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Política

José Álvaro Moisés, cientista político e um dos fundadores do PT, morre aos 80 anos

Referência na Ciência Política, professor se afogou na Praia de Itamambuca, em Ubatuba; ABCP lamenta 'perda histórica'

14 fev 2026 - 12h35
(atualizado às 17h11)
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O cientista político José Álvaro Moisés, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT) morreu nesta sexta-feira, 13, aos 80 anos.

Professor titular de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Universidade de São Paulo), nascido em 4 de setembro de 1945, Moisés se afogou na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.

De acordo com o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), o acadêmico foi encontrado inconsciente na faixa de areia. As equipes de resgate chegaram a tentar, sem êxito, manobras de reanimação ainda na praia.

Segundo boletim de ocorrência, o caso foi registrado como morte suspeita e morte acidental. O documento aponta que o cientista político estava com um grupo de amigos, que notaram sua ausência em dado momento. Mais tarde teriam sido informados sobre o afogamento. Testemunhas ressaltam que o mar estava calmo.

O velório está previsto para ocorrer neste domingo, 15, das 8h às 11h, no Salão Nobre do Prédio da Administração da FFLCH. A entrada, de acordo com a faculdade, será aberta a toda a comunidade.

Um dos fundadores do PT

José Álvaro Moisés foi um dos principais intelectuais envolvidos na fundação do PT, mas se tornou um crítico do partido nos últimos anos. Em 2010, ele chegou a dizer que o presidente Lula havia "passado dos limites".

Em 2023, durante entrevista concedida ao Estadão, Moisés apontou que o PT "tinha um vício de achar que, se o protesto era feito por ele, era legítimo, mas se o protesto era contra, era ilegítimo".

Cientista político morreu aos 81 anos
Cientista político morreu aos 81 anos
Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO / Estadão

Fez questão ainda de ressaltar que a omissão "das forças democráticas ao mal-estar em relação ao funcionamento do sistema político abriu espaço para a direita e outros segmentos conservadores assumirem o protagonismo nas manifestações ocorridas dez anos antes, em 2013.

O partido manifestou publicamente seu pesar pelo falecimento do cientista político. Em nota, a legenda destacou não apenas a estatura acadêmica de Moisés, mas também sua ligação histórica com a sigla.

O comunicado ressalta que a trajetória do intelectual foi marcada pelo "compromisso com o estudo das instituições democráticas e pelo acompanhamento atento da vida política nacional", consolidando a Ciência Política como um campo de reflexão crítica no Brasil.

O partido enfatizou ainda a postura dialógica do professor ao longo das décadas: "Moisés sempre se colocou no campo do debate democrático, contribuindo para o pluralismo de ideias que fortalece a sociedade brasileira. Neste momento de pesar, o PT se solidariza com familiares, amigos, colegas da Universidade de São Paulo e com toda a comunidade acadêmica."

O grande amigo

A trajetória intelectual de Moisés é inseparável dos caminhos trilhados por seu grande amigo: o sociólogo Francisco Weffort, de quem foi colega na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo (USP). Weffort morreu em 2021.

Seus estudos sobre o novo sindicalismo se ligavam aos de Weffort sobre emergências das massas urbanas e o populismo na política nacional. O destino dos dois esteve ligado não apenas na academia, mas também quando ambos decidiram participar da fundação do PT ao lado de intelectuais como Antônio Cândido e Sérgio Buarque de Holanda.

Weffort e Moisés militavam no diretório de base de Pinheiros. Enquanto o amigo chegou à secretária-geral do PT, Moisés fez parte da direção estadual da sigla. "Tivemos uma convivência muito salutar no período de formação do partido", afirmou José Genoino, ex-presidente do PT.

Na época, Genoino estava à esquerda do partido e Weffort e Moisés participavam do grupo majoritário da sigla, a Articulação. Em 1994, com a vitória de Fernando Henrique Cardoso, Weffort e Moisés decidem apoiar o governo do amigo sociólogo. O primeiro foi nomeado ministro da Cultura, de quem Moisés foi secretário executivo.

"A saída do Zé Álvaro do partido foi muito civilizada. Ele e o Weffort se afastaram de forma respeitosa quando decidiram apoiar o governo FHC. E sempre trataram o partido com muito respeito", afirmou Genoino. Para ele, a trajetória de Moisés foi marcada pelo comprometimento com a democracia.

Crise da democracia: a última parceria

Em 2020, Moisés publicou seus último livro em parceria com Weffort: Crise da democracia representativa e o neopopulismo no Brasil. A edição unia dois temas que dominaram a obra dos dois autores: o populismo para Weffort e a crise das instituições democrática para Moisés.

Este via a democracia do "período pós-autoritário na berlinda" e tratava das raízes profundas do populismo no país. Moisés reconhecia que um novo ciclo político do País se iniciara em 2018, que ainda era impossível conhecer seus desdobramentos e concluía que os órgãos de controle - os freios e contrapesos da República - funcionavam com quem não tinha a radicalidade suficiente para solapar as instituições. Para ele, quanto mais radical o governante, menor a efetividade desses órgãos.

Os cientistas políticos Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, autores do livro 'Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil'.
Os cientistas políticos Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, autores do livro 'Crise da Democracia Representativa e Neopopulismo no Brasil'.
Foto: Tiago Queiroz e Marcio Fernandes/Estadão / Estadão

Eis por que naquele que talvez seja seu testamento político, Moisés defendesse que o Brasil precisava de uma reforma de seu sistema político e examinar seriamente a possibilidade de se adotar o semipresidencialismo como forma de retirar a democracia brasileira da berlinda. O fim do governo de Jair Bolsonaro não afastou a democracia brasileira de sua crise, apenas mudou o endereço dela na Praça dos Três Poderes.

USP e ABCP lamentam morte do acadêmico

O ex-ministro José Dirceu destacou a longa história que compartilhou com Moisés e a parceria dele com Weffort. "Estiveram juntos por oito anos no governo FHC e mantiveram uma parceria acadêmica e teórica muito importante. Convivi com os dois", disse ao Estadão.

Em um depoimento que mesclou o pessoal e o político, relembrou os primeiros passos da organização partidária no Brasil após a ditadura, com estruturação do PT em São Paulo. "Quando fundamos o PT, optei por ficar no diretório estadual. Ele (Moisés) fez parte da primeira executiva do PT paulista, ao lado de outros intelectuais, como Éder Sader e Marco Aurélio Garcia"

E destacou que as divergências com Moisés na época do mensalão não o impedem de lamentar a morte do cientista político. "Fiquei muito impactado pela notícia. Ainda mais como a morte ocorreu, em um lugar que ele (Moisés) amava tanto. Nossas divergências são menores diante de sua trajetória de defesa da democracia e da justiça social."

Em nota, a Fundação FHC manifestou "profundo pesar". "Como intelectual público, Moisés contribuiu de maneira expressiva com a redemocratização do país. Junto com Francisco Weffort, ambos fundadores do PT, foi voz ativa entre os intelectuais de esquerda que fizeram a crítica ao marxismo-leninismo e a defesa da democracia como valor universal."

A nota seguiu lembrando outro fato importante para a compreensão da trajetória de Moisés. "Aluno do presidente Fernando Henrique Cardoso, participou do seu governo em posições de destaque no Ministério da Cultura, empenhado sempre em democratizar a produção e o acesso a bens culturais."

E conclui afirmando que "ao longo das duas últimas décadas, sua produção acadêmica e atuação pública se voltaram ao desafio de melhorar a qualidade da democracia brasileira. Quando a viu ameaçada, em anos recentes, não hesitou em tomar posição. Fará falta ao Brasil."

Em nota oficial, o chefe do Departamento de Ciência Política da USP, Rafael Duarte Villa, rendeu homenagens ao colega, ressaltando sua energia incansável:

"Moisés, como lhe conhecíamos, mantinha uma atividade intelectual prolixa e engajada [...]. Era um apaixonado da democracia brasileira, à qual dedicou todas suas reflexões e esforço intelectual nas últimas três décadas. Deixa um vácuo pessoal, intelectual e institucional difícil de preencher."

Villa faz questão ainda de ressaltar que Moisés se formou em 1970, nas primeiras turmas do curso de graduação em Ciências Sociais pela USP. O acadêmico realizou mestrado em Política e Governo pela Universidade de Essex e retornou à USP para obter seu doutorado, justamente sob orientação do professor Francisco Weffort.

Por meio das redes sociais, a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) também lamentou a morte de Moisés. "Sua trajetória acadêmica, marcada pelo rigor intelectual e pelo compromisso com a vida pública, deixa um legado incontornável para a área e para gerações de pesquisadoras e pesquisadores."

Ainda de acordo com a ABCP, Moisés foi uma figura central na internacionalização da pesquisa brasileira. Ele representou o Brasil em fóruns globais de prestígio, servindo no Comitê Executivo da Associação Internacional de Ciência Política (IPSA) entre 2011 e 2015, e no Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC) de 2013 a 2016.

Além de sua produção teórica sobre cultura política e a qualidade da democracia, o professor teve um papel administrativo e de liderança fundamental na ABCP. Foi ele o primeiro coordenador da Área Temática de Cultura Política e Democracia da instituição, cargo que ocupou de 2006 a 2012.

Mortes por afogamento no litoral

De acordo com o Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), pelo menos 30 pessoas morreram no litoral paulista por afogamento desde o início da temporada de verão, em dezembro.

Corpo de Bombeiros reforçou pedido de respeito à sinalização nas praias do litoral paulista
Corpo de Bombeiros reforçou pedido de respeito à sinalização nas praias do litoral paulista
Foto: Taba Benedicto/ Estadão / Estadão

Diante da gravidade dos números, o GBMar intensificou as orientações aos banhistas, especialmente durante o Carnaval, reforçando que a prudência é a única forma de evitar novas tragédias. Em nota, a corporação destacou as medidas essenciais de segurança:

"É fundamental respeitar a sinalização de segurança, as orientações dos guarda-vidas e evitar o banho de mar em condições adversas, bem como após o consumo de bebidas alcoólicas."

As autoridades recomendam que os turistas busquem sempre áreas monitoradas por postos de salvamento e fiquem atentos às bandeiras vermelhas, que indicam correntes de retorno e perigo imediato.

Estadão
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