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'Não estou nem aí, sou verdadeiro', diz delegado do caso Mércia

Antonio Olim acompanhou o júri nos estúdios do Terra e disse que não vai processar a defesa de Mizael, que fez acusações contra ele

14 mar 2013
15h58
atualizado às 16h26
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O delegado responsável pela investigação do assassinato de Mércia Nakashima, ocorrido em maio de 2010, acompanhou nesta quinta-feira o debate entre a defesa do réu, Mizael Bispo de Souza, e da acusação nos estúdios do Terra, em São Paulo, e falou com exclusividade. Antonio Olim foi uma das testemunhas arroladas e prestou depoimento na última quarta-feira no Fórum de Guarulhos. Ele foi acusado pela defesa do réu de plantar provas na cena do crime, fazer uma perseguição pessoal a Mizael e torturar o vigia Evandro Bezerra Silva (co-réu) e o suspeito para obter confissões. Olim afirmou que não vai processar os advogados do réu, apesar das críticas.

Veja detalhes do caso Mércia 
Veja como funciona o tribunal do júri

<p>Antonio Olim prestou depoimento no Fórum de Guarulhos e forneceu detalhes da investigação da morte de Mércia</p>
Antonio Olim prestou depoimento no Fórum de Guarulhos e forneceu detalhes da investigação da morte de Mércia
Foto: Fernando Borges / Terra

"Esse advogado (Ivon Ribeiro) aprontou muitas comigo, mas eu não estou nem aí. Eu sou muito verdadeiro, fiz minha parte, o que eu falei é a realidade. Eu estou tranquilo. Não vou processá-lo. Ele esperava um delegado que chegasse lá e não soubesse nada do caso, mas eu sei mais do inquérito do que ele, porque eu que o fiz. O Mizael vai pagar pelo que fez, por esse assassinato, essa crueldade, ela morreu afogada e sofreu duas vezes", disse Olim. 

"Eu sou profissional, não tenho nada contra o Mizael. Eu investiguei apenas o assassinato. (...) O desespero chegou para a defesa, porque eles não têm como tirar o Mizael da cadeia. Ele vai pegar a pena máxima. Ele atacou a mim, a minha instituição, o Ministério Público. O que ele tem para falar do Mizael? As nossas provas são tão fortes que ele não tem como contestar", completou. 

Provas plantadas
O delegado comentou também sobre as provas supostamente plantadas pela Polícia Civil, conforme os advogados afirmaram no julgamento, e disse que a perícia "foi a fundo e chegou aonde chegou". 

"O veículo foi localizado pelos bombeiros, ninguém pode mudar nada. Os bombeiros disseram que se o carro tivesse sido jogado mais à direita, teria caído numa profundidade difícil de localizar. O sapato era dele (Mizael) e foi lavado. A perícia fez vários laudos explicando, o sapato era o que ele usava. (...) A gente pegou até blusas e jaquetas para saber se havia provas de pólvora. Investigação é isso, a perícia foi a fundo e chegou aonde chegou. Não adianta, não há crime perfeito. Felizmente, nós localizamos graças a ele (Mizael)", afirmou.

"Acho que ele pega pena máxima. Se ele pegar 26 anos, fico bem satisfeito. (...) Interessa é que seja feita a justiça. Que prevaleça a justiça e a verdade", concluiu o delegado. Durante sua fala ontem, Mizael havia acusado o delegado de incriminá-lo para se "promover" às suas custas. "Infelizmente, o caso caiu no DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e na mão do delegado Antonio de Olim. (...) Criaram uma situação para jogar pra cima de mim, por causa de um problema pessoal do delegado (com ele), que inclusive é candidato a deputado estadual no ano que vem", disse. 

Mizael diz sobre acusações: "é problema pessoal do delegado"

"Eles não queriam o autor do crime, eles queriam um culpado. E isso eles conseguiram. Mas Deus está no céu e eu tenho certeza que eu vou ser julgado aqui pela razão, pelos fatos", afirmou Mizael, que disse ainda ter sido pressionado pela Polícia Civil para confessar o assassinato, o que ele nunca fez. "(Policiais) Ficaram meia hora me pressionando para dizer que eu tinha matado Mércia", complementou, alegando ainda que sua família fez uma denúncia à Corregedoria da Polícia Civil, para investigar a suposta tortura.

Segundo Olim, policiais do DHPP abordaram Mizael por acreditar que o suspeito estava com sua prisão decretada pelo delegado, o que não havia ocorrido. De acordo com ele, o próprio Mizael o telefonou e contou o ocorrido. Os policiais então foram dispensados. 

Para Olim, Mizael tenta agora tirar proveito da situação, ao afirmar que foi pressionado pelos policiais na ocasião.

Depoimento no júri
No seu depoimento, Olim disse não ter dúvidas de que Mizael, policial militar reformado e advogado, matou a ex-namorada, em 23 de maio de 2010. "Eu não tenho dúvida nenhuma que o Mizael matou a Mércia", afirmou o delegado, ao ser indagado pela acusação sobre a conclusão do inquérito. "Essa investigação foi toda técnica", completou. 

Durante três horas, o delegado respondeu às perguntas do promotor Rodrigo Merli, responsável pela acusação, detalhando a ligação entre Mizael e o vigilante Evandro Bezerra Silva, acusado de ter sido cúmplice do crime e tê-lo ajudado na fuga. Ainda de acordo com Olim, o ex-PM e o vigia passaram o dia do crime no "encalço" da vítima, se falaram 16 vezes por telefone, e rodearam a região da casa dos avós de Mércia, onde ela foi vista pela última vez antes de morrer.

Segundo Olim, Mizael planejou com antecedência a morte de Mércia, com quem namorou por cerca de quatro anos, e contou a ajuda de Evandro para colocar seu plano em ação. O delegado ainda negou que o vigilante, acusado de ter ajudado Mizael, tenha sofrido qualquer tipo de tortura para confessar a participação - o vigia confirmou ter buscado o ex-PM em Nazaré Paulista (interior de São Paulo), onde o corpo da advogada foi encontrado em uma represa, mas sempre negou participação no crime.

O caso Mércia
A advogada Mércia Nakashima, 28 anos, desapareceu no dia 23 de maio de 2010, após deixar a casa dos avós em Guarulhos (Grande São Paulo), e foi encontrada morta no dia 11 de junho, em uma represa em Nazaré Paulista, no interior de São Paulo. A perícia apontou que ela levou um tiro no rosto, um tiro no braço esquerdo e outro na mão direita,  mas morreu por afogamento quando seu carro foi empurrado para a água.

O ex-namorado de Mércia, o policial militar reformado e advogado Mizael Bispo de Souza, 43 anos, foi apontado como principal suspeito pelo crime e denunciado por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, emprego de meio cruel e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. De acordo com a investigação, Mércia namorou durante cerca de quatro anos com Mizael, que não se conformava com o fim do relacionamento amoroso. A Promotoria também denunciou o vigia Evandro Bezerra Silva, que teria o ajudado a fugir do local, mas seu julgamento ocorrerá separadamente, em julho deste ano.

Preso em Sergipe dias depois da morte de Mércia, Evandro afirmou ter ajudado Mizael a fugir, mas alegou posteriormente que foi obrigado a confessar a participação no crime, sob tortura. Entretanto, rastreamento de chamadas telefônicas feito pela polícia com autorização da Justiça colocaram os dois na cena do crime, de acordo com as investigações. Outra prova que será usada pela promotoria é um laudo pericial de um sapato de Mizael, no qual foram encontrados vestígio de sangue, partículas ósseas, vestígios do projétil da arma de fogo e uma alga típica de áreas de represa. 

Advogado de Mizael chama testemunha de "fanfarrão"

Mizael teve sua prisão decretada pela Justiça em dezembro de 2010, mas se escondeu após considerar a prisão "arbitrária e injusta", ficando foragido por mais de um ano. Em fevereiro de 2012, porém, ele se entregou à Justiça de Guarulhos e, desde então, aguardava ao julgamento no Presídio Militar de Romão Gomes - enquanto o vigia permanece preso na Penitenciária de Tremembé. Mizael nega ter assassinado Mércia e disse, na ocasião, que a tratava como "uma rainha". Já o vigia afirmou, em depoimento, que não sabia das intenções do advogado e que apenas lhe deu uma carona. Se condenados, eles podem ficar presos por até 30 anos.

Fonte: Terra

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