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Tatiana Farah

Com a Copa, bandeira volta a ser símbolo do Brasil inteiro

O futebol não é religião, mas ainda vai nos redimir.

25 nov 2022 - 19h02
(atualizado em 26/11/2022 às 18h59)
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O pessoal que pede um golpe militar na porta dos quartéis ainda acha que a camisa da Seleção é um uniforme deles. Mas, graças ao futebol, o verde e amarelo foi resgatado desse sequestro político. Nesta sexta-feira (25/11), durante toda a tarde, usuários do Twitter mantiveram a palavra "Bolsonara", com "a" mesmo, para publicar suas fotos vestindo a camisa Canarinho ou enrolados na Bandeira Nacional. O termo "Bolsonara" apareceu porque eles escreveram aliviados que podiam, com a Copa do Mundo, usar o uniforme da Seleção sem ser confundidos com bolsonaristas.

Foto: Reprodução/Twitter

O futebol sempre teve sobre o Brasil esse poder mágico de mitigar o sofrimento, seja pela torcida genuína, seja pelo significado que ele tem nas perspectivas de futuro dos jovens pobres da periferia, seja na sanha de vingança histórica contra países que nos foram superiores em tantas outras áreas. Agora, soma-se a isso o papel do futebol para devolver a todos os brasileiros o direito de escolher usar ou não a camisa do time e a Bandeira Nacional. 

O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, divulgou um vídeo há duas semanas dizendo que iria usar a camisa amarela. E usou. Apaixonado por futebol desde sempre, o presidente corintiano deve ter se segurado muito para não berrar na frente da tevê com os golaços de Richarlison _ afinal, tem de poupar a voz depois da cirurgia de retirada de uma lesão na garganta. 

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Na equipe de transição do governo, petistas e ex-tucanos como o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, mostraram que a Copa deveria ser um tempo de paz. Todo mundo torcendo com a camisa da Seleção. Em São Paulo, o governador eleito, Tarcísio de Freitas (Republicanos), parou o trabalho para ver o jogo com os repórteres que insistiam em ficar na sala de imprensa, esperando notícias do novo governo, com um olho na política e outro no jogo.

Desde a campanha de 2018, o presidente o Jair Bolsonaro usa a Bandeira Nacional e os feriados patrióticos para dizer que seus opositores (a quem chama de esquerdistas, comunistas ou petistas) não honram o país em que nasceram.  A ideia de o "Brasil acima de tudo" fez vistas grossas quando o presidente beijou a bandeira dos Estados Unidos, entre outros momentos constrangedores de servilismo explícito.

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Em nome do patriotismo, muitas atrocidades já foram cometidas no mundo. Hitler usava trecho do hino alemão para justificar massacres e extermínios. "A Alemanha acima de tudo". Logo, ser patriota não nos qualifica como pessoas de bem, para usar o termo largamente difundido nesses tempos. O importante é saber o que fazemos desse patriotismo. Que Pátria queremos ser?

Queremos ser o patriota que não permite que uma criança atravesse uma rodovia para fazer uma cirurgia nos olhos que, se atrasada, poderia deixá-la cega? Ou o patriota que, no meio da madrugada, aparece armado diante do prédio de um site de notícias disparando contra todos os vidros num atentado covarde? Queremos ser os patriotas dos grupos de neonazistas que pululam na internet e saltam dela para cometer crimes e violações de toda natureza?

Eu, particularmente, prefiro ser Richarlison. Fazer campanha pela vacina com a mesma vontade com que se faz um gol daqueles, voando alto na frente da trave. O Brasil tem mais a cara dele.

Fonte: Tatiana Farah Tatiana Farah é jornalista de política há mais de 20 anos. É repórter da Agência Brasília Alta Frequência. Foi gerente de comunicação da Abraji, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Repórter do BuzzFeed News no Brasil de 2016 a 2020.  Responsável por levar os segredos do Wikileaks para O Globo, onde trabalhou por 11 anos. Passou pela Veja, Folha de S. Paulo e outras redações, além de assessorias de imprensa. As opiniões da colunista não representam a visão do Terra. 
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