"Brasileiros não sentem mais segurança em ficar nos EUA"
Em entrevista à DW, cônsul honorária do Brasil em Minnesota relata clima de medo no epicentro das deportações em massa nos Estados Unidos.A cidade de Minneapolis , no estado americano de Minessota, vive um clima de apreensão após o início de uma operação conduzida por agentes federais de imigração que resultou na morte de cidadãos americanos . Os incidentes geraram indignação e desencadearam protestos em todo o país.
Em meio a essa tensão, a comunidade brasileira tem se envolvido diretamente, não apenas buscando informações e ajuda consular, mas também observando de perto os efeitos dessas políticas sobre famílias, trabalhadores e toda a vida social da cidade. A professora de Direitos Humanos e cônsul honorária do Brasil em Minnesota, Kathya Cibelle Dawe, que está nos Estados Unidos há 16 anos, conta como o cenário atual transformou a sensação de segurança e mobilizou redes de solidariedade entre imigrantes e cidadãos locais.
Dawe observa que o medo "vai além de quem não tem documentos": famílias inteiras, trabalhadores que não podem trabalhar remotamente e estudantes vivem um estresse constante por enfrentar abordagens de agentes federais. "Existe uma tensão permanente. Pessoas que sempre circularam livremente agora pensam duas ou três vezes antes de sair de casa", diz.
Critérios ilegais de detenção e princípios legais ignorados
A operação em Minneapolis foi justificada oficialmente pelo governo federal como uma resposta a supostas fraudes em programas sociais que envolveriam comunidades somalis na região. Mas Dawe esclarece que esse tipo de investigação não é atribuição principal do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) e que, na prática, o foco tem sido detenções em massa e medidas agressivas que resultaram inclusive na morte de civis, Renee Good e Alex Pretti.
Nos primeiros dias de 2026, pelo menos oito pessoas morreram em confrontos com agentes federais ou sob custódia do ICE, segundo levantamento de veículos internacionais, em meio a protestos e tensões crescentes em cidades como Minneapolis. Esses casos se somam ao recorde de 32 mortes sob custódia do ICE em 2025, o maior número em mais de duas décadas, segundo registros compilados por organizações que monitoram detenções e mortes relacionadas à imigração nos EUA.
Dawe lembra que, além dessas mortes, houve várias situações de uso de força letal por parte de agentes. Além disso, outros direitos constitucionais fundamentais, como o devido processo legal ou a proteção contra buscas arbitrárias, têm sido relatados como desrespeitados. Casos de pessoas detidas sem explicação clara ou sem acesso a advogados, mesmo reivindicando cidadania americana, são parte das queixas que chegam ao gabinete consular do Brasil.
"Uma das principais preocupações, tanto do ponto de vista dos direitos humanos quanto da legislação dos Estados Unidos, é a violação do devido processo legal, garantido pela Quinta Emenda, em operações do ICE. Há relatos de pessoas detidas sem explicação, sem acesso a advogados, impedidas de apresentar documentos e até de cidadãos americanos abordados apesar de o ICE não ter jurisdição sobre eles, além de entradas em residências sem mandado judicial válido", diz Dawe.
Em um episódio recente, citado pela cônsul honorária, agentes do ICE arrombaram a porta de uma casa em St. Paul sem mandado judicial, apontaram armas e algemaram um homem de 56 anos antes de arrastá-lo para fora na neve com apenas shorts e sandálias. Ao perceber que se tratava de um cidadão americano naturalizado, os agentes o liberaram sem explicações ou desculpas algumas horas depois.
Segundo um memorando interno do ICE obtido pela agência de notícias Associated Press, agentes federais de imigração estão tentando mudar a norma para permitir a entrada à força em residências mesmo sem mandado judicial, o que representa uma ruptura com orientações anteriores que buscavam respeitar os limites constitucionais das buscas realizadas pelo governo nos Estados Unidos.
Em setembro de 2025, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 6 votos a 3, autorizar agentes do ICE a levarem em conta fatores como raça aparente, cor da pele e idioma, incluindo o fato de uma pessoa falar com sotaque espanhol, durante abordagens investigativas - uma controversa prática conhecida como perfilamento racial.
Dawe diz que este e muitos procedimentos observados são ilegais ou claramente violam princípios constitucionais dos Estados Unidos. A professora diz que o perfilamento racial para justificar abordagens por parte do ICE não tem base legal. "O ICE aplica leis migratórias federais, não tem autoridade para avaliar aparência física ou sotaque", afirma.
Impactos sobre brasileiros e respostas comunitárias
Para a comunidade brasileira, o impacto dessas atividades é sentido de maneira concreta. Dawe, que trabalha com aconselhamento junto ao Consulado, relata um aumento significativo de contatos de brasileiros, muitos em pânico após parentes ou amigos serem detidos e "desaparecerem" em sistemas de detenção federais em outros estados, como Texas e Louisiana. A dificuldade de localização das pessoas, e o deslocamento forçado de unidades torna o acesso de familiares e advogados ainda mais complexo.
"Muitos brasileiros estão pedindo ajuda para renovar documentos ou até mesmo para voltar ao Brasil, porque simplesmente não veem mais segurança em ficar aqui", relata.
Mas, em meio ao medo e à insegurança, há também respostas que reforçam o lado solidário da sociedade de Minneapolis, incluindo brasileiros e muitos grupos de apoio comunitário que se mobilizam para auxiliar imigrantes receosos de sair de casa.
"Uma parte muito importante do que vemos em Minneapolis é a resposta da comunidade, que tem organizado mutirões para arrecadar alimentos e doações e apoiar imigrantes que têm medo de sair de casa, não apenas brasileiros, mas pessoas de várias nacionalidades. Essa solidariedade mostra um espírito de acolhimento que contrasta com o clima de medo gerado pelas operações federais", diz a cônsul, destacando o espírito de acolhimento que tem emergido nesse momento de crise.