Como Brasil se prepara para El Niño de proporções incertas
Novo episódio de El Niño já dá sinais no Pacífico e pode trazer mais chuvas ao Sul e seca ao Norte e Nordeste. Dúvidas sobre a intensidade do fenômeno permanecem, em meio a falta de preparo e adaptação no país.Do alto, satélites e radares captam a rota da bolha de água quente que se move pelo Oceano Pacífico em direção à costa da América do Sul. A vigilância, reforçada por boias marítimas, aponta para a anomalia bem conhecida dos pesquisadores: mais um El Niño está se instalando. A incerteza agora é sobre sua intensidade.
"O termo 'super El Niño' não é exatamente adequado", afirma Tércio Ambrizzi, professor de ciências atmosféricas na Universidade de São Paulo (USP). "A tendência é que ele seja de moderado para forte", comenta sobre um certo consenso na comunidade científica
O fenômeno é geralmente caracterizado quando a temperatura da superfície do Pacífico na região equatorial permanece, em média, cerca de 0,5 °C acima do normal por um período prolongado, normalmente de pelo menos três meses. Desde fevereiro, as medições indicam essa tendência na região.
A comunidade científica aguarda para confirmar em qual ponto do oceano ocorrerá o aquecimento máximo. Isso vai determinar como os impactos serão sentidos no Brasil.
"Comparando com outros do passado, é possível que os primeiros sinais desse El Niño devem aparecer no Sul do Brasil durante a primavera, com mais chuvas", afirma José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden).
Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), há uma probabilidade de 90% de o fenômeno El Niño voltar a aparecer este ano, e ele pode ter uma intensidade forte, o que agravará as secas e as chuvas intensas, bem como o risco de ondas de calor tanto na terra quanto no oceano.
"As condições do El Niño vão lançar mais lenha na fogueira de um mundo que está se aquecendo e seu impacto será ainda mais severo, chegará mais longe e cruzará fronteiras com uma velocidade devastadora", alertou o organismo científico das Nações Unidas nesta terça-feira (02/06).
Entre o final de abril e meados de maio, a temperatura da superfície do mar na zona do Pacífico utilizada como referência já estava nos limites de um fenômeno El Niño, e essa condição estava sendo alimentada por temperaturas subsuperficiais superiores à média em mais de 6 ºC.
"Nunca é igual ao outro"
O interesse em torno de um possível El Niño de forte intensidade movimenta debates pelo país. No Congresso Nacional, sessões discutem se os impactos irão prejudicar a população, a economia e o agronegócio. A próxima safra de grãos, por exemplo, está estimada em 356 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 1,2% em relação à anterior.
À DW, a Defesa Civil da União, ligada ao Ministério do Desenvolvimento Regional, informou que acompanha diariamente as condições climáticas em articulação com estados, municípios e instituições como Cemaden e Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
"Ainda não há um prognóstico preciso sobre os impactos do fenômeno. Por isso, a atuação está focada no monitoramento constante e na preparação antecipada para que, caso haja previsão de situações mais críticas, os alertas e medidas necessárias sejam adotados em tempo oportuno", respondeu o órgão, por meio de nota.
Se o fenômeno se confirmar, é esperado um agravamento da seca durante o inverno e o início do verão em algumas regiões, como Norte - na Amazônia - e parte do Nordeste. As condições podem facilitar as queimadas e impactar produções agrícolas. No Sul, pode ocorrer o aumento das chuvas.
"Cada El Niño tem sua própria impressão digital. Ele nunca é igual ao outro", afirma Ambrizzi. O episódio mais recente do El Niño ocorreu entre 2023 e 2024 e foi um dos cinco mais intensos registrados, o que influenciou a ocorrência de temperaturas globais recordes.
É recente a memória da destruição provocada pela chuva extrema no Rio Grande do Sul, em 2024. Naquele ano, uma sobreposição de eventos climáticos, incluindo um El Niño intenso, provocou a pior inundação da história do estado.
"Os governos e autoridades em geral parecem mais preocupados. Mas só isso não é suficiente. Mesmo que o El Niño não seja intenso, a atmosfera já está mais quente, já existe o aquecimento global, o que já deveria estar provocando mudanças de forma mais sistemática", pontua Marengo.
Ausência ou pouco preparo
Nas comunidades mais vulneráveis, a certeza é de que não houve investimento público para que se adaptem e enfrentem chuvas ou secas extremas intensificadas por um El Niño.
"As periferias das cidades já sofrem com impactos acumulados por vários desastres. Não temos quase nada pronto para adaptar nossas comunidades a esse cenário", afirma Thaynah Gutierrez, secretária executiva da Rede por Adaptação Antirracista, citando as periferias de Porto Alegre, fortemente atingida pelos eventos de 2024.
Para especialistas em gestão de riscos, a preparação para eventos climáticos extremos não deveria depender da confirmação de um fenômeno específico: ele deveria fazer parte de uma agenda contínua de planejamento.
Embora tenha havido avanços na sensibilização em órgãos públicos, setor privado e sociedade civil, o debate ainda costuma se concentrar na pergunta sobre o que exatamente vai acontecer: se haverá seca, chuvas intensas ou enchentes. O foco deveria ser numa capacidade de adaptação permanente.
"Mais do que reagir a cada novo alerta, independentemente da ocorrência de um evento específico, os territórios devem estar preparados. O foco precisa estar na resiliência das cidades, da infraestrutura e dos sistemas produtivos", sugere Victor Marchezini, sociólogo no Cemaden e coordenador do Projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Alarmismo perigoso
Outro desafio está na comunicação do risco. Com a multiplicação de análises meteorológicas nas redes sociais, muitas vezes produzidas por consultorias privadas e influenciadores com diferentes interesses, a população fica exposta a informações desencontradas. "Esse excesso de mensagens pode gerar dúvidas sobre quais previsões são mais confiáveis e quais medidas concretas deveriam ser adotadas", critica o sociólogo.
Formada em administração pública, Gutierrez acompanha o alarmismo gerado pelas previsões, mas afirma que a maioria da população não acessa esse tipo de conteúdo - a não ser por meio de vídeos que viralizam na internet. "No geral, faltam aos governos e instituições um conhecimento situado de quais são os territórios mais vulneráveis. Nós queremos falar sobre isso de forma responsável e cobrar governos para que priorizem esses territórios na preparaçao", argumenta.
A responsabilidade em cobrar os investimentos e prestar contas precisa fazer parte de todas as esferas de governo, assim como o planejamento, complementa Marchezini. "Isso permitiria, por exemplo, a realização antecipada de licitações e contratos para resposta a desastres, reduzindo a necessidade de medidas emergenciais e de gastos extraordinários quando as crises já estiverem em curso", comenta.
Diante das previsões, Santa Catarina, por exemplo, decretou estado de alerta climático que se estende até novembro. Mas, ao mesmo tempo, o governo estadual praticamente paralisou investimentos em prevenção de desastres, apontaram os dados do Sistema Integrado de Planejamento e Gestão Fiscal (Sigef-SC) publicados pela Assembleia Legislativa do estado.
Em 2025, apenas 15,4% dos recursos destinados ao orçamento aprovado para a Secretaria de Proteção e Defesa Civil foram executados. O valor voltado para construção, ampliação e reforma de barragens foi menor: 0,66% do total foi empenhado.
"Vale lembrar que estamos em ano de eleições. Não podemos continuar elegendo esses políticos que vão usar os recursos que deveriam ir para o preparo e adaptação aos eventos extremos para desvios", comenta Gutierrez.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.