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Polícia

“Exilado” desde 95, sociólogo sonha retomar projeto social em Vigário Geral

Caio Ferraz critica a falta de mobilização da sociedade e questiona a dificuldade em se conseguir um financiamento para retomar o projeto

29 ago 2013 - 11h46
(atualizado às 11h46)
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Sociólogo Caio Ferraz fundou a ONG Casa da Paz, mas teve de sair do País depois de sofrer ameaças de morte
Sociólogo Caio Ferraz fundou a ONG Casa da Paz, mas teve de sair do País depois de sofrer ameaças de morte
Foto: Cirilo Junior / Terra

O sociólogo Caio Ferraz foi uma das principais vozes que emergiram após a Chacina de Vigário Geral. Nascido e criado na favela, ele criou a ONG Casa da Paz, a primeira a se instalar na comunidade, em 1994, ainda sob o impacto do bárbaro crime que matou 21 pessoas. A ONG ficava justamente na casa onde oito membros de uma mesma família foram executados. Nos primeiros anos, os trabalhos da Casa da Paz eram extremamente bem sucedidos, mas Ferraz não estava tranquilo. Polêmico, vinha sofrendo seguidas ameaças de morte, e teve que deixar o país em 1995. “Fui o primeiro exilado político após a ditadura”, comenta.

<a data-cke-saved-href="http://noticias.terra.com.br/brasil/infograficos/vigario-geral/" href="http://noticias.terra.com.br/brasil/infograficos/vigario-geral/">Vigário Geral, 20 anos </a>

A Casa da Paz ainda se manteve por alguns anos, até encerrar as atividades no início da década passada. O local foi utilizado pela ONG Onda Azul até cerca de três anos atrás. Atualmente, sem qualquer atividade, o imóvel é mantido por familiares de mortos na chacina. Ferraz esteve em Vigário Geral no início dessa semana, em entrevista ao Terra, revelou que, mesmo à distância, já se programa para tentar articular a volta da Casa da Paz.

Ferraz critica a falta de mobilização da sociedade brasileira e questiona a dificuldade em se conseguir um financiamento para retomar o projeto. Ele cobra apoio governamental, lembrando que o Afroreggae, ONG que também atua em favelas, recebe verbas polpudas dos governos. Recentemente, o grupo liderado por José Junior, que alega estar recebendo ameaças de traficantes, recebeu R$ 3,5 milhões da prefeitura do Rio.

“Um cara só recebe R$ 3,5 milhões. Ou seja, não somos iguais perante a lei. A lei é feita para quem é amigo do rei. Se não sou amigo do rei, se não bebo com o Cabral e com o Eduardo Paes, se não jogo bola com eles, se não ando de helicóptero com eles, não sou amigo deles”. Veja a seguir os principais trechos da entrevista: 

Terra - Como surgiu a Casa da Paz?

Caio Ferraz - Vigário Geral era e é uma favela até o dia 28 de agosto de 1993 ignorada pela sociedade brasileira. E a partir do dia 29, entrou no mapa do mundo. De uma forma trágica e dolorosa. Era nascido e criado em Vigário Geral, tinha uma atividade social aqui, era sociólogo e poeta já, e abracei a causa. Até porque poderia ter me atingido, já que meu cunhado e meu irmão não morreram por pouco. Não consigo ficar indignado e ficar nas palavras. Passo para a ação.

Muitos dos mortos eram meus amigos. Daí, comecei a fazer a ponte com a sociedade, e convidar outros projetos. Entre eles, o Afroreggae. Convidei o Junior para vir a Vigário. Conseguimos pacificar Vigário e Parada de Lucas, sem UPP, sem intervenção do Estado. Foram muitos anos sem tiroteio, em 94 e 95. No meio de 95, comecei a ser ameaçado de morte, até pelas polêmicas que eu criava. Eu colocava a cara na frente, e infelizmente, fui mal compreendido. Tive que deixar o Brasil com ajuda da Anistia Internacional. Fui o primeiro exilado político do país após a ditadura.

Terra - Como tem sido sua vida no exterior? Você saiu sob ameaças de morte do país. Chegou a receber alguma assistência do governo brasileiro?

Caio Ferraz - Me sinto até abandonado. Tem um monte de gente da época da ditadura que recebeu indenização. Eu sou exilado, nunca me procuraram para dar indenização, para dar nada. Eu perdi o melhor da minha vida política, da minha vida intelectual. Estava extremamente engajado, tive que sair do meu país, tive que me virar entregando pizza, lavando banheiro, pintando casa. Sou uma pessoas guerreira, criativa, e consegui driblar o sistema americano, até porque eu sempre fui empreendedor. No curso normal da minha vida, não iria para o Estados Unidos, não iria nem para a Disney, nem para ver a Minnie e nem o Pateta. Mas me adaptei razoavelmente ao país, passei a entender que a lógica do governo é uma coisa, e a do povo é outra. E tinha que viver lá, não tinha outro jeito, tinha que ficar fora do Brasil.

Aos poucos, tenho me reaproximado do Brasil, até porque você sente um esvaziamento cultural e político. Mesmo que ganhe dinheiro, você se pergunta do que adianta ficar por lá. Não é só o frio do clima, é o frio da própria cultura. Por mais que fale inglês, que se adapte, não adianta, eu não sou americano.

Terra - A casa onde a ONG funcionava está em boas condições, mas não há atividades. Pensa em retomar o projeto em algum momento?

Ferraz - Cheguei aqui agora na casa e percebi que o necessário é uma reforma básica. Mas só reformar não basta. Tem que recuperar a casa, e garantir recursos para, no mínimo, de cinco a dez anos de projetos. Não adianta garantir o recurso de R$ 100 mil, R$ 200 mil para um ano. Um ano passa rápido. O projeto tem que ser de dez anos, com garantias de empresas. O país é rico, a mentalidade do empresário brasileiro que é pobre. Mas penso sim, em tentar correr atrás para que esses recursos sejam viabilizados. Mas não ficaria à frente, já que moro nos Estados Unidos.

Terra - Falta consciência política e mobilização para a sociedade brasileira?

Ferraz - Estava nos Estados Unidos quando as duas bombas explodiram na maratona de Boston. Logo em seguida, a própria sociedade americana se mobilizou. Essa é a cultura americana, por isso que dá certo. Empresários, artistas, jogadores se reuniram e levantaram, em menos de um mês US$ 100 milhões. Veja se a sociedade brasileira consegue fazer isso? Tem que ficar passando pires, pedir esmola. Justiça não é o fato de meia dúzia de pessoas, dez pessoas, ou cinquenta pessoas serem condenadas. A justiça é um processo global, justiça se faz com vários fatores. Que as famílias sejam indenizadas, que o Estado seja condenado, e a educação, a cultura, o lazer e o esporte, a atuação da sociedade civil transforme essa comunidade em uma comunidade ativa, cidadã. Se não existir isso, a sociedade vai continuar dividida.

Terra - Isso ajudaria a minimizar a cidade partida, unir asfalto e favela?

Ferraz - Primeiro que ela não é partida. Para que alguma coisa seja dividida, é que um dia ela foi inteira. E não foi. Fomos criados divididos em capitanias hereditárias, e vivemos até hoje esse processo de divisão. Quem ganha com a violação da vida? O judiciário. São os advogados, juízes, é o sistema judiciário. Quem ganha com o trafico? É o traficante? Não. Ele morre cedo, ou vai para a cadeia. Cadê o Beira-Mar agora? Cadê o Elias Maluco? Está todo mundo preso. O que é o Comando Vermelho? O que é traficante? Isso é o Estado que realmente mantém essa situação de opressão, porque quanto mais mata pobre, preto e puta, mais tranquila é a sociedade. Só que uma hora volta contra eles mesmos. Tem gente que tem R$ 20 bilhões, e não pode doar um dinheiro para ajudar um projeto simples. Essa comunidade merece ser transformada em símbolo de resistência, de luta. A intenção era essa, há 20 anos. Aí chego aqui, 20 anos depois, e vejo uma situação dessa, lógico, dói o coração.

Terra - Ao retornar a Vigário e comparar com 20 anos atrás, o que mais mudou? Ou nada mudou?

Ferraz - Não posso ser hipócrita e dizer que não mudou, até porque, com todos os contratempos do Afroreggae, é melhor ter Afroreggae do que ter tiroteio. É melhor ter o tambor batendo do que ter gente oprimida. Nem acho o Afroreggae um projeto equivocado. É equivocado na forma de intervenção com a comunidade. É um processo interno deles. Para mim, para a minha estética cultural, de valor, não serviria. Não quero criar ninguém para ser meu filho o resto da vida. Quando você tem um filho, você quer que ele seja independente. Quero dar o melhor, não quero dar o básico. Hoje tem o Afroreggae, tem médicos, tem asfalto, há uma melhoria, de forma geral, na comunidade. Só que ainda existe o sentimento de abandono. Primeiro, no momento em que aconteceu a chacina, o Estado, deveria indenizar as famílias e garantir. Essas mulheres foram vítimas duas vezes: uma, porque perderam seus maridos, e também porque criaram seus filhos sem recurso nenhum. Como a base das famílias era nos maridos, e eles morreram, houve uma lacuna. Então, a sociedade deveria ter garantido pelo menos 3, 4 ou 5 salários-mínimos, imediatamente, e de forma vitalícia.

Terra - Como é voltar ao imóvel onde a Casa da Paz funcionou e não ter nenhuma atividade?

Ferraz - Cheguei aqui agora e fiquei indignado. É triste perceber como a sociedade brasileira tem uma memória tão curta e não  consegue se indignar. Parar e ver o que falta para continuar esse projeto. O Afroreggae ganhou R$ 3,5 milhões da secretaria municipal de Cultura, porque levou tiro lá no (Complexo do) Alemão. R$ 3,5 milhões! Isso aqui precisa de quanto? Menos da metade. R$ 3,5 milhões aqui, senhor Eduardo Paes, faria diferença na vida das vítimas, na vida da própria comunidade. Esse aqui é o único espaço reconhecido pela comunidade como legítimo. Isso aqui foi criado aqui dentro, é questão simbólica, ele faz uma diferença muito grande.

Terra - Por quê um projeto que não é tão caro não consegue financiamento?

Ferraz - Até agora não entendi porque o ministério da Justiça, a secretaria de Direitos Humanos, os órgão oficiais não transformaram isso aqui num ponto de cultura. O que falta para fazer um negócio desses? Não temos sentimento de pertencimento. Isso aqui não pertence à sociedade brasileira. Deveria ser um museu, como na Alemanha tem um museu do Holocausto, como em Portugal tem sobre a Revolução dos Cravos, como em todos os lugares têm. O Brasil não preserva. Isso aqui é a história da negação da vida no Brasil. Isso aqui é a história da negação do direito. Quando se fala que todos somos iguais perante a lei, pergunto, que lei?  Se eu não lei, se eu não escrevo a lei. Se eu não lei, não vou conseguir escrever, nem interpretar isso. É muito blá-blá-blá para pouca ação.

Como a secretaria de Cultura tem coragem de colocar R$ 3,5 milhões num projeto só, enquanto a música e o circo do Rio de Janeiro só tem R$ 4 milhões por ano. Um cara só recebe R$ 3,5 milhões. Ou seja, não somos iguais perante a lei. A lei é feita para quem é amigo do rei. Se não sou amigo do rei, se não bebo com o Cabral e com o Eduardo Paes, se não jogo bola com eles, se não ando de helicóptero com eles, não sou amigo deles. Aí não sou cidadão brasileiro. Falo isso pelas famílias, não falo por mim. Graças a Deus trabalho, ganho meu dinheiro, tenho minha dignidade, sempre batalhei por isso.

Fonte: Terra
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