Relatório aponta 8 fatores decisivos para acidente do voo 3054
Um relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, obtido pelo jornal Estado de S.Paulo, mostra oito fatores que contribuíram de forma decisiva para o acidente com o Airbus A320 da TAM, que deixou 199 mortos no dia 17 de julho de 2007. Entre os fatores, estão a posição errada dos manetes, as falhas no sistema de alerta do avião, na supervisão gerencial e na regulação de órgãos estatais.
O relatório aponta como uma das causas do acidente a posição irregular dos manetes de potência, pois um estaria em frenagem e outro, em aceleração. A maior probabilidade é de falha dos pilotos, pois segundo o relatório citado pelo Estado, é "elevada a improbabilidade estatística de falha no sistema de acionamento dos manetes".
Peritos teriam realizado 23 simulações de aproximação para pouso em Congonhas, nas quais as prováveis ações dos pilotos ao posicionar de forma errada os manetes levaram aos mesmos resultados do acidente. Segundo o relatório citado pelo jornal, as tentativas de arremetida (desistência do pouso) deram certo 15 segundos após os trens de pouso tocarem o solo, embora não fossem previstas pelo fabricante do jato.
As simulações mostraram que o aviso sonoro "retard", que adverte os pilotos sobre os procedimentos de pouso, nem sempre operou conforme previsto. Segundo o relatório, na aeronave A320 é possível posicionar os manetes de potência nas posições de frenagem e aceleração ao mesmo tempo, sem que o dispositivo alerte os pilotos. Essa situação, de acordo com o estudo, pode colocar a nave em condição crítica e causar uma catástrofe, dependendo do tempo em que a tripulação identifica o erro e dos parâmetros da pista de pouso.
Outros fatores apontados são as irregularidades em Congonhas, inclusive a falta de uma área de escape. O Departamento de Aviação Civil (DAC), hoje extinto, teria constatado esse problema em 2005 e a Infraero se comprometeu a avaliar soluções, em plano de ações corretivas, segundo o relatório citado pelo jornal. Um ano depois, ao analisar o plano, o DAC teria advertido que a Infraero seria responsabilizada por "danos e prejuízos a terceiros" por não corrigir o problema. O prazo teria expirado em agosto de 2006, quando a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) era responsável pela fiscalização.
A falta de certificação no Regulamento Brasileiro de Homologação Aeronáutica 139 (regra responsável pelos aeroportos do País), a falta de homologação nas obras concluídas em 2007 e a falta de inspeção aeroportuária especial durante as obras também foram fatores apontados.
O relatório citado pelo jornal também aponta falhas no treinamento e nas instruções que a companhia aérea TAM fornecia aos tripulantes, como o fato do co-piloto Henrique Stefanini di Sacco ter apenas um tipo de certificação, insuficiente para enfrentar aquela situação de risco. O relatório também aponta a formação teórica "massiva" dos pilotos, segundo o jornal, sem garantir a qualidade das instruções recebidas e a boa formação individual dos pilotos. A pouca experiência de Di Sacco, com 200 horas de voo em jatos A320, também foi apontada, assim como a falta de coordenação entre setores de operações e treinamento, que permitiram a entrada do co-piloto (que tinha apenas um treinamento específico) em uma tripulação de apenas dois comandantes.
Problemas na coordenação de cabine e na regulação também foram apontados. Quanto à coordenação, o relatório citado pelo jornal aponta que o monitoramento do voo não era adequado, pois a tripulação não sabia o que acontecia e não corrigiu. Sobre a regulação, o relatório indica que a proibição de operação de aeronave com reverso inoperante só foi normatizada pela Anac em 2008. Caso essa norma fosse anterior, o pouso com pista molhada seria impedido.
O relatório obtido pelo jornal ainda não foi divulgado oficialmente, pois estaria em fase final de elaboração. A conclusão está prevista para este ano e a comissão de investigação do acidente se reúne pela última vez nesta terça, segundo o Estado.
Relatório inconclusivo
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o relatório da Aeronáutica aponta como fator decisivo a imposição incorreta do manete, mas não conclui se o motivo para esse erro foi humano ou falha do equipamento. Contudo, o jornal afirma que, por convenção internacional, esse relatório não pode apontar culpados - essa tarefa é da Polícia Federal (PF) -, pois serve para prevenir novos acidentes.
De acordo com a reportagem, o documento não trará explicações nem deduções sobre o erro, já que a investigação da Aeronáutica não tem como, tecnicamente, indicar se houve falha humano ou do equipamento.