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RS: manifestantes passam a noite na Câmara de Santa Maria

Ocupação pede medidas mais incisivas sobre a CPI da tragédia da Boate Kiss

26 jun 2013
03h23
atualizado às 03h37
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A terceira manifestação realizada em menos de uma semana, em Santa Maria, contou com um número bem menor de participantes, mas foi suficiente para gerar consequências políticas. Na tarde de terça-feira, cerca de 500 pessoas saíram da Praça Saldanha Marinho, no Centro, e foram até a Câmara de Vereadores, enquanto a sessão plenária era realizada.

Como as reivindicações relacionadas à CPI e ao procurador não foram atendidas, os manifestantes decidiram seguir ocupando a Câmara
Como as reivindicações relacionadas à CPI e ao procurador não foram atendidas, os manifestantes decidiram seguir ocupando a Câmara
Foto: Luiz Roese / Especial para Terra

Os parlamentares não chegaram a votar nada, ainda estavam na fase dos pronunciamentos. A sessão foi interrompida com a chegada dos manifestantes, por volta das 17h, e só foi retomada pouco depois das 22h, para novamente ser suspensa. Estudantes e familiares de vítimas da tragédia da Boate Kiss decidiram permanecer no local durante a madrugada. 

As duas principais pautas do protesto foram a situação do transporte público coletivo na cidade e a atuação da Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara sobre a tragédia da Kiss. Os manifestantes pediram que os vereadores fizessem uma explanação, pública e individual, a respeito do preço da passagem, passe livre e licitação de empresas.

“Santa Maria tem a passagem mais cara do que em 13 capitais brasileiras”, discursou o coordenador-geral do DCE da UFSM, Alex Monaiar. “A planilha que serve de base de cálculo do valor é fajuta, mas ainda é a base do preço”, continuou. 

Depois que os vereadores se retiraram do plenário, para reunião na presidência, sobre as reivindicações, a proposta inicial foi de que no dia 12 de julho seria feita uma audiência pública para tratar do transporte coletivo. Os estudantes pediram que o encontro fosse marcado para antes do dia 8, data da próxima reunião do Conselho Municipal de Transportes, que delibera sobre o preço da passagem. A contraproposta dos vereadores foi remarcar para 3 de julho, e os manifestantes insistiram que fosse no dia 1º, para acompanhar o calendário nacional de greves e manifestações. 

“Se licitação e audiência resolvessem, nós não estaríamos aqui hoje. Sabemos que não funciona e não dá certo”, disse Gabriel Vaccari, do Levante Popular da Juventude. 

No final da noite, pouco antes das 22h, os vereadores voltaram de outra reunião em que definiram a data de 5 de julho para a audiência pública. Mais cedo, os parlamentares anunciaram que encaminhariam à prefeitura as reivindicações pela redução da tarifa, pelo retorno do passe livre e pela licitação das empresas concessionárias de transporte. 

Outro assunto dominante foi a CPI da tragédia. Foi tornada pública nesta terça-feira uma conversa entre dois vereadores que integram a comissão, a presidente, Maria de Lourdes Castro (PMDB), e o vice, Tavores Fernandes (DEM). O diálogo teria sido gravado por um assessor do vereador, Amilcar Rocha, que também participa da conversa. 

Na gravação, Maria de Lourdes diz que a CPI deve seguir “jogando”, com a seguinte explicação: “Porque vai chegar no Mânica (referindo-se ao secretário de Relações de Governo e Comunicação de Santa Maria, Giovani Mânica), e chegando no Mânica, vai chegar no prefeito (Cezar Schirmer)", diz a vereadora. 

Entidades sindicais e representativas, que iniciaram a manifestação, apoiaram os dois grupos que respondem por parentes das vítimas da Kiss: a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia em Santa Maria (AVTSM) e o Movimento Santa Maria do Luto à Luta. Gritando palavras de ordem, contra a CPI, os manifestantes foram recebidos pela Brigada Militar e a Guarda Municipal. Nos primeiros momentos, eles não foram autorizados a entrar no Legislativo. Após alguns minutos de insistência, o grupo entrou e lotou o plenário. 

“Podem chamar quem quiserem, nós já estamos ignorando esta CPI”, declarou Adherbal Ferreira, presidente da AVTSM, sobre o anúncio feito nesta terça de que os sócios da Boate Kiss, Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, seriam convidados a depor. Antes, esse era um desejo antigo dos familiares das vítimas, que já havia sido negado pelos vereadores da comissão. 

Por volta das 18h30, os vereadores se reuniram na presidência, enquanto o plenário seguiu ocupado. Após ouvir a gravação, que foi entregue pela Polícia Civil no início da tarde, antes de a Câmara ser ocupada pelas manifestantes. No retorno, o vereador Werner Rempel (PPL), líder da oposição, foi escolhido pelos outros parlamentares como porta-voz dos vereadores. Ele falou que seria instalada uma Comissão de Ética e Decoro Parlamentar, para apurar os fatos da CPI.

“Nossa casa é a mais democrática e podemos recebê-los desta forma para conversar”, defendeu o vereador.

Os manifestantes ainda pediram que os vereadores que integram a CPI renunciassem a seus postos na comissão e, em caso contrário, passariam a noite no Legislativo, até a manhã desta quarta-feira, quando aconteceria o depoimento do prefeito Cezar Schimer. Os vereadores que integram a CPI, Maria de Lourdes Castro, Sandra Rebelato (PP) e Tavores Fernandes saíram à francesa, sem serem vistos. “Queremos uma CPI com cara de CPI. A gravação só comprova o que sabíamos desde o início” defendeu Flávio José da Silva, pai de vítima e membro do Movimento Santa Maria do Luto à Luta. 

Antes do início das manifestações, a vereadora Maria de Lourdes teria afirmado que, além do depoimento nesta quarta do prefeito Cezar Schirmer e da procuradora-geral do município, Anny Desconzi, na sexta-feira os sócios da Kiss Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann seriam ouvidos. “Eu cogito esta ideia há muito tempo, mas para tudo tem hora certa”, defendeu a vereadora, que até então negava a chance de que os dois fossem ouvidos pela Comissão. 

Depois de mais uma reunião à noite, os vereadores voltaram ao plenário por volta das 22h. O presidente da Câmara, Marcelo Bisogno (PDT), não disse exatamente o que os manifestantes queriam ouvir. Ele falou que, em contato com os três vereadores que integram a CPI da Kiss, eles disseram que não retornariam para o prédio do Legislativo e que só anunciariam o que fariam em entrevista coletiva nesta quarta-feira, em horário a ser anunciado. Bisogno acrescentou que foram feitas consultas à legislação e ao regime interno da Câmara e que a CPI tem autonomia para suas decisões e que não cabe a ele tomar uma providência. 

A sessão que havia começado à tarde chegou a ser retomada por alguns instantes, mas logo foi interrompida por manifestantes que pediram a palavra. Flávio José da Silva, do Movimento Santa Maria do Luto à Luta, cobrou uma posição do presidente da Câmara sobre outra reivindicação: a exoneração do procurador da Câmara, Robson Zinn, que também é presidente municipal do PMDB, mesmo partido do prefeito. Bisogno disse que uma decisão a respeito dessa medida só seria possível nesta quarta, depois de uma reunião  da Mesa Diretora. 

Como as reivindicações relacionadas à CPI e ao procurador não foram atendidas, os manifestantes decidiram seguir ocupando a Câmara. Grupos dedicados à segurança, à alimentação e à saúde, entre outros, foram organizados. Cerca de 200 pessoas permaneciam no prédio do Legislativo nesse momento. 

Aos poucos, mais pessoas foram chegando à Câmara. Muitas foram buscar comida e colchonetes. Pouco depois das 1h, em uma reunião do presidente da AVTSM com os vereadores Marcelo Bisogno, Admar Pozzobom (PSDB), João Ricardo Vargas (PSDB) e Daniel Diniz (PT), foi discutida a ocupação. Bisogno garantiu que não iria pedir a reintegração de posse e prometeu respostas às reivindicações até o início da tarde.

Animados com a notícia de que poderiam ficar na Câmara, os manifestantes seguiram sua rotina desde o início da ocupação, com cantorias e batucada. Mais gente chegou durante a madrugada. 
Um grupo varreu a Câmara para deixar o local limpo. Além dos estudantes e dos familiares das vítimas, dois cachorros acompanham o protesto no prédio do Legislativo.  

Durante todo o tempo, os únicos atos de vandalismo registrados foram pichações nos banheiros da Câmara. A atitude foi condenada por muitos manifestantes. 

 

Fonte: Terra

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