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O inferno da Daslu: como o palácio virou um palco "dantesco"

26 mar 2009 - 17h00
(atualizado em 27/3/2009 às 04h33)

Matheus Pessel


"Espetáculo dantesco". Antônio Cláudio Mariz de Oliveira, advogado da Daslu em 2005, definiu assim a Operação Narciso, desencadeada naquele ano e que resultou na prisão, por duas vezes, e na condenação a 94,5 anos em regime fechado para Eliana Tranchesi, dona da butique de luxo. Do palacete de R$ 200 milhões de seus sonhos, a empresária passou ao inferno em quatro anos. Eliana enfrentou tratamentos contra o câncer, protestos de diversos movimentos, acusações que vão desde falsificação de documentos a formação de quadrilha.

Dona da Daslu tem câncer nos ossos e pulmão:

A Daslu surgiu em 1958, fundada por Lucia Piva Albuquerque, mãe de Eliana Tranchesi. Nos anos 70, a filha assumiu os negócios da família e, em 2005, com custo estimado em R$ 200 milhões, foi inaugurado o novo prédio da empresa, que foi vendido em 2006 para a construtora WTorre em 2006, por R$ 385,8 milhões. Contudo, a Daslu continuou funcionando no lugar.

O que aconteceu entre maio e julho de 2005 poderia servir de presságio ao que viria nos anos seguintes. Em pouco mais de um mês, a grande loja de produtos de luxo sofreu com intoxicação de garçons durante uma festa, roubo de uma carga (por engano, os suspeitos declararam que procuravam o caminhão de outra empresa) e um protesto do Movimento dos Sem Universidade (MSU). O período ruim culminou com a prisão da própria Eliana, no dia 13 de julho de 2005, acusada de sonegação de impostos durante a Operação Narciso.

Cerca de 250 agentes da Polícia Federal (PF), em parceria com a Receita Federal e o Ministério Público (MP), realizaram uma varredura na loja de cerca de 20 mil m² e que custou R$ 200 milhões em investimentos para cumprir 35 mandados de busca e apreensão. Além de Eliana, foram presos na época o irmão da proprietária, Antonio Carlos Piva, e dois empresários.

Vestidos declarados por US$ 10 e vendido por R$ 5 mil
Segundo a PF, os produtos da Daslu tinham o preço subfaturado para reduzir a incidência do Imposto de Importação. A loja, que vende produtos de luxo, roupas de grife, eletroeletrônicos, barcos e até helicópteros, usaria também empresas fantasmas para fazer as importações. Segundo a PF, em um dos casos de preço adulterado, alguns vestidos declarados como tendo sido comprados por US$ 10 ou US$ 15 chegavam a ser vendidos por R$ 5 mil.

Presa, mas com "glamour"
No dia da prisão, Eliana declarou à polícia que cuidava apenas do "glamour" de sua loja e que quem era responsável pela área administrativa e contábil era o irmão, Antonio Carlos Piva. Dez horas mais tarde, com a decisão da juíza Maria Isabel do Prado, da 2ª Vara Federal de Guarulhos, Eliana Tranchesi deixou a prisão. O irmão, Antônio Carlos Piva, e o contador da loja, Celso de Lima, foram soltos cinco dias depois.

Sonegação, de novo
Em agosto de 2006, o juiz federal Villiam Bollmann, de Itajaí (SC), ordenou que uma carga avaliada em R$ 1,7 milhão, importada para a Daslu, fosse leiloada. Segundo o magistrado, a empresa que fez a intermediação não declarou que a carga era da loja, o que levou à sonegação de R$ 300 mil. Segundo a PF, que descobriu a carga, as etiquetas da importadora eram sobrepostas às da Daslu.

Irmão é preso, de novo
O irmão de Eliana, Antônio Carlos Piva, aquele que não cuidava do "glamour", foi novamente preso em junho. O diretor financeiro da loja foi acusado de importações ilegais. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), Piva continuou com a sonegação, mesmo após passar cinco dias na prisão em 2005.

Piva foi solto nove dias depois, devido a um habeas corpus. Contudo, o empresário voltou à carceragem da PF no dia 16 de agosto, após o habeas ser cassado. Pela terceira vez, o irmão de Eliana foi solto,em 7 de setembro após conseguir uma liminar no Tribunal Regional Federal da 3ª região.

O "glamour" falsificado
O MPF de Santa Catarina instaurou mais um processo contra os irmãos da Daslu em agosto. Dessa vez, a acusação era de falsificação de documentos para facilitar a entrada de produtos importados. Outras cinco pessoas foram denunciadas, todas donas de importadoras.

Um ano no purgatório: 2008
Nesse ano, os procuradores da República Matheus Baraldi Magnani e Luciana Sperb Duarte pediram as condenações da dona da Daslu, Eliana Tranchesi, de seu irmão, Antonio Carlos Piva de Albuquerque, diretor financeiro da empresa, e de mais cinco empresários donos de quatro importadoras: Celso de Lima (Mult Import), André Beukers (Kinsberg), Roberto Fakhouri Junior e Rodrigo Nardy Figueiredo (Todos os Santos) e Christian Polo (By Brasil).

Um ano no inferno: 2009
Se o ano anterior não foi bom para a Daslu, 2009 está sendo ainda pior. A Justiça Federal condenou, no dia 25 de março, Eliana Tranchesi e seu irmão a 94,5 anos de prisão cada um. O empresário Celso de Lima, da Mult Import, pegou 52 anos de prisão. Contudo, a legislação só permite que alguém passe, no máximo, 30 anos em regime fechado.

Outros empresários também foram condenados. André de Moira Deukers, condenado a 30 anos de prisão; Cristian Polo, condenado a 14 anos de prisão; Roberto Facury Jr. (que está no exterior), condenado a 11,5 anos de prisão; e Rodrigo Nardi Figueiredo, condenado a 11,6 anos. Ninguém pode recorrer em liberdade.

Fonte: Terra
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