema de clientelismo" e uma "cultura de corrupção" alimentada pelo dinheiro das drogas.
Foro de São Paulo é organização de partidos de esquerda da América Latina
O Foro de São Paulo (FSP) é uma organização de partidos e entidades de esquerda de países da América Latina e do Caribe fundada por Lula e pelo ex-presidente de Cuba Fidel Castro, em 1990. O primeiro encontro aconteceu em São Paulo, em julho daquele ano, e reuniu 48 países e organizações. O objetivo era debater o avanço do neoliberalismo na região e a queda do Muro de Berlim, que marcou o enfraquecimento do comunismo na Europa.
Na ocasião, foi formulada a Declaração de São Paulo, que registra alguns dos princípios e objetivos da organização. Entre eles, estão a defesa da democracia, defesa da integração e soberania dos países latino-americanos e o combate ao imperialismo e ao neoliberalismo.
O Foro de São Paulo tem encontros anuais. Em 2023, ocorreu a 26ª reunião do grupo, em Brasília, com o tema: "Integração regional para avançar a soberania latino-americana e caribenha". No ano seguinte, o 27º encontro foi em Honduras e discutiu o enfrentamento das forças progressistas na América Latina contra a extrema-direita. Não há registro de encontro em 2025.
Como mostrou o Comprova, o Foro de São Paulo passou a ser descrito como uma "organização criminosa" pelo escritor Olavo de Carvalho, influenciador da direita e do bolsonarismo.
Em 2007, no livro O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, ele afirmou, sem qualquer documento comprobatório, que o FSP "reúne mais de uma centena de partidos legais e várias organizações criminosas ligadas ao narcotráfico e à indústria dos sequestros, como as Farc e o MIR chileno, todas empenhadas numa articulação estratégica comum e na busca de vantagens mútuas".
O Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR, em espanhol) faz parte do FSP, embora a organização, desde o fim da ditadura militar no Chile, rechace a continuação da luta armada que ocorreu entre 1973 e 1988.
Com relação às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), nunca houve participação oficial no grupo. As Farc deixaram de existir oficialmente em 2016, após acordo de paz com o governo colombiano.
Porém, o ex-grupo guerrilheiro ingressou na política partidária, com atuação legal e espaço no congresso nacional, com o nome de Força Alternativa Revolucionária do Comum. Em 2021, o grupo mudou novamente de nome, para Comunes, na tentativa de se dissociar da imagem da Farc. O Comunes é integrante do FSP.