José Álvaro Moisés, cientista político e um dos fundadores do PT, morre aos 81 anos
Referência na Ciência Política, professor se afogou na Praia de Itamambuca, em Ubatuba; ABCP lamenta 'perda histórica'
O cientista político José Álvaro Moisés morreu nesta sexta-feira, 13, aos 81 anos.
Professor titular de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Universidade de São Paulo), Moisés se afogou na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.
De acordo com o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), o acadêmico foi encontrado inconsciente na faixa de areia. As equipes de resgate chegaram a tentar manobras de reanimação ainda na praia.
Segundo boletim de ocorrência, o caso foi registrado como morte suspeita e morte acidental. O documento aponta que o cientista político estava com um grupo de amigos, que notaram sua ausência em dado momento. Mais tarde teriam sido informados sobre o afogamento.
O velório está previsto para ocorrer neste domingo, 15, das 8h às 11h, no Salão Nobre do Prédio da Administração da FFLCH. A entrada, de acordo com a faculdade, será aberta a toda a comunidade.
Cientista político foi um dos fundadores do PT
José Álvaro Moisés foi um dos principais intelectuais envolvidos na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), mas se tornou um crítico do partido nos últimos anos — e chegou a dizer, em 2010, que o presidente Lula havia "passado dos limites".
Em 2023, durante entrevista concedida ao Estadão, Moisés apontou que o partido "tinha um vício de achar que, se o protesto era feito por ele, era legítimo, mas se o protesto era contra, era ilegítimo".
Fez questão ainda de ressaltar que a omissão "das forças democráticas ao mal-estar em relação ao funcionamento do sistema político abriu espaço para a direita e outros segmentos conservadores assumirem o protagonismo nas manifestações ocorridas dez anos antes, em 2013.
O partido manifestou publicamente seu pesar pelo falecimento do cientista político. Em nota oficial, a legenda destacou não apenas a estatura acadêmica de Moisés, mas também sua ligação histórica com a sigla.
O comunicado ressalta que a trajetória do intelectual foi marcada pelo "compromisso com o estudo das instituições democráticas e pelo acompanhamento atento da vida política nacional", consolidando a Ciência Política como um campo de reflexão crítica no Brasil.
O partido enfatizou ainda a postura dialógica do professor ao longo das décadas: "Moisés sempre se colocou no campo do debate democrático, contribuindo para o pluralismo de ideias que fortalece a sociedade brasileira. Neste momento de pesar, o PT se solidariza com familiares, amigos, colegas da Universidade de São Paulo e com toda a comunidade acadêmica."
José Dirceu também se manifestou. O ex-ministro destacou a longa história que compartilhou com Moisés. Em um depoimento que mescla o pessoal e o político, relembrou os primeiros passos da organização partidária no Brasil.
O relato destaca ainda a importância de Moisés na estruturação do PT em São Paulo, onde ambos ocuparam postos de liderança:
"Com tristeza, recebi a notícia da morte de José Álvaro Moisés, que conheci na volta da clandestinidade na luta contra a ditadura e na fundação do PT. Militante e cientista político, formamos a primeira executiva do PT paulista. Ele foi candidato a deputado estadual e sempre foi professor. Participou dos governos FHC, junto com Francisco Weffort, no Ministério da Cultura. Deixa saudade por sua obra como sociólogo e por uma vida dedicada à democracia e à justiça social."
USP e ABCP também lamentam morte do acadêmico
Em nota oficial, o chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, rendeu homenagens ao colega, ressaltando sua energia incansável:
"Moisés, como lhe conhecíamos, mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada [...]. Era um apaixonado da democracia brasileira, à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas. Deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher."
Villa faz questão ainda de ressaltar que Moisés se formou em 1970, nas primeiras turmas do curso de graduação em Ciências Sociais pela USP. O acadêmico realizou mestrado em Política e Governo pela Universidade de Essex e retornou à USP para obter seu doutorado, justamente sob orientação do professor Francisco Weffort.
Por meio das redes sociais, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) também lamentou a morte de Moisés. "Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores."
Ainda de acordo com a ABCP, Moisés foi uma figura central na internacionalização da pesquisa brasileira. Ele representou o Brasil em fóruns globais de prestígio, servindo no Comitê Executivo da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA) entre 2011 e 2015, e no Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC) de 2013 a 2016.
Além de sua produção teórica sobre cultura política e a qualidade da democracia, o professor teve um papel administrativo e de liderança fundamental na ABCP. Foi ele o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da instituição, cargo que ocupou de 2006 a 2012.