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Tatiana Farah

Bolsonaro não sabe o que é fair play

Presidente usa a camisa amarela, mas não tem o espírito da Copa: não quer passar a faixa para Lula

5 dez 2022 - 08h50
(atualizado em 7/12/2022 às 17h11)
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O presidente Jair Bolsonaro (PL) tem dito a aliados que não vai passar a faixa para Luiz Inácio Lula da Silva no dia 1º de janeiro. O trabalho deverá ficar a cargo do vice-presidente Hamilton Mourão.

Não entregar a faixa ao presidente democraticamente eleito é bem a cara do Bolsonaro que governou o país nestes quatro anos. Apesar de dizer que gosta de futebol e ficar de papo com Neymar Júnior, o atual presidente não entende nada de fair play. Ou até entende, mas despreza, como faz com a ciência e com os ritos que seu cargo exige.

Neymar em treino no Catar
Neymar em treino no Catar
Foto: Lucas Figueiredo/CBF

É uma pena que o presidente, que usa tanta metáfora de futebol (como dizer que joga dentro das quatro linhas da Constituição) e desfila com a camisa amarela, não entre no espírito da Copa do Mundo e não saiba perder com elegância. 

O capitão é aquela criança mimada que, derrotada, pega a bola e deixa o campinho xingando os amiguinhos. A bola, desta vez, não é dele. 

Bolsonaro no segundo turno da eleição
Bolsonaro no segundo turno da eleição
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Fair play, o jogo justo, não é mesmo com Bolsonaro. Em um breve retrospecto: o presidente enfiou as Forças Armadas no processo eleitoral, criou fantasmas em torno das urnas eletrônicas e fez seu partido passar o vexame de contestar a eleição (mas só a sua derrota porque, para todos os outros cargos, as mesmas urnas estavam valendo). Uma vergonha que custou ao PL mais de R$ 22 milhões.

Com seu silêncio, o presidente também tem mantido parte de seus eleitores nas ruas, bradando por um golpe militar, sempre na esperança de que algo muito importante acontecerá nas próximas 72 horas. E depois mais 72 e mais 72 ad aeternum.

Sabe-se que o atual presidente chegou ao cargo quase por acidente. Sempre foi um deputado do chamado baixo clero, cujas opiniões só importavam aos programas sensacionalistas, em que seu machismo e racismo exacerbados eram parte do entretenimento. Durante todo o governo, comportou-se como quem nunca esteve preparado para a liturgia do cargo. Agora, deve deixar o posto nos mesmos moldes, a se confirmar a notícia de que não passará a faixa adiante.

Para seus eleitores, aqueles que foram conquistados pelo entretenimento ou os de fundo ideológico, sempre haverá desculpas para seu comportamento. As grosserias presidenciais e sua falta de verniz intelectual, cultural ou social passaram a ser citadas como se fossem qualidades que faziam do presidente “gente como a gente”. Será?

No entanto, para quem arroga tanta fé e patriotismo, falta ao presidente um pouco mais de amor ao país e a seus ritos, ao desejo de sua população, sagrado e confirmado em eleições limpas. E falta um tantinho de coragem também para enfrentar a derrota.

Não passar a faixa não diminuirá Lula nem sua vitória. Apenas tornará o presidente Bolsonaro, o primeiro a não vencer uma reeleição, um pouco menor.

Fonte: Tatiana Farah Tatiana Farah é jornalista de política há mais de 20 anos. É repórter da Agência Brasília Alta Frequência. Foi gerente de comunicação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Repórter do BuzzFeed News no Brasil de 2016 a 2020.  Responsável por levar os segredos do Wikileaks para O Globo, onde trabalhou por 11 anos. Passou pela Veja, Folha de S. Paulo e outras redações, além de assessorias de imprensa. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra. 
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