Família aplica golpe de 'ritual de purificação' e faz mulher perder R$ 250 mil em SP
Vítima só percebeu crime após 'tratamento espiritual' contra depressão não surtir efeito
Mulher de 54 anos perdeu R$ 250 mil ao ser enganada por supostos curandeiros em SP, que foram condenados por estelionato após prometerem rituais de purificação para tratar depressão.
Uma mulher de 54 anos perdeu cerca de R$ 250 mil após ser enganada por um grupo que se passava por curandeiros e prometia curá-la da depressão por meio de supostos rituais de purificação. Em decisão mantida em dezembro de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) confirmou a condenação de cinco integrantes da mesma família por estelionato.
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Como era o golpe?
De acordo com os autos, aos quais o Terra teve acesso, uma das condenadas, Márcia Kweick, percebeu a fragilidade da vítima e iniciou uma amizade com ela para, mais tarde, oferecer práticas de cunho sobrenatural para purificação.
Márcia dizia que poderia ajudar a mulher em um tratamento contra a depressão, que estava abalada em razão da morte da mãe. “A investigada percebeu que a vítima estava triste e com problemas pessoais. Aproveitando-se dessa fragilidade emocional da ofendida, passou a ludibriá-la, dizendo que conhecia práticas de cunho sobrenatural para purificação”, relata o processo.
Como foi a aproximação?
A partir dos encontros iniciais, a vítima passou a frequentar a casa de Márcia. Segundo a denúncia, em todas as visitas, eram realizados rituais descritos como "incomuns e singulares, algumas supostamente envolvendo animais".
Para realização de prática destinada a purificação, que consistia em incinerar tais bens em um tambor, estavam presentes os demais denunciados, todos conluiados para induzir e manter a vítima em erro.
O golpe começava quando os denunciados guardavam as notas de dinheiro e as joias em um embrulho de papel – que supostamente seria lançado ao fogo. Em seguida, os suspeitos solicitavam que a vítima fechasse seus olhos e se deitasse em um lençol branco posto no chão da sala.
Com a mulher de olhos fechados, os golpistas trocavam o embrulho de papel e jogavam no fogo um outro embrulho, mantendo a posse dos bens da vítima.
Quem são os golpistas?
- Márcia Márcia Kweick,
- o marido dela, Alexander Jovanovich Queiroz,
- os filhos Larissa Kwiek Jovanovich Queiroz e Wladimir Kwiek Jovanovich Queiroz,
- e a nora, Kathleen Nicolini Iwanovich.
Como o golpe foi descoberto?
A descoberta da farsa ocorreu quando a vítima viu quando os golpistas guardando as notas de dinheiro e as joias em um embrulho de papel, que supostamente seria lançado ao fogo.
Os valores foram embrulhados em papel, e os acusados anunciaram que seriam queimados. Em seguida, a vítima foi induzida a fechar os olhos e a se deitar sobre um lençol branco no chão da sala.
Nesse momento, houve a troca dos embrulhos, que foi percebida pela vítima.
Além de perceber a artimanha dos denunciados, a mulher percebeu que a apatia e a depressão não cessaram mesmo após os rituais”. Foi então que ela concluiu que havia sido enganada. A vítima procurou a Polícia Civil e registrou ocorrência na 94ª Delegacia de Polícia da capital.
Quanto a vítima perdeu no golpe?
Os "rituais de purificação" ocorreram entre novembro de 2018 e janeiro de 2019 em uma residência que fica em Pinheiros, na capital paulista.
Nesse período, acreditando que os rituais ali praticados eram sérios e idôneos, dirigidos a sua cura emocional, a mulher entregou R$ 135 mil em dinheiro, jóias avaliadas em R$ 100 mil e um celular de R$ 14 mil. No total, foram R$ 249 mil.
Como foi a condenação?
Na decisão de 1ª instância, o juiz Fernando Augusto Andrade Conceição afirmou que, em crimes patrimoniais, a palavra da vítima tem especial relevância, já que foi ela quem vivenciou diretamente os fatos. O magistrado condenou as cinco pessoas por estelionato.
A defesa recorreu da sentença e tentou a desclassificação do crime para curandeirismo, mas o argumento foi rejeitado e o Tribunal de Justiça manteve a condenação por unanimidade. No acórdão, a 4ª Câmara de Direito Criminal afirmou que houve coautoria inequívoca e que os réus atuaram de forma conjunta para induzir e manter a vítima em erro.
Em seu voto, o relator do recurso, desembargador Euvaldo Chaib, também rejeitou a desclassificação do delito para curandeirismo, ao destacar que, no estelionato, o dolo é antecedente à obtenção da vantagem ilícita e que se trata de crime material, consumado quando o agente obtém a vantagem mediante fraude.
“Os réus lançaram mão de uma artimanha, manobra ardilosa consistente em preparar um ritual que intitularam de trabalho espiritual para obtenção da vantagem patrimonial. E o valor assenhoreado foi absolutamente considerável, incompatível com um mero ritual de purificação. A intenção era sempre ter uma vantagem patrimonial, ilícita, em prejuízo [da vítima], valendo-se de meio fraudulento e da credulidade da ofendida”, afirmou.
- Márcia pegou um ano e nove meses de reclusão, mais o pagamento de 15 dias multa;
- Alexander pegou um ano e quatro meses de reclusão, além do pagamento de 13 (treze) dias multa;
- Kathleen pegou um ano e quatro meses de reclusão, além do pagamento de 13 (treze) dias multa;
- Wladimir um ano e quatro meses de de reclusão, além do pagamento de 13 (treze) dias multa
- Larissa teve a pena convertida em restritiva de direitos
O Terra não localizou a defesa dos denunciados.