Ataques ao Irã oferecem à China chance de se distinguir dos EUA
Em nova oportunidade para contestar liderança global dos EUA, Pequim se apresenta ao mundo como defensora do direito internacional - apesar da questão de Taiwan.A China condenou veementemente os ataques contra o Irã, que resultaram na morte do chefe de Estado e líder religioso Ali Khamenei. O Ministério das Relações Exteriores da China afirmou que houve uma "violação flagrante e grave da soberania" do Irã e que os princípios da Carta da ONU foram pisoteados.
Para a China, o Irã é, ao lado da Rússia, o mais importante fornecedor de gás e petróleo. Estima se que o país absorva 90% da produção iraniana de petróleo. A maior parte dessas exportações era realizada por meio de países intermediários e com a ajuda de frotas clandestinas, já que o Irã é alvo de duras sanções econômicas internacionais.
A partir de abril de 2025, as exportações iranianas de petróleo passaram a ser contabilizadas em renminbi, a moeda da República Popular da China. O motivo é a exclusão do Irã do sistema internacional de pagamentos ocidental Swift.
Após os ataques dos EUA e de Israel no fim de semana, o Irã interrompeu temporariamente o tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, a faixa de mar de 50 quilômetros que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Isso paralisou uma das rotas mais importantes do comércio mundial de petróleo, por onde passa quase 20% do consumo global.
Dos 20 milhões de barris de petróleo bruto que atravessam o estreito diariamente, metade tem como destino a China, altamente dependente dessa produção de energia. Assim, Pequim vê sua segurança energética ameaçada caso o estreito permaneça fechado por um longo tempo devido a um conflito regional.
Aliados políticos contra os EUA
O Irã e a China também mantêm fortes vínculos políticos. Desde 2023, o Irã é membro da aliança de segurança liderada por China e Rússia, a Organização para Cooperação de Xangai (OCX), e, desde 2024, é membro do Brics+, o bloco das maiores economias emergentes e que tem o Brasil como um de seus membros fundadores.
O "assassinato escancarado" do líder de um Estado soberano e a incitação à mudança de regime são inaceitáveis, afirmou o chanceler da China, Wang Yi, num telefonema neste domingo com o ministro do Exterior da Rússia, Serguei Lavrov. Ele lembrou que os ataques aconteceram em meio a negociações entre os EUA e o Irã sobre o programa nuclear iraniano.
A posição da China está em linha com a do presidente russo, Vladimir Putin, que classificou a morte de Khamenei como uma "violação cínica de todas as normas da moral e do direito internacional".
Ataques ilegais pelo direito internacional
Na interpretação da China, os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que resultaram na morte de Khamenei, violam o direito internacional e as normas básicas que regem as relações internacionais, o que também é dito por muitos juristas.
Para o jurista e especialista em direito internacional Christoph Safferling, da Universidade de Erlangen Nuremberg, o direito internacional é bastante claro. "Existe uma proibição abrangente do uso da força. A independência territorial e a integridade política de um Estado soberano devem ser respeitadas. E não é isso o que vemos neste caso", declarou ao portal alemão de notícias Tagesschau. "Esses ataques aéreos atingem o Irã como Estado soberano e são, portanto, ilegais segundo o direito internacional."
O uso da força pode ser legítimo em algumas situações, por exemplo na existência de um mandato da ONU, em casos de autodefesa ou diante de uma catástrofe humanitária iminente, diz Safferling. Os EUA alegaram autodefesa e uma ameaça iminente. "Contudo, estamos falando de dois Estados, os EUA e o Irã, que estavam em negociações. Aí não há como dizer que não havia mais tempo para adotar outras medidas."
"Lei da selva"
A China critica, assim, o que chama de "lei da selva", em que o mais forte se impõe, se necessário, com bombas e mísseis. Em contraste a isso, as Nações Unidas existem para impedir o uso arbitrário da força militar.
A captura por forças americanas do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em janeiro, e seu subsequente julgamento em Nova York preocupam profundamente Pequim. "O ano de 2026 não começou nada bem", disse o presidente da China, Xi Jinping, ao chanceler federal da Alemanha, Friedrich Merz, na semana passada.
Segundo ele, os conflitos internacionais estariam demasiado entrelaçados, e o mundo estaria passando por um ponto de virada, com transformações profundas. Por isso, ao contrário dos EUA, a China afirma querer fortalecer as Nações Unidas.
Em paralelo, a China busca também uma maior aproximação com a Europa. Numa declaração conjunta após a visita de Merz, China e Alemanha reafirmaram sua visão de que os princípios da Carta das Nações Unidas e o direito internacional constituem a base da cooperação internacional.
Risco na argumentação de Trump
A argumentação de Trump para os ataques ao Irã embute um risco: se a China se valer do mesmo raciocínio, poderia reivindicar o direito de cruzar o Estreito de Taiwan alegando autodefesa. A China considera Taiwan uma província rebelde e não tolera a independência da ilha.
Os argumentos de Trump também poderiam ser usados pela Rússia para justificar a guerra na Ucrânia. Putin alegou ter iniciado a "operação militar especial" para proteger a população russa, até mesmo por motivos humanitários.
Os ataques dos Estados Unidos ao Irã dão à China uma nova oportunidade para moldar a opinião pública a seu favor e questionar a liderança global de Washington. A China quer se apresentar como uma nação forte, mas responsável, que não recorre à força arbitrariamente e respeita o direito internacional - mesmo que uma tentativa à força de reunificação com Taiwan seja um de seus principais interesses.