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Polícia

Negociador: PM ouvia cativeiro com estetoscópio e copo na parede

14 fev 2012 - 19h58
(atualizado às 21h28)
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Marina Novaes
Vagner Magalhães
Direto de São Paulo

O policial militar Adriano Giovanini, do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), disse nesta terça-feira, durante o julgamento de Lindemberg Alves Fernandes, acusado de matar a estudante Eloá Pimentel, 15 anos, que um disparo ouvido de dentro do apartamento motivou a invasão da Polícia Militar no último dia do cárcere privado, em outubro de 2008. Giovanini admitiu que o Gate não possuía equipamentos avançados de escuta e que os policiais que monitoravam a situação de dentro do apartamento vizinho usavam copos de vidro e um estetoscópio médico para ouvir o que ocorria no cativeiro.

Carro que transporta o réu chega ao prédio do fórum
Carro que transporta o réu chega ao prédio do fórum
Foto: Mauro Horita / Terra

"Houve um disparo, e a equipe invadiu", afirmou o policial, que tratou com Lindemberg sobre a soltura de Eloá e da estudante Nayara Rodrigues desde a 23ª hora de negociação, substituindo o sargento da PM Atos Antônio Valeriano, que foi ouvido ontem no julgamento.

A declaração de Giovanini vai contra o que Nayara disse na segunda-feira, no Fórum de Santo André. Segundo ela, o réu não havia atirado contra as reféns antes da explosão da porta do apartamento da família de Eloá. Ela também foi baleada no rosto, mas sobreviveu ao ataque.

O negociador mencionou o disparo ouvido em pelo menos duas ocasiões do depoimento. "O Lindemberg fez uma despedida, pediu para que eu fosse embora de lá (do entorno do apartamento). (...) Nesse meio tempo, houve um disparo, e a equipe técnica decidiu pela invasão", afirmou.

A advogada Ana Lúcia Assad, que representa o réu, chegou a questionar se Giovanini considerava que a ação do Gate foi "correta", mas a juíza Milena Dias, a pedido da Promotoria, aceitou que ele não respondesse à pergunta por considerá-la um juízo de valor, e não um fato concreto.

Além da invasão da polícia no apartamento, PM foi questionado sobre o retorno de Nayara ao cárcere. Em mais de um momento, o negociador do Gate disse que Nayara não foi autorizada, nem orientada, a entrar no imóvel. Ele afirmou que a aproximação da jovem ao local foi uma condição que Lindemberg impôs para soltar a ex-namorada - o que ele não fez.

A defesa do réu questionou mais esses pontos pois trabalha com a tese de que a Polícia Militar não soube conduzir as negociações, o que contribuiu para que o acusado atirasse contra as vítimas.

O policial destacou que trabalha há 17 anos na corporação e que já atuou como negociador em mais de 50 casos com reféns. Ao todo, segundo Giovanini, foram mais de 3.400 reféns libertados - a conta inclui presos e pessoas feitas reféns durante rebeliões em prisões.

Frio e agressivo

O PM do Gate relatou que em nenhum momento em que o crime ocorria Lindemberg demonstrou desespero. Giovanini reforçou o que outras testemunhas disseram: que o réu era bastante agressivo e que havia agredido Eloá com tapas no rosto. "Ele a espancava muito", afirmou. Nesse momento, a mãe da vítima, Ana Cristina Pimentel, que assistia ao depoimento acompanhada do filho Douglas, ficou bastante emocionada e chorou.

"Ele não demonstrava medo. Ele era frio, falava muita gíria, linguajar de criminoso mesmo", afirmou Giovanini. "Não demonstrou desespero nenhum", completou o policial. Lindemberg assistiu ao depoimento sem algemas, mas escoltado por dois PMs. Ele permaneceu praticamente estático, sem esboçar reação durante a fala do policial.

Questionado pela juíza sobre o retorno de Nayara ao cativeiro, o que gerou muita polêmica na ocasião, Giovanini disse acreditar que ela devia sentir uma "amizade muito forte" por Eloá e que a amiga achava que era o melhor a fazer, embora tenha sido expressamente orientada pelo Gate a não se aproximar da porta do apartamento - Lindemberg havia exigido a presença da estudante como condição para se entregar, mas não respeitou o acordo.

"Ela deve ter achado que, daquela maneira, iria ajudar mais", avaliou. No Gate há 17 anos, Giovanini ressaltou que negociar a libertação de reféns em casos de crimes passionais é muito mais difícil que em outras situações. "A margem de negociação é muito menor, porque a pessoa já tem o que quer, que é a vítima."

Além do PM, prestaram depoimento hoje os dois irmãos de Eloá, Douglas e Ronickson; os peritos criminais Hélio Rodrigues Ramacciotti e Dairse Aparecida Pereira Lopes, da Polícia Civil; e o delegado Sérgio Luditza, do 6º Distrito Policial de Santo André, que investigou o caso na época. A mãe de Eloá havia sido convocada pela defesa, mas foi dispensada e não precisou depor.

O mais longo cárcere de SP

A estudante Eloá Pimentel, 15 anos, morreu em 18 de outubro de 2008, um dia após ser baleada na cabeça e na virilha dentro de seu apartamento, em Santo André, na Grande São Paulo. Os tiros foram disparados quando policiais invadiam o imóvel para tentar libertar a jovem, que passou 101 horas refém do ex-namorado Lindemberg Alves Fernandes. Foi o mais longo caso de cárcere privado no Estado de São Paulo.

Armado e inconformado com o fim do relacionamento, Lindemberg invadiu o local no dia 13 de outubro, rendendo Eloá e três colegas - Nayara Rodrigues da Silva, Victor Lopes de Campos e Iago Vieira de Oliveira. Os dois adolescentes logo foram libertados pelo acusado. Nayara, por sua vez, chegou a deixar o cativeiro no dia 14, mas retornou ao imóvel dois dias depois para tentar negociar com Lindemberg. Entretanto, ao se aproximar do ex-namorado de sua amiga, Nayara foi rendida e voltou a ser feita refém.

Mesmo com o aparente cansaço de Lindemberg, indicando uma possível rendição, no final da tarde no dia 17 a polícia invadiu o apartamento, supostamente após ouvir um disparo no interior do imóvel. Antes de ser dominado, segundo a polícia, Lindemberg teve tempo de atirar contra as reféns, matando Eloá e ferindo Nayara no rosto. A Justiça decidiu levá-lo a júri popular.

Fonte: Especial para Terra
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