Mulher acusa médico de ter tirado seu útero por engano
Márcio Leijoto
Direto de Goiânia
Há três meses, a doméstica desempregada Cícera Moreira da Silva, 47 anos, se internou no Hospital Santa Lúcia, no Setor Campinas, em Goiânia, para fazer uma perineoplastia. Ela sofria de um problema de incontinência urinária e conseguiu o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Duas horas após a cirurgia, ela voltou para o quarto sem o útero. Desde então, ela já procurou a polícia civil e o Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego), mas não obteve até agora muitos avanços na sua batalha para responsabilizar o médico e o hospital pelo erro.
"Imagine uma mulher ficar sem o útero. Eu não tinha câncer, não tinha nódulos, não tinha nada. Não havia nenhum motivo para tirá-lo. Agora passo minha vida impaciente, nervosa, sem menstruar, como se estivesse numa TPM que nunca acaba, dependendo de antibióticos e de hormônios", disse Cícera.
Quem percebeu o erro foi a irmã de Cícera, logo após a cirurgia, quando viu a cicatriz na barriga. "Como a perineoplastia é feita na região da vagina, a irmã não entendeu quando viu uma cicatriz na barriga", disse o advogado de Cícera, Rosicler Chimango Costa.
Quando o médico foi ver a paciente no quarto do hospital, a irmã o questionou sobre o que havia feito. "Ele disse que a cirurgia foi um sucesso e que a Francisca estava ótima. 'Mas minha irmã se chama Cícera e era para ter sido uma perineoplastia', ela disse. Aí o médico fez uma cara de susto e ficou sem reação", afirmou a doméstica.
Ainda segundo Cícera, o médico admitiu o erro, disse que era "filho de Deus" e que "se fosse mau caráter iria falsificar as papeladas". "Mas ele fez eu fazer a cirurgia certa no mesmo dia, ainda anestesiada, sem nem esperar eu me recuperar. Ele e minha irmã discutiram, mas aí ele a convenceu. Eu só exigi que ela, como é técnica de enfermagem, pudesse acompanhar. Mas eu podia ter morrido. Ninguém faz duas cirurgias de risco assim em tão pouco tempo", disse.
Sem amparo
Desde então, Cícera não obteve nenhuma assistência do hospital ou do médico. A única coisa que eles cederam foi um apartamento no estabelecimento para que ela se recuperasse sem risco de infecção. "Depois eles só pressionaram minha cliente para que a gente não divulgasse isso na imprensa porque ia acabar com a reputação deles", disse Rosicler.
Mãe de três filhos - de 16, 24 e 28 anos - e casada há oito anos, Cícera diz que, além de sofrer por ter perdido uma parte de si que estava saudável, enfrenta as consequências psicológicas pelo erro. "Eu estou bastante debilitada. Fisicamente, graças a Deus, não estou mal. Mas sinto que fico muito mais nervosa e impaciente, me sinto fraca, choro quando lembro que tiraram meu útero sendo que ele estava saudável", disse.
Assim que saiu do hospital, Cícera foi orientada pela família a procurar um advogado e, com ele, registrou primeiro uma queixa na Delegacia Estadual de Atendimento à Mulher (Deam) e, um mês depois, denunciou o médico e o hospital no Cremego. Uma ultrassonografia comprovou a retirada do útero, mas pouco foi feito desde então.
Uma greve na polícia civil atrasou o inquérito. O médico deve prestar depoimento apenas na próxima semana, assim como o anestesista. Uma intimação foi encaminhada ao hospital dias atrás.
Entretanto, a advogada do médico, Luciana Luiza de Castro, disse que seu cliente só foi informado sobre o processo no Cremego. "Até agora, ele não recebeu nenhuma intimação por parte da polícia." Caso a polícia o responsabilize pelo erro, o médico pode ser indiciado por lesão corporal culposa e negligência médica.
No Cremego, um conselheiro responsável pela pré-sindicância tem até o dia 17 de setembro para apresentar um relatório. O prazo é contado a partir do momento em que o médico e o hospital apresentaram suas defesas, o que ocorreu na última terça-feira. A partir do que o conselheiro concluir, três caminhos podem ser adotados: o arquivamento da denúncia, a instauração de processo ético ou um acordo entre as partes. A assessoria de imprensa do Cremego informou que o órgão é proibido pela legistação de fornecer mais detalhes sobre o processo.
Outra açãoO advogado de Cícera informou ainda que ela pretende ingressar na Justiça com uma ação por danos morais, onde então será pedida uma indenização. "Ela teve de se virar sozinha depois, até na compra dos antibióticos que teve de tomar por causa da cirurgia errada. E agora vai precisar de um tratamento de hormônios", disse Rosicler.
A advogada do médico disse que só poderia dizer que o fato não ocorreu como a doméstica relatou, mas que não tinha como explicar essa afirmação porque o processo corre em sigilo no Cremego. "Nem eu nem meu cliente podemos nos manifestar sobre isso. Só posso dizer que não é do jeito que ela tem dito e que vamos tomar as providências legais contra ela por causa destas afirmações", disse.
A direção do hospital foi procurada duas vezes pelo Terra, na sexta-feira. Em ambos os casos, dois atendentes diferentes disseram que não havia como localizar ninguém da direção do hospital, pois o diretor estaria viajando e seu substituto, de licença médica.