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Tragédia em Santa Maria

'Nunca chorei tanto', diz sobrevivente do maior incêndio do País

4 fev 2013 - 09h21
(atualizado às 09h21)
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O espetáculo ainda não tinha terminado quando Márcia Martins, então com oito anos, deu a mão ao avô para deixar o circo. A mania do homem - de sair mais cedo de lugares com grande aglomeração de pessoas - salvou a menina do maior incêndio da história do Brasil.

Márcia Martins tinha 8 anos quando sobreviveu ao incêndio no Gran Circus, que matou 503 pessoas
Márcia Martins tinha 8 anos quando sobreviveu ao incêndio no Gran Circus, que matou 503 pessoas
Foto: BBC News Brasil

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Passados 52 anos da tragédia no Gran Circus Norte Americano, em Niterói, Rio de Janeiro, Márcia faz um alerta emocionado: não são apenas os feridos que precisam de cuidados, mas todos os que se sentiram afetados pelo horror da tragédia. "Qualquer um que não morreu naquele lugar, que sobreviveu a uma tragédia, vai ter uma marca, que não é aparente, mas que precisa ser tratada também", sublinha a professora niteroiense.

Na tragédia em 1961, Márcia perdeu o avô e o pai - este, pela mesma razão que motivou muitas mortes Santa Maria, a intoxicação por fumaça. O incêndio no Gran Circus deixou um saldo de 503 pessoas mortas, 70% das quais crianças. O irmão de Márcia, porém, sobreviveu.

A professora diz que, por muito anos, ela e o irmão tiveram que conviver com "o nó na cabeça" provocado pelo incêndio. Ela buscou ajuda de psicólogos.

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"Culpa e incerteza"

Aos 59 anos, Márcia tem três filhos e já é avó. Ela lembra que, quando teve o primeiro filho, chorou muito, uma reação de quem enfrentou anos de dor e se via diante de uma enorme - e enfim permitida - alegria.

"Quando você sobrevive a uma tragédia como essas, há muita culpa e incerteza", diz ela. "Pode ser que uma pessoa tenha recursos internos para enfrentar sem a ajuda de um profissional (psicólogo). Eu acho difícil".

Aposentada como professora de inglês da Escola Naval, atualmente Márcia é coordenadora do curso online de formação de oficiais da Marinha. Ela diz que a tragédia no Rio Grande do Sul a fez sentir novamente as dores da perda vivida há mais de cinco décadas.

"Nunca chorei tanto em minha vida como naquele domingo (27 de janeiro de 2013). Porque quando a tragédia do circo ocorreu, eu não chorei tanto assim", conta ela. Falar à BBC sobre seu caso e sobre as emoções que o incêndio na boate Kiss trouxeram alívio, diz. "Eu precisava falar sobre isso com a cabeça que tenho hoje", disse, sem esconder a emoção.

Incêndio na Boate Kiss

Um incêndio de grandes proporções deixou mais de 230 mortos na madrugada do dia 27 de janeiro, em Santa Maria (RS). O incidente, que começou por volta das 2h30, ocorreu na Boate Kiss, na rua dos Andradas, no centro da cidade. O Corpo de Bombeiros acredita que o fogo tenha iniciado com um artefato pirotécnico lançado por um integrante da banda que fazia show na festa universitária.

Segundo um segurança que trabalhava no local, muitas pessoas foram pisoteadas. "Na hora que o fogo começou, foi um desespero para tentar sair pela única porta de entrada e saída da boate, e muita gente foi pisoteada. Todos quiseram sair ao mesmo tempo e muita gente morreu tentando sair", contou. O local foi interditado e os corpos foram levados ao Centro Desportivo Municipal, onde centenas de pessoas se reuniam em busca de informações.

A prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias e anunciou a contratação imediata de psicólogos e psiquiatras para acompanhar as famílias das vítimas. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde se reuniu com o governador Tarso Genro e parentes dos mortos. A tragédia gerou uma onda de solidariedade tanto no Brasil quanto no exterior.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Na segunda-feira, quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Sphor, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffman, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investigava documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergiam sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

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