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RS: depoimentos de 10 sobreviventes da Kiss são assistidos por dois réus

Vocalista e produtor de palco da Banda Gurizada Fandangueira foram à primeira audiência do processo criminal sobre o incêndio que causou a morte de 242 pessoas

26 jun 2013
21h17
atualizado às 21h31
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Da metade da manhã até o final da tarde desta quarta-feira, 10 sobreviventes do incêndio na Boate Kiss deram depoimentos na primeira audiência do processo criminal do caso. Dos quatro réus, dois compareceram ao Salão do Tribunal do Júri do Fórum de Santa Maria: o produtor de palco de banda Gurizada Fandangueira, Luciano Bonilha Leão, e o vocalista do grupo, Marcelo de Jesus dos Santos. Os outros acusados de homicídios qualificados com dolo eventual e tentativas de homicídio qualificado, os sócios da Kiss Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, não foram à audiência.

Os advogados Mário Cipriani e Omar Obregon e os réus Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha (sentados, sem terno)
Os advogados Mário Cipriani e Omar Obregon e os réus Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Bonilha (sentados, sem terno)
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

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Antes de começar os depoimentos, o titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, Ulysses Fonseca Louzada, autorizou o ingresso de mais assistentes de acusação no processo. Os advogados Itaúba Siqueira de Souza Jr. e Paulo Odilon Rodriguesa da Silva agora representam os familiares de duas vítimas que morreram na tragédia: Rogério Cardoso Ivaniski e Roger Barcelos Farias. O ex-defensor público Alvaro Nozzari foi contratado pela mãe de Thanise Correa Garcia e por dois sobreviventes. Já o advogado Pedro Barcellos defenderá os interesses dos pais de Igor Stephan de Oliveira, outra vítima que morreu. Como assistentes de acusação, eles acompanharão o advogado Jonas Espig Stecca, que já representa a Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria na ação penal.

Audiência ocorreu no Salão do Tribunal do Júri do Fórum de Santa Maria
Audiência ocorreu no Salão do Tribunal do Júri do Fórum de Santa Maria
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

O primeiro depoimento do dia foi de Giovana Peres Rist, que trabalhava como caixa na Kiss. Ela afirmou que não havia mais de 800 pessoas na boate na madrugada da tragédia. Como estava trabalhando perto da porta de saída, ela não ficou sabendo logo do incêndio. “Parecia que tinha dado um tumulto e as pessoas queriam sair sem pagar, com destilados e cervejas na mão”, disse Giovana.

A caixa chegou a ver Kiko Spohr pedindo calma às pessoas logo que o tumulto começou. Ela também falou sobre as reformas pelas quais a Kiss passou, do final de 2011 ao início de 2012 e no final do ano passado. Giovana afirmou que as obras foram feitas por familiares de Kiko Spohr com a ajuda de funcionários da boate.

O segundo depoimento do dia foi do sobrevivente Saulo Maurício Rodrigues Preigschadt, que costumava frequentar a boate. Ele ressaltou a dificuldade para sair da casa noturna na madrugada de 27 de janeiro. “Havia pessoas que pisavam umas nas outras”, destacou. Preigschadt ainda disse que, quando o fogo começou, os músicos largaram os instrumentos e não avisaram nada a respeito no microfone. O rapaz ainda declarou que viu Kiko Spohr, sócio da Kiss, arrancando madeiras da frente da boate para mostrar onde estavam as janelas.

Em seguida, outra sobrevivente contou o que viveu na madrugada da tragédia. Daniela da Silva Medina se queixou da atuação dos seguranças da casa noturna. “Os seguranças fecharam a porta por dois, três minutos. Isso impediu muita gente de sair”. E ainda contou como chegou à rua, espremida entre frequentadores desesperados para deixar a Kiss. “Muita vezes eu perdi os pés do chão. Perdi meus calçados. Fui levada”, disse Daniela.

Antes de começar os depoimentos, o titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, Ulysses Fonseca Louzada, autorizou o ingresso de mais assistentes de acusação no processo
Antes de começar os depoimentos, o titular da 1ª Vara Criminal de Santa Maria, Ulysses Fonseca Louzada, autorizou o ingresso de mais assistentes de acusação no processo
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Carmen Aridny Emiliano Reis abriu os depoimentos da tarde, depois de um intervalo de quase uma hora. Ela e as testemunhas Luiza Ilha Borges, Jéssica Kulmann Fernandes, Ingrid Preigschadt Goldani - que ficou conhecida por ter colocado a cabeça em um freezer para respirar -, Giovani Alves Dias e Andressa Razeira Dotto, via de regra, contaram como foi difícil sair da Kiss tomada pela fumaça. O último depoimento do dia foi de Fernanda Buriol Londero, que disse só ter conseguido sair porque atalhou pela copa.

Ao fazer questionamentos às testemunhas nesta quarta, os advogados Mário Cipriani e Bruno Seligman de Menezes, que defendem Mauro Hoffmann, formularam perguntas cujas respostas destacavam a pouca participação do empresário nas decisões a respeito da Kiss. Jader Marques, defensor de Kiko Spohr, procurou fazer questões em que as testemunhas respondiam que não reparavam em itens de segurança em casas noturnas antes da tragédia e que as empresas em geral não davam treinamento para seus funcionários para situações de emergência.

Dos 13 depoimentos previstos para quarta-feira, três não foram realizados. Mais 26 depoimentos estão previstos para esta quinta-feira e a sexta-feira. 

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

 

 

Fonte: Especial para Terra
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