Defesa pressiona delegado sobre falhas em investigação contra Gil Rugai
Em depoimento de seis horas, policial insistiu "ter certeza" da autoria do crime
As perguntas feitas pela defesa do publicitário e ex-seminarista Gil Rugai, 29 anos, acusado de ter matado o pai e a madrasta dele, dominaram o depoimento do delegado da Polícia Civil Rodolfo Chiareli, que comandou a investigação sobre as mortes de Luiz Carlos Rugai, 40 anos, e Alessandra de Fátima Troitiño, 33 anos. Durante quase seis horas, o policial teve de responder aos questionamentos dos advogados sobre as suspostas falhas cometidas durante o inquérito, principalmente referentes à ausência de laudos periciais que ajudariam a explicar o motivo do crime e, por consequência, apontar a autoria. Chiareli foi a segunda testemunha ouvida nesta terça-feira - segundo dia do julgamento do caso, que acontece desde a segunda no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
Questionado pela defesa, o delegado admitiu não ter sido feita uma perícia contábil na empresa de Luiz Carlos para apurar quanto foi desviado da produtora por Gil Rugai - o que é apontado pela acusação como o principal motivo do crime, já que o ex-seminarista teria roubado dinheiro do pai. Chiareli respondeu, então, que não considerou necessária a realização da perícia, pois havia comprovado os desvios, relatados por testemunhas, após ter encontrado cheques fraudados pelo réu, que admitiu saber falsificar a assinatura do pai.
"O senhor quer me dizer então que o Gil matou o pai por causa de cheques que, somados, não chegam a R$ 5 mil?", questionou o advogado Marcelo Feller, um dos defensores do réu.
A defesa também questionou por que a Polícia Civil não confiscou as imagens do circuito interno de segurança de um shopping da capital paulista, onde Gil Rugai alega que estava no momento em que o pai e a madrasta foram mortos. O delegado respondeu que foi informado de que as imagens já haviam sido deletadas, mas a defesa insistiu que havia tecnologia, já naquela época, capaz de recuperar os vídeos deletados.
Os advogados também questionaram se a polícia não estranhou o fato de a TV da casa ter sido encontrada ligada, mas fora de sintonia. Isso porque a defesa insiste em tentar apontar que as vítimas podem ter sido assassinadas pois tinham um vídeo que incriminaria alguém - o suspeito ainda não foi revelado - de ter ligação com tráfico de drogas. O delegado afirmou, porém, que não considerou o fato de a TV estar fora do ar relevante.
Por fim, o delegado também foi questionado, desta vez pelos jurados (que têm direito a inquerir as testemunhas, desde que por escrito), se foi feito algum exame no interruptor de um dos cômodos da casa para verificar se, de fato, as digitais encontradas eram de Gil Rugai - já que a polícia sustenta que apenas alguém que convivia no local poderia ter acendido e apagado a luz do cômodo. Ele negou.
Certeza da autoria
Apesar da insistência da defesa em apontar as falhas da investigação policial - somente os advogados de Rugai questionaram o delegado por quase quatro horas -, Chiarelli insistiu não ter dúvidas de que Gil Rugai é o assassino.
"Eu tenho certeza que foi ele", afirmou, lembrando que foram ouvidas mais de 100 testemunhas, que foram quebrados sigilos telefônicos e que inúmeras perícias foram realizadas, mas insistindo que "nenhum elemento" apontou a existência de qualquer outra possibilidade senão a de que Gil Rugai foi o autor dos crimes. "Todos os elementos levaram ao Gil Rugai", afirmou.
Para o delegado, além da motivação e dos relatos das testemunhas, o fato de a arma do crime ter sido encontrada por um zelador do prédio onde Gil Rugai havia montado um escritório quase um ano depois das mortes é um dos principais indícios contra o acusado.
"Todos os disparos partiram de uma mesma arma, que era essa encontrada na caixa fluvial do prédio (do escritório do Gil Rugai), por um acaso", completou o policial.
Além do delegado, a Justiça ouviu hoje um instrutor de voo, que dava aulas para Luiz Carlos, que relatou que a vítima havia lhe contado que tinha brigado com o filho, a quem se referiu como "um menino perigoso". Outras 10 pessoas ainda precisam ser ouvidas durante o julgamento de Gil Rugai, que deve terminar até o fim desta semana.
Segundo dia de julgamento tem 12 horas de trabalhos
O depoimento do delegado foi o ponto alto do segundo dia do julgamento de Gil Rugai, marcado por troca de farpas entre acusação e defesa. Segundo o advogado Marcelo Feller, que defende Rugai, a oitiva do delegado foi favorável a seu cliente, por demonstrar que a polícia desde o começo insistiu apenas em uma linha de investigação. "Ficou claro que o delegado fechou os seus olhos para qualquer outra possibilidade que não fosse o Gil Rugai", afirmou Feller.
Após o depoimento de Rodolfo Chiareli, foi a vez do perito Alberí Espindula falar. Apesar de não ter participado das investigações, Espindula foi convidado pela defesa de Rugai para analisar algumas imagens da cena do crime. Questionado sobre a possibilidade de que o casal poderia ter sido assassinado por outra pessoa que não Rugai, o perito atestou: "quando a gente fala em perícia, temos de cogitar todas as hipóteses". Após cerca de uma hora e quinze de questionamentos, o julgamento foi suspenso às 21h15.
O promotor Rogério Leão Zagallo minimizou as falhas periciais apontadas pela defesa e opinou que o depoimento do delegado foi "muito favorável" à acusação. "O delegado em nenhum momento teve dúvidas da autoria. Eles sempre souberam que foi o Gil Rugai", argumentou.
Na quarta-feira, devem ser ouvidas outras nove testemunhas, sendo oito de defesa e uma de juízo. Nos dois primeiros dias de julgamento, foram ouvidas apenas seis testemunhas. Entre as pessoas que podem depor amanhã está Léo Rugai, irmão do réu. Na quinta-feira, deve ser realizado o interrogatório de Gil Rugai. A expectativa é de que o julgamento termine até sexta-feira.
O advogado Marcelo Feller voltou a afirmar que a defesa de Gil Rugai pretende identificar um suspeito que pode provocar uma reviravolta no caso. "Até o fim do julgamento nós vamos apresentar nome, sobrenome, endereço e todas as informações sobre um possível suspeito, e ele não está morto", garantiu.