Quadrilha de uma favela vendeu 325 kg de crack em 6 meses
A Polícia Civil do Rio de Janeiro descobriu que apenas um complexo de favelas do Rio, em Manguinhos, movimentou 325 kg de crack nos últimos seis meses. A quantidade é oito vezes maior do que a quantidade de pedras apreendidas pela polícia no mesmo período - 40,780 kg de crack entre fevereiro e julho.
Entre cadernos e agendas encontrados pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), na casa de um traficante identificado como Rato, na Favela do Jacarezinho ¿ cuja quadrilha é aliada à de Manguinhos ¿, são mais de 700 folhas. Nelas, há registros detalhados do faturamento com o tráfico de drogas, compras e vendas de armas e munição e até planejamentos de crimes, como o mapa de um assalto a banco que estava sendo preparado para a uma agência de Vila Isabel.
O material gerou a instauração do inquérito número 285/2009. ¿Uma coisa leva a outra. Os documentos mostram que a quadrilha praticamente se sustenta com a venda de crack. A partir disso, eles arrecadam capital para a compra de material bélico e, com essas armas, praticam mais crimes, roubando bancos, carros e motos¿, afirma o delegado-adjunto da DRF, Marcelo Martins.
Os dados da contabilidade do crack de Manguinhos apresentam cifras impressionantes. Somente entre os dias 18 e 23 de fevereiro de 2008, a droga gerou um lucro de R$ 69,6 mil ao bando. Entre 11 e 18 de junho do mesmo ano, os valores aumentaram para R$ 155,5 mil. Segundo a polícia, Manguinhos e Jacarezinho, que eram entrepostos de cocaína e maconha para outras favelas dominadas pelo Comando Vermelho, passaram a ser também locais de fornecimento de crack.
No período de 17 de julho a 11 de agosto de 2008, as bocas de fumo das comunidades receberam cerca de 68 quilos. De 3 a 6 de dezembro, chegaram 71 quilos. E este ano, até julho, já foram pelo menos 325 quilos.
Até o início da década, quando o crack já tinha invadido as ruas de São Paulo, a polícia do Rio dizia que os traficantes cariocas não permitiriam a chegada da droga às suas bocas de fumo. O discurso era de que os bandidos temiam que as pedras destruíssem rapidamente sua fonte de renda: os consumidores. Essa ideia mudou logo depois.
"Várias favelas estavam falidas e passaram a vender. Logo as pessoas foram se viciando e os bandidos começaram a ganhar dinheiro. Para o traficante, o importante é lucrar. Ele não se importa se aquilo vai destruir a vida de alguém", afirma Marcus Vinícius Braga, da Delegacia de Combate às Drogas (Dcod).
Segundo as investigações, o crack se alastrou nas favelas ligadas ao Comando Vermelho (CV), mas já é negociado em áreas de todas as facções.
Faturamento de mais de R$ 40 mil por dia
Apelidado de 'Ronaldo' na contabilidade do tráfico, o crack proporciona lucros imensos aos traficantes de Manguinhos. Em apenas quatro dias ¿ cujas datas não estão registradas nos cadernos ¿, foram negociados R$ 156 mil.
Em 21 de janeiro, o faturamento com a droga, por exemplo, atingiu R$ 42,5 mil. Em 20 de fevereiro, foi de R$ 40 mil novamente. Segundo as anotações, o dia em que a venda de crack foi mais rentável foi 1º de junho, alcançando R$ 44 mil.
A contabilidade de Manguinhos indica o total do arsenal adquirido com dinheiro do crack só em fevereiro e maio: R$ 439.600. Anotações descrevem as altas quantias investidas, como R$ 60 mil em fuzis. Outros R$ 40 mil foram empregados em oito pistolas. As nove armas, cinco pistolas e quatro escopetas somaram R$ 180 mil.
Somente com munição para fuzil 5.56 foram gastos R$ 46.500 em 310 caixas. Foram comprados quatro fuzis: um por R$ 60 mil, outro por R$ 40 mil e dois por R$ 38 mil cada. Cinco carregadores de fuzil G3 ¿ que atinge o alvo a até dois quilômetros ¿ saíram por R$ 22.500. No total, foram gastos R$ 253.500.
As folhas traduzem o que pode ser visto pelas ruas adjacentes às favelas do Complexo de Manguinhos. Dormindo no meio do lixo ou perambulando pelas calçadas das cracolândias da região, há velhos, crianças, homens e mulheres ¿ algumas grávidas ¿, todos entregues à droga mais avassaladora e mais barata entre as encontradas nas bocas de fumo.
"O crack é uma droga devastadora e de tratamento bem mais complicado que as outras", afirma o psiquiatra Marcelo Migon, membro do Conselho Nacional Antidrogas.
Em 18 meses, o Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) analisou 54,100 quilos de crack. Em 2008, foram apreendidos 13,320 quilos de crack. Somente no primeiro semestre de 2009, esse número chegou a 40,780 quilos. Em um único mês deste ano, o de maio, foram apreendidos 14,870 quilos ¿ ou seja, mais crack do que em todo o ano passado.
Considerando um período de três meses (abril, maio e junho), o aumento de apreensões é significativo. Naquele trimestre de 2008 foi encontrado 1,570 quilo da droga, enquanto em 2009 foram 36,380 quilos, quantidade 2.318% maior numa comparação direta.