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Antes de Bolsonaro, presidente na ditadura quis cassar Globo

Briga de Roberto Marinho com general Figueiredo fez o canal romper alinhamento com o governo e sofrer pressão ao cobrir as Diretas Já

17 nov 2021 09h21
| atualizado às 09h21
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Se quiser suspender a concessão da Globo, Bolsonaro precisa do apoio de dois quintos da Câmara e do Senado
Se quiser suspender a concessão da Globo, Bolsonaro precisa do apoio de dois quintos da Câmara e do Senado
Foto: Fotomontagem: Blog Sala de TV

A novela sobre a concessão pública da TV Globo segue sem previsão de data para o último capítulo. Jair Bolsonaro se mantém calado. “Vai ter que estar direitinho a contabilidade para que possa ser renovada. Se não estiver tudo certo, não renovo”, avisou em abril de 2020.

A licença atual de funcionamento, assinada por Lula em 2008 (retroativa a 2007) com validade de 15 anos, expira em 5 de outubro de 2022. É da competência do presidente da República renovar ou não, e seja qual for a decisão, precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional.

Não é a primeira vez que a Globo se vê sob ameaça de perder a autorização estatal para funcionar. Em 1984, o general João Figueiredo, último presidente do regime militar, cogitou cassar a concessão se a emissora fizesse cobertura positiva das Diretas Já, movimento político com adesão popular de reivindicação de eleições diretas para presidente.

“Ameaçaram tirar o canal do dr. Roberto Marinho”, relatou o então ex-vice presidente da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, à ‘Folha de S. Paulo’. Ele foi questionado pelo jornal sobre quem fez a ameaça. “O general Figueiredo”, respondeu.

“O dr. Roberto brigou com ele quando ele dividiu a TV Tupi em duas redes para concorrer com a Globo: a Manchete e o SBT”, contou. Apoiador do regime militar, Roberto Marinho decidiu descolar sua rede de TV do governo após o desentendimento.

Irritado, o general Figueiredo não queria que o mais influente canal do País transmitisse ao vivo o comício histórico de 25 de janeiro de 1984, em São Paulo, em defesa da emenda ‘Dante de Oliveira’, que propunha o restabelecimento das eleições diretas.

“Foi montado na sala do Roberto Irineu (Marinho, filho mais velho de Roberto Marinho) um esquema para controlar se o discurso fosse muito pesado”, lembrou Boni, que ocupou cargos de direção na Globo de 1967 a 1997. Disse ainda que a emissora era “pressionada por pessoas do governo”.

A emenda das eleições diretas não passou no Congresso. O general Figueiredo deixou a Presidência em 15 de março de 1985, quando José Sarney, vice de Tancredo Neves (impedido de tomar posse por estar doente), assumiu o poder após eleição indireta entre os parlamentares.

Em 1989, a Globo ajudou Fernando Collor contra Lula na primeira eleição direta após o fim da ditadura. Em entrevista ao ‘Morning Show’ da rádio Jovem Pan em 2016, Boni admitiu a interferência da emissora na campanha. “Eu fui responsável pela preparação dele (Collor)”, afirmou o executivo. “O dr. Roberto Marinho me pediu para ajudar nesse sentido. Ele acreditava no Collor.”

Hoje, Jair Bolsonaro vê o Grupo Globo como seu pior inimigo na mídia. Alega ser “perseguido” pela maior empresa de comunicação do Brasil. Costuma chamar o canal de “lixo”. Em comunicado lido pela âncora do ‘Jornal da Globo’, Renata Lo Prete, em 30 de outubro de 2019, a TV líder em audiência se posicionou a respeito da ‘ameaça’ relacionada ao futuro da concessão.

“Sobre a afirmação de que, em 2022, não perseguirá a Globo, mas só renovará a sua concessão se o processo estiver, nas palavras dele (Jair Bolsonaro), enxuto, a Globo afirma que não poderia esperar dele outra atitude. A emissora jamais deixou de cumprir as suas obrigações”, comunicou a jornalista.

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