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Astrobiologia: por que a ciência considera necessário adotar mais de uma definição do que é vida

A definição de vida é fundamental para o estabelecimento da própria metodologia de pesquisa quando se investiga a origem da vida, ou se há vida fora da Terra

4 jun 2026 - 13h16
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Regularmente, o The Conversation Brasil publica artigos em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, instituição de fomento à divulgação científica brasileira e uma de nossas apoiadoras. A edição atual da revista é dedicada à Astrobiologia, ciência interdisciplinar que busca compreender a vida como fenômeno cósmico. Neste texto, o filósofo João Cortese discute a ausência de uma definição de vida plenamente satisfatória, o desafio lógico de explicar sua origem e os limites que o fato de conhecermos apenas um exemplo de vida impõe à busca por vida fora da Terra.

Filósofos gostam de propor definições. Aristóteles definia o ser humano como um "animal racional". Sobre o tempo, Santo Agostinho escreveu: "Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar, já não sei" (Confissões, XI, 14). Algo semelhante parece ocorrer com a vida: todos falamos dela, mas ao nos perguntarmos o que a define, o mistério nos desafia.

Definições precisas para questões complexas são muito difíceis e esbarram em ao menos dois problemas: em primeiro lugar, é possível realizar a definição pretendida? Além disso, há alguma utilidade em ter tal definição? É nesse sentido que a ciência está se questionando se, nos dias atuais, realmente vale a pena definir o que é a vida.

Muitas definições já foram propostas. Para mencionar um exemplo recente, temos a célebre definição da NASA para a vida: "um sistema químico autossustentado capaz de evolução darwiniana." Já o físico austríaco Erwin Schrödinger - um dos principais criadores da mecânica quântica - propôs, em 1943, que a vida seria "um sistema que evita o equilíbrio termodinâmico."

Nesse contexto, em 2002, o bioquímico americano Daniel E. Koshland Jr. propôs, em artigo clássico publicado na revista Science, (The Seven Pillars of Life), um acrônimo que indicaria as características da vida. Originalmente em inglês, PICERAS significa programação, improvisação, compartimentalização, energia, regeneração, adaptabilidade e seclusão.

Ter ou não uma definição?

Nenhuma dessas definições mencionadas chega a fechar a questão, que segue, por assim dizer, viva. Além do problema de considerar uma definição da vida como adequada (ou, como geralmente ocorre, inadequada), outra questão que se coloca é relacionada aos motivos para definir a vida. Por que fazê-lo?

A bio-logia, ciência do estudo da vida, parece avançar muito bem hoje sem uma definição da vida, assim como não há uma definição consensual do que é uma espécie ou mesmo um indivíduo biológico.

No entanto, impactos práticos derivam de definições, inclusive porque elas influenciam os modelos adotados na ciência. Sem definir o que conta como um indivíduo biológico, por exemplo, como dimensionar populações na Ecologia, ou mesmo distinguir entre diferentes gerações nos estudos da Genética e da Evolução?

Da mesma forma, para certas áreas das Ciências Biológicas, a definição de vida tem, sim, impacto direto. A definição de vida é fundamental para o estabelecimento da própria metodologia de pesquisa quando se investiga a origem da vida ou se há vida fora da Terra, temas que constituem o campo da Astrobiologia.

Nesse contexto, a pergunta "o que é vida?" deixa de ser apenas um problema filosófico e passa também a ter importância para a própria investigação científica. Afinal, para procurar vida fora da Terra, é necessário estabelecer critérios que permitam distinguir um ser vivo de algo não vivo.

Sem uma definição — ainda que provisória e instrumental — como caracterizar um evento que marcaria a origem da vida na Terra? Ela também influencia os critérios usados para avaliar se vida foi ou não encontrada.

Perguntar se pode haver vida em outro planeta nos força a entender melhor o que é necessário para que a vida exista aqui. Investigar como microrganismos sobrevivem em condições impossíveis revela a elasticidade extraordinária da biologia. Buscar bioassinaturas em atmosferas de exoplanetas nos obriga a compreender, com mais rigor, o que distingue a química da vida da química da matéria inerte.

Potenciais e limites

Emily Parke, pesquisadora da área de Filosofia da Biologia e Filosofia da Ciência propõe, nesse sentido, uma distinção interessante entre definições funcionais e materiais.

As definições funcionais são mais amplas, enfatizando funções ou processos da vida, como replicação, reprodução e variação. As definições materiais, por sua vez, baseiam-se na bioquímica do carbono ou nos ácidos nucleicos como distintivos da vida. São, portanto, mais restritivas: se afirmamos, em uma abordagem material, que a molécula de replicação deve ser o DNA, limitamo-nos à forma de vida que conhecemos na Terra.

Por outro lado, sabemos com mais precisão o que procurar, o que pode ser útil na busca por "bioassinaturas". Já a virtude das definições funcionais estaria em abrir outras possibilidades e abarcar formas de vida que não se assemelham às que já conhecemos.

De modo mais geral, cabe lembrar que a "essência" da vida pode, ainda, ser um problema filosófico ("Onde está a Vida que perdemos ao viver?", questionava-se T. S. Eliot) e que a ciência pode trabalhar com definições instrumentais. Trata-se de definições usadas como ferramentas práticas de investigação.

Em vez de buscar responder de forma definitiva "o que algo é", elas procuram estabelecer critérios úteis para observar, descrever, comparar e estudar um fenômeno. Seu valor, portanto, não está em encerrar filosoficamente a questão, mas em permitir que a ciência organize perguntas, teste hipóteses e produza conhecimento que possa ser continuamente revisado à luz de novos dados.

Vê-se, assim, que diferentes aspectos podem ser contemplados por diferentes definições, o que permite a adoção de um "pluralismo" na prática científica, trabalhando com mais de uma definição e adotando uma ou outra em função do contexto e do problema a ser abordado.

Aspectos práticos e éticos

Como nada é tão simples, nós somos seres humanos, vivos, e lidamos com criaturas vivas (animais, plantas e tantas outras formas de vida) para as quais a definição da vida pode ter um impacto de "vida ou morte".

Isso fica claro quando se define "vida humana". Aspectos bioéticos polêmicos de início e fim de vida estão relacionados a essa definição. Quando se fala em indivíduos em "morte encefálica", para dar um exemplo contemporâneo, considera-se que a vida humana cessa mesmo que o corpo ainda mantenha alguma atividade biológica.

Mas teria a vida um valor ético somente por ser vida? Há alguma diferença ética a ser respeitada no tratamento de uma bactéria em oposição, digamos, a uma pedra?

A questão pode parecer esdrúxula, e a maioria das pessoas dirá que o que importa eticamente é a vida dos humanos ou, no máximo, de seres sencientes (aqueles que podem sentir dor, em particular os animais).

Quando pensamos no tema atual da conservação da biodiversidade, vemos que a questão não é tão óbvia quanto parece. Deste ponto de vista, a perda de indivíduos de uma espécie — associada, em última instância, à sua extinção — ganha outra relevância ética, pois deixa de representar apenas uma redução numérica e passa a significar o desaparecimento de uma forma única de vida.

Essa biodiversidade ganha seu valor ético por si mesma (valorização intrínseca) ou devido à nossa valorização e aos benefícios que ela nos oferece (valorização instrumental)? Isso é tema para outro debate — mas o fato é que a própria definição de vida é um dos fatores que mantêm viva tal questão. Afinal, dependendo do que entendemos por vida, também se transformam as maneiras pelas quais atribuímos valor ético à biodiversidade e aos próprios seres vivos.

Deste ponto de vista, uma espécie ameaçada, uma floresta ou mesmo um microrganismo poderiam possuir valor por si mesmos, independentemente de qualquer utilidade humana. Por outro lado, também é possível compreender a biodiversidade a partir dos benefícios que ela nos oferece, como alimentos, medicamentos, equilíbrio climático, polinização e manutenção dos ecossistemas — sendo neste caso uma valorização instrumental.

Assim, a discussão sobre o que é vida deixa de ser apenas uma questão biológica e passa igualmente a envolver dimensões éticas e filosóficas, sobretudo diante de casos que desafiam definições mais tradicionais, como os vírus, organismos sintéticos ou mesmo possíveis formas de vida extraterrestre.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

João Cortese é membro afiliado ao Núcleo de Bioética do Instituto Pensi, mantido pela Fundação José Luiz Setúbal.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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