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Lula veta PL da dosimetria: o que acontece agora?

Projeto prevê redução de penas dos condenados por atos do 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

8 jan 2026 - 12h16
(atualizado às 14h27)
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Lula vetou proposta em evento que marca os três anos dos atos de 8 de Janeiro
Lula vetou proposta em evento que marca os três anos dos atos de 8 de Janeiro
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vetou integralmente nesta quinta-feira (8/1) o PL da dosimetria, aprovado em dezembro pelo Congresso.

O projeto reduz a pena de condenados por crimes relacionados aos atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O presidente Lula já havia anunciado em dezembro que vetaria a proposta.

"Com todo o respeito que eu tenho ao Congresso Nacional, a hora que chegar na minha mesa, eu vetarei", afirmou o presidente durante um café da manhã com jornalistas.

A assinatura do veto se deu durante cerimônia organizada pelo governo para marcar os três anos do 8 de Janeiro, quando manifestantes invadiram e depredaram os prédios dos Três Poderes pedindo por uma intervenção federal.

O veto agora segue para análise do Congresso, que pode derrubá-lo.

'Não temos direito de esquecer o passado'

O presidente Lula tinha até o dia 12 de janeiro para vetar a proposta. O veto, assinado nesta quinta-feira, é simbólico por marcar os três anos dos atos marcados por depredações em Brasília.

"O dia de hoje, além de estarmos aniversariando três anos do nosso terceiro mandato, é um dia que muita gente desse país pode comemorar. Primeiro pela manutenção do Estado Democrático de Direito desse país", disse Lula durante discurso no Palácio do Planalto.

A cerimônia contou com a presença de governistas e de movimentos populares alinhados à esquerda, e se iniciou com gritos de "sem anistia".

Os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não compareceram ao evento.

"Não temos o direito de esquecer do passado. Por isso não aceitamos nem ditadura civil nem ditadura militar. Viva a democracia brasileira", disse Lula em seu discurso.

"O 8 de janeiro está marcado pela história como o dia da vitória da nossa democracia. Vitória sobre os que tentaram tomar o poder pela força, desprezando a vontade popular expressa nas urnas."

O que diz o PL da dosimetria

O PL da dosimetria altera regras da Lei de Execução Penal e prevê mudanças no cálculo das penas.

Uma delas é o fim da soma das penas pelos crimes de golpe de Estado e abolição do Estado Democrático de Direito. Assim, passa a prevalecer apenas a pena maior, para tentativa de golpe de Estado, de 4 a 12 anos.

A proposta também permite uma progressão de regime mais rápida, ou seja, passar da cadeia para o regime semiaberto ou domiciliar a partir do cumprimento de um sexto da pena nos casos que não envolvam crimes contra a vida.

Com isso, Bolsonaro pode ter uma redução no tempo de cumprimento da pena em regime fechado: dos atuais 6 a 8 anos para algo entre 2 anos e 4 meses e 4 anos e 2 meses, dependendo da interpretação, de acordo com cálculos do jornal Folha de S. Paulo.

O ex-presidente foi condenado em setembro pelo STF a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes de organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano contra o patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado.

Em relação aos outros condenados pelos atos do 8 de Janeiro, o PL da dosimetria ainda autoriza a redução de um terço a dois terços das penas quando os crimes forem cometidos em contexto de multidão — essa regra não se aplicaria a Bolsonaro, condenado por ser líder da tentativa de golpe.

Bolsonaro seria beneficiado pelo PL da dosimetria com redução de pena em regime fechado
Bolsonaro seria beneficiado pelo PL da dosimetria com redução de pena em regime fechado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

O que acontece agora?

Com o veto de Lula, o projeto volta ao Congresso e os parlamentares vão decidir, em sessão conjunta, se mantêm ou derrubam a decisão.

Para derrubar o veto, será necessário o apoio de 257 deputados e 41 senadores.

Se derrubado, o projeto de lei entra em vigor após sua promulgação, que pode ser feita por Lula ou pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Relator do projeto da dosimetria na Câmara, o deputado Paulo Pereira (Solidariedade-SP), conhecido como Paulinho da Força, disse que Lula "tocou fogo" na bandeira branca que o Congresso teria entregue a ele com a aprovação da redução de penas.

Ao criticar o veto presidencial em vídeo compartilhado em sua conta no Instagram, ele lembrou que a medida aprovada no Congresso foi elogiada pelo governo dos Estados Unidos e citada quando a gestão do presidente Donald Trump retirou sanções sobre o Brasil.

"É importante dizer que dosimetria não é anistia, não apaga crimes. É justiça proporcional. É previsibilidade jurídica, é respeito à Constituição, e é exatamente o que um país sério precisa para seguir em frente", defendeu.

"Vou trabalhar firme no Congresso para derrubar o veto de Lula e trazer a pacificação para ao Brasil", continuou.

Confiante na derrubada do veto, a oposição já pressiona Alcolumbre a colocar a matéria rapidamente em votação. O Congresso volta a funcionar em fevereiro, após o recesso parlamentar.

"O Congresso fez sua parte. Corrigiu excessos. Buscou equilíbrio. Tentou devolver racionalidade ao processo penal. O veto ignora tudo isso e rasga a vontade soberana do parlamento", disse o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), em post em suas redes sociais.

Há expectativa de que partidos da base do governo contestem a nova lei no STF, para tentar derrubar a redução das penas, questionando sua legalidade.

Líderes do PT, PSB, PCdoB e PSOL da Câmara já apresentaram outra ação questionando a aprovação do projeto de lei na Corte, argumentando que houve irregularidades na tramitação da proposta. Caso esse pedido seja atendido, a proposta teria que passar por nova votação.

Brasileiros desaprovam PL da dosimetria

Atos contra o PL da dosimetria foram registrados no Brasil após a aprovação da lei no Congresso, em dezembro.

Apesar de não terem sido tão expressivos quanto os realizados contra o PL da Blindagem, em setembro, as manifestações evidenciaram a insatisfação dos brasileiros com a proposta.

Uma pesquisa Quaest divulgada ainda em dezembro mostrou que 47% dos brasileiros desaprovam o projeto de lei, 24% são favoráveis ao texto e 19% gostariam de penas ainda menores que as previstas na proposta.

Para 58% dos entrevistados, o projeto teria como objetivo reduzir a pena de Bolsonaro; para 30%, o objetivo seria reduzir a pena de todos os condenados por atos golpistas.

Entre aqueles que se declaram como bolsonaristas, 53% apoiam reduções nas penas ainda maiores; 32% apoiam a proposta atual; e 10% são contra o projeto.

Entre os que se consideram lulistas, 77% são contrários ao projeto, 10% são favoráveis e apenas 4% apoiam reduções nas penas ainda maiores.

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