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RS: depoimentos longos adiam fala de testemunhas do processo da Kiss

Dos 13 sobreviventes previstos para esta quinta-feira, somente oito foram ouvidos na audiência

27 jun 2013
21h56
atualizado às 22h02
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No segundo dia para ouvir sobreviventes da tragédia da Boate Kiss, cinco depoimentos acabaram adiados, por causa do longo tempo que algumas testemunhas usaram. Das 13 pessoas previstas para esta quinta-feira, somente oito foram ouvidas. “Não há um limite de tempo. Essa fase é assim mesmo. Queremos oportunizar que as partes façam todas as perguntas”, diz o juiz Ulysses Fonseca Louzada, titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria.

No segundo dia para ouvir sobreviventes da tragédia da Boate Kiss, cinco depoimentos acabaram adiados, por causa do longo tempo que algumas testemunhas usaram
No segundo dia para ouvir sobreviventes da tragédia da Boate Kiss, cinco depoimentos acabaram adiados, por causa do longo tempo que algumas testemunhas usaram
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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O primeiro depoimento desta quinta-feira atrasou porque o advogado Jader Marques, que defende Elissandro Spohr, pediu um momento de conversa reservada com o magistrado, para se queixar da postura de alguns órgãos de imprensa a respeito da cobertura das audiências. Na volta, ele não quis fazer uma representação formal.

Mesmo sem uma representação formalizada, os promotores Joel Oliveira Dutra e Maurício Trevisan decidiram se manifestar. “De nossa parte, não vamos permitir nenhuma restrição ao trabalho da imprensa. Já saiu muita coisa que desagradou a nós, promotores, mas nem por isso vamos concordar com alguma restrição”, disse Trevisan. 

O juiz também opinou a respeito. “Esse é um momento que temos que trazer um exemplo de democratização”, sentenciou o magistrado, garantindo que os repórteres possam seguir fazendo a cobertura das audiências do processo criminal da tragédia. 

Depois do debate sobre a atuação da imprensa, o primeiro depoimento do dia foi de Guilherme Bastos Mello, sobrevivente que falou por mais de uma hora. Ele contou que viu o início do incêndio: “Primeiro vi uma leve luz no teto. O fogo veio de forma uniforme, como fogo em um papel”. Mello também contou que retirou várias pessoas de dentro da boate. “Entrei várias vezes. Eu entrava rastejando. Tinha que fazer uma força muito grande para puxar a pessoa até a porta, e os outros pegavam”, disse o rapaz, que chegou a ser pisoteado logo que saiu e que contou que só viu um bombeiro entrando na boate. “Quem mais tirou gente foram os civis”, afirmou.

Quem depôs na sequência foi a também sobrevivente Camila Monteiro da Silva, que demorou para perceber o quanto a situação era grave na madrugada da tragédia. “Achei que era um fogo pequeno, que ia apagar. Fiquei parada e uma amiga me disse para a gente sair”, revelou Camila. Ela estava perto do palco, mas conseguiu sair logo, porque conhecia bem a boate e porque uma segurança da Kiss a ajudou. 

Depois de um intervalo para o almoço, Karine Campagnolo foi a terceira depoente do dia. Ela foi à boate pela primeira vez na madrugada da tragédia e também demorou para perceber os riscos. “Não percebi que era fogo. Só depois que tentaram usar o extintor é que percebi que tinha que sair”, comentou Karine. Ela chegou a ficar trancada em uma das barras de ferro antes da saída. “Mas saí para o lado e consegui me desvencilhar. Já tinha gente caída no chão.”

Fernanda Rodrigues depôs em seguida e disse que ia à Kiss e ficava na fila, mesmo quando sabia que a boate estava cheia. Depois dela, foi a vez de um dos depoimentos do dia com mais conteúdo: o do militar aposentado João Batista Silveira Gonçalves. Ele tinha ido à Kiss com a mulher, a enteada e o genro, Pedro Almeida, que morreu na tragédia e era considerado um filho por ele.  Gonçalves relatou que saiu da boate agachado, com toda a família de mãos dadas. O treinamento militar o ajudou, apesar de todos se separarem no caminho até a rua. 

O militar aposentado disse que foi a boate com a mulher porque a enteada dele, Natane Ribeiro da Silva queria ir à festa do curso dela e a presença dos responsáveis era obrigatória por ela ter menos de 18 anos. Na entrada, a comanda dela chegou a ser riscada, e foi avisado que ela não poderia consumir bebidas alcoólicas. Se fizesse isso, a responsabilidade seria do padrasto e da mãe. 

Gonçalves contou ainda que, ao saírem, ele e a mulher queriam voltar para procurar Natane e Pedro, mas foram impedidos e ameaçados por policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOE). Ele mesmo levou de carro toda a família para o hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), e recebeu uma multa por excesso de velocidade.

Ao ser perguntado sobre os motivos que levaram à tragédia, o militar aposentado disse que parte da culpa pode ser atribuída ao poder público. “Se eu mexo em duas tábuas na minha casa, em duas horas dois fiscais estão lá embargando a minha obra. Fiscais poderiam ter embargado a boate. Alguém dos órgãos públicos deu autorização para ela (a Kiss) abrir”.

Depois de Gonçalves, ainda deram depoimentos Luiz Carlos Pires Peransoni Júnior, Matheus Rocha Homercher e Luzianara de Lourenço Marques. O último depoimento terminou por volta das 19h. Por conta do horário, as demais cinco oitivas ficaram para outro dia. Mais 13 testemunhas estão programadas para serem ouvidas nesta sexta-feira. 

Pelo segundo dia consecutivo, os réus Marcelo de Jesus dos Santos, vocalista da banda Gurizada Fandangueira, e Luciano Bonilha Leão, produtor de palco do grupo, acompanharam os depoimentos ao lado de seus advogados, Omar Obregon e Gilberto Weber, respectivamente. Ontem, mais um assistente de acusação se credenciou para o processo criminal: o advogado Cristiano Urach. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

Fonte: Especial para Terra
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