Estratégia de associar Trump à campanha pode virar tiro pela culatra para a direita, avalia especialista
Consultor de marketing político Deividi Lira diz que parte do eleitorado conservador teme perda de soberania nacional
A tentativa de utilizar a influência dos Estados Unidos como instrumento de pressão política contra o governo do presidente Lula (PT) pode acabar produzindo o efeito contrário ao desejado pela direita. A avaliação é do consultor de marketing político Deividi Lira, que vê riscos eleitorais para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em meio à escalada das tensões comerciais entre Brasília e Washington.
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"Exercer essa pressão por meio dos Estados Unidos pode ser um tiro pela culatra para a direita. A direita também tem medo de que o Brasil perca a soberania que possui hoje", afirmou.
A análise ocorre em meio à troca de acusações entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre a investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos contra o Brasil. O Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) concluiu preliminarmente que determinadas políticas e práticas adotadas pelo País seriam prejudiciais ao comércio norte-americano e recomendou uma tarifa adicional de 25% sobre diversos produtos brasileiros.
Para o especialista, a tentativa da direita de transformar a proximidade com o presidente americano Donald Trump em uma vantagem política pode encontrar resistência até mesmo entre parte do eleitorado conservador.
"Embora ele tenha dito que não pediu a taxação e que, pelo contrário, pediu que as empresas brasileiras não fossem taxadas, essa narrativa ainda gera dúvidas. Os próprios eleitores da direita também temem que o Brasil perca soberania", avaliou.
Na semana passada, Flávio Bolsonaro reuniu-se com Trump nos Estados Unidos. Depois do encontro, o senador afirmou ter solicitado ao presidente americano que não adotasse novas tarifas contra produtos brasileiros. Nesta terça-feira, 2, ele divulgou um ofício enviado ao secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, reiterando o pedido.
Para Lira, a estratégia da oposição busca apresentar Flávio Bolsonaro como alguém capaz de fortalecer a economia brasileira por meio de uma relação próxima com Washington.
"Hoje a narrativa que Flávio Bolsonaro e a direita tentam emplacar é justamente a de que ele está interessado em ajudar o Brasil economicamente e em fortalecer o País. Quando ele diz que, se for eleito, os Estados Unidos terão um presidente parceiro comercialmente, ele está tentando construir essa imagem", afirmou.
Segundo o consultor, a fotografia do encontro entre Flávio e Trump, de forma isolada, teria pouco impacto político. O foco agora estaria na construção de uma mensagem que associe a oposição à capacidade de obter vantagens econômicas para o Brasil por meio da interlocução com os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, o governo Lula procura enquadrar a crise sob outra perspectiva. O Palácio do Planalto atribui a abertura da investigação comercial à atuação de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sustenta que eventuais sanções prejudicariam trabalhadores e empresas brasileiras.
"O governo Lula procura basear seu discurso em políticas públicas, resultados concretos e na defesa da soberania nacional. Por isso, transformar a influência americana em instrumento de pressão política pode acabar gerando rejeição em setores que valorizam a independência do Brasil", afirmou.
Na avaliação de Lira, o embate vai além da discussão sobre tarifas e comércio exterior.
"Essa crise não trata apenas de economia. Ela também se tornou uma disputa sobre soberania nacional, independência política e a forma como o Brasil deve se relacionar com uma potência estrangeira", concluiu.
Pix é o principal foco da disputa, diz especialista
Deividi Lira avalia que o principal ponto de tensão entre os dois países é o Pix. Para ele, o sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central tornou-se um símbolo da capacidade brasileira de inovação tecnológica e autonomia regulatória.
"O ponto central dessa crise hoje é a questão do Pix. Ele é um ativo estratégico do Brasil e não apenas financeiro. O Pix mostra a soberania regulatória e também a capacidade de inovação tecnológica do País", afirmou.
O governo americano disse que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA" e citou o Pix.
Na avaliação do especialista, o sucesso da plataforma brasileira incomoda setores econômicos americanos porque o sistema passou a disputar espaço com modelos tradicionais de pagamento, especialmente aqueles ligados às operadoras de cartões de crédito.
"Os Estados Unidos nunca ficaram muito felizes com o Pix porque ele acaba sendo visto como um concorrente forte dos cartões de crédito e de outras empresas de meios de pagamento", disse.
Apesar da tensão, Lira acredita que ainda existe espaço para negociação. Segundo ele, o governo brasileiro tem condições de reduzir os impactos da crise comercial desde que priorize o diálogo com Washington.
"O Brasil pode mitigar ou até evitar essa tarifa, mas precisará construir uma estratégia de negociação nesse tema. Sempre preservando a soberania brasileira, mas buscando o diálogo. Neste momento, o cenário não deveria ser de confronto, mas de interlocução com o governo americano", avaliou.
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