Contador nega desvios de dinheiro em empresa do pai de Gil Rugai
Funcionário admitiu que não controlava contas pessoais e que adulteração de cheques era de "praxe"
O contador Edson Tadeu de Moura, que trabalhava na produtora de Luiz Carlos Rugai, disse nesta quarta-feira, durante o terceiro dia do julgamento de Gil Rugai, que nunca soube da existência de desvios de dinheiro da empresa. Durante depoimento de cerca de 50 minutos, a testemunha admitiu, no entanto, que não tinha acesso às movimentações financeiras na conta pessoal da vítima, e revelou que era uma "praxe" que outros funcionários adulterassem, com consentimento, assinaturas dos chefes para sacar cheques.
O publicitário e ex-seminarista Gil Rugai, 29 anos, é acusado de ter matado o pai, Luiz Carlos, 40 anos, e a madrasta, Alessandra de Fátima Troitiño, 33 anos. O casal foi morto a tiros na casa onde moravam, em um bairro nobre da zona oeste de São Paulo, em 28 de março de 2004. De acordo com a acusação, o crime ocorreu após Luiz Carlos ter descoberto que estava sendo roubado pelo filho.
"Para nós, não houve (desvios de recursos na empresa)", disse Moura, ao ser questionado sobre problemas na contabilidade da empresa. Segundo ele, seria possível detectar o suposto rombo fazendo uma perícia contábil - o que a Polícia Civil admitiu não ter feito na época do crime.
Ainda segundo o contador, Gil Rugai tinha total acesso às contas pessoais do pai, pois era "filho do dono" da empresa, mas disse que o réu não trabalhava mais na companhia na época em que os assassinatos ocorreram. "O filho do dono é o que manda na estrutura de uma empresa familiar", explicou.
Entretanto, ao ser questionado pelo promotor Rogério Leão Zagallo, responsável pela acusação, se era possível que Gil tivesse copiado a assinatura do pai para sacar cheques - que é uma das principais alegações da polícia contra o réu -, o contador respondeu afirmativamente. "É quase uma praxe (outros funcionários adulterarem, com consentimento, a assinatura dos chefes para assinar cheques)."
Embora tenha afirmado desconhecer uma movimentação de R$ 200 mil feita na conta pessoal de Luiz Carlos, o contador disse ainda que era "possível" que Gil tenha feito essa operação, pois era ele "quem tomava conta" das finanças do pai. Ele ressaltou, porém, que a equipe contábil da empresa não tinha "condições" de acompanhar essas transações.
"A gente não tinha o poder de controlar (os cheques de Luiz Carlos)", afirmou. Sobre os R$ 200 mil que foram de uma conta pessoal de Luiz Carlos para um investimento, Moura disse que "provavelmente foi uma movimentação na conta pessoal.
O promotor demonstrou satisfação com a resposta e disse, ao encerrar suas perguntas, que o crime teria justamente ocorrido a "conta-gotas". "Era aí que eu queria chegar: a questão da causa da morte foram os desfalques a conta gotas (e não uma fraude na empresa)", afirmou Zagallo.
O jornalista Valmir Salaro, da TV Globo, foi a terceira testemunha a ser ouvida nesta quarta-feira - terceiro dia do julgamento. Durante uma hora, o repórter, que trabalhou no caso na época, respondeu às perguntas da defesa sobre uma reportagem, veiculada no Fantástico, que dizia que policiais civis seriam investigados por um suposto envolvimento com um atentado à guarita do vigia Domingos Ramos Oliveira Andrade - testemunha pricipal do caso, que disse ter visto Gil Rugai deixando a casa após os crimes.
Com o depoimento de Salaro, a defesa insistiu na tese, que tenta comprovar, de que houve falhas na investigação policial que incriminou o réu. A promotoria, no entanto, apresentou um documento afirmando que a investigação contra a polícia foi arquivada. Outro contador que seria ouvido como testemunha de defesa, José Eugênio Moura, irmão de Edson, foi dispensado pelos advogados de Gil Rugai e não irá mais depor. Outras nove pessoas ainda devem ser ouvidas nesta quarta-feira, no Fórum Criminal da Barra Funda.